História da Filosofia – Aula 4: Parmênides e a Lógica da Imobilidade

“Então [de acordo com Parmênides] o mundo é simplesmente uma bola não diferenciada de matéria bem empacotada, imóvel e imutável. Agora, é desnecessário dizer, essa não é a maneira com a qual ele aparece aos nossos sentidos.”
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 4.
(Há tanto movimento no mundo que é difícil entender como Parmênides chegou a pensar que não há. Contudo, havia lógica por trás do seu raciocínio, e isso gerou um sério problema para a filosofia. Foram necessários cerca de cem anos e Aristóteles para a humanidade encontrar uma solução.)

Heráclito disse: “A mudança é óbvia, portanto, ao inferno com a lógica.” Parmênides disse: “A lógica é óbvia, portanto, ao inferno com a mudança.” Ainda usando as próprias palavras de Peikoff, sua filosofia pode ser resumida pelo princípio “O que é, é, e o que não é, não é, e o que não é, não pode nem ser, nem ser pensado.” Difícil negar essa lógica.

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Ordem, Dualidade e Escuridão

”Se eu sou o maior dos pecadores, eu sou o maior dos sofredores também.”
— Dr. Jeckyll, em “O Estranho Caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”, por Robert Louis Stevenson, página 23.
(Os dois amigos do Dr. Jeckyll conversam com ele da rua abaixo, apenas para vê-lo perder subitamente o controle e bater a janela em suas caras. Quem não tem um Mr. Hyde à espreita na escuridão interior?)

Quão incrível é o poder da ordem! A ordem certa, claro; aquilo que apenas um grande escritor alcança. Pois o que é escrever senão encontrar a sequência correta de palavras em meio ao caos das possibilidades? Se você der uma máquina de escrever a um macaco, dizem, e deixá-lo esmurrar as teclas por todo o infinito, ele quase certamente comporá a Ilíada. No entanto, o homem-o-macaco-pensante precisa de apenas um punhado de anos para criar suas obras-primas. Não se trata apenas de palavras ou frases ou personagens ou tramas. É quase como um crime premeditado, com todas suas maquinações malignas embutidas nas palavras, antecipando sua consumação em uma passagem inspiradora. Foi escrevendo sobre a escuridão – e pensando na escuridão interior – que me lembrei de “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” e uma das melhores cenas que já encontrei.

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História da Filosofia – Aula 3: Heráclito e o Mundo das Contradições

Um grande número de crianças vivem nesse tipo de mundo graças à irracionalidade deliberada de seus pais, cujo comportamento é caracterizado por mudanças e flutuações constantes, de forma que nada permanece verdadeiro de um momento ao outro, e por constantes contradições. Essa é a receita perfeita para o mundo heracliteano.
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 3.
(Desde muito cedo na história da filosofia, Heráclito desconsiderou os sentidos como inválidos e aceitou a contradição na realidade. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, ainda sentimos os efeitos de tais erros.)

Tales deu origem à filosofia confiando na experiência sensorial e na razão. O próximo filósofo[1]Heráclito – não só seguiu um caminho diferente, mas deslanchou uma reação em cadeia que atravessou a história, derrubando como dominós tudo o que o homem tentou erigir com sua razão. Tudo começou com o problema da mudança e multiplicidade; tudo terminou com a minha sobrinha de treze anos perguntando petulantemente: “Por que não posso simplesmente decidir que sou um menino?”

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História da Filosofia – Aula 2: Tales e o Nascimento da Filosofia

…eles são um monumento não à vida, mas à morte, e a questão no Egito não era quão boa uma vida você poderia viver, mas quão boa uma morte você poderia morrer..
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 2.
(Contraste essa atitude pró-morte com a atitude pró-vida dos gregos: “Antes servo na terra do que rei no mundo dos mortos”, disse o fantasma de Aquiles a Odisseu. A primeira produziu gigantescas tumbas para turistas; a segunda criou a filosofia.)

Filosofia é fazer as grandes perguntas. Mas se elas já são respondidas pelo Estado ou pelo sacerdote mais próximo, para quê o esforço? Desde as grandes dinastias da Suméria e do Egito, a explicação do mundo era dada pelos deuses-reis. A vida era inexoravelmente dura e sofrida, e seria melhor para o homem voltar sua atenção para o outro mundo, para a vida após a morte. Essa maior de todas as evasões do homem não foi uma invenção do cristianismo — basta lembrarmos das pirâmides, aquelas gigantescas tumbas. Melhor se curvar, rezar e implorar do que tentar entender e explicar o mundo. Foi na Grécia do século VI a.c. que tudo isso mudou, e começou com Tales.

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