Dedicação Àqueles que Desafiaram a Morte

Jolanta (o nom de guerre de Irena) salvou mais judeus que qualquer outra pessoa durante a guerra, cerca de 2,500. Há melhor exemplo de combatente?
(“Irena Sendlerowa”, por Mariusz Kubik / CC BY 3.0 / Dessaturado do original)

Eu não escrevi as palavras abaixo — eu apenas as digitei. Eu não acho que eu teria a capacidade de transpor meus sentimentos em palavras tão fortes, viscerais e honestas, mesmo se eu tivesse vivido o que esse homem viveu.

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O Combatente – #5

Ele escuta muitas coisas interessantes, mas, fugazes, elas se vão quase tão rápido quanto chegam; só a morte permanece. Nem mesmo os motivos das mortes, os nomes das guerras ou as datas aproximadas ficam. Nada além do puro e grotesco fato de tantas mortes. Agora, enquanto ele olha para o passado do conforto do futuro, o tempo se comprime, a realidade perde importância, e o absurdo parece pouco mais do que meras palavras, palavras que nem mesmo mais usam tinta e papel.

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Lucrécio e meu Pai

Lucrécio – “Sobre a Natureza das Coisas”.

A grande maioria das pessoas que eu conheço acredita em algum tipo de vida após a morte. Elas não pensam necessariamente que estão indo para um paraíso com anjos sobre as nuvens, ou para um inferno dantesco onde encontrarão todos os pecadores, muito menos para uma eterna recorrência de batalhas e banquetes como no Valhalla dos vikings. Eles apenas não conseguem aceitar que tudo simplesmente acabará. Hoje, em outro aniversário da morte de meu pai, eu os invejo.

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Maldito seja, Epicteto!

Eu vejo minha mãe deitada na cama do hospital e eu amaldiçoo Epicteto. Ele diz que temos que ser indiferentes a coisas indiferentes. Ele diz que coisas indiferentes são dor, doença, morte e tudo o que está além do nosso controle, tudo que não se origina de nossas próprias ações e feitos. É inútil lutar contra os desígnios de Deus, então tudo o que devemos fazer é nos comportar e seguir o fluxo, mantendo uma resignação serena em relação às dificuldades da vida. Devemos pensar objetivamente sobre tudo o que acontece em nossas vidas, esforçando-nos para sermos justos em nossas ações, desempenhando nossos deveres como homens racionais, cumprindo nosso papel de criaturas divinas. Em suma, ele quer que eu não dê a mínima para a morte que se aproxima de minha própria mãe — e isso me enfurece.

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Violência Natural

“Olhai em redor: o sangue corre em rios, até mesmo alegremente, como se fosse champagne. […] Que é que a civilização suaviza em nós? […] Acontece que o homem pode acabar encontrando prazer no sangue. […] Seja como for, se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, decerto o fez mais perversamente, mais covardemente sanguinário que antes. Antes, ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e era de consciência tranquila que exterminava quem lhe aprazia; hoje, embora considerando o derramamento de sangue uma coisa abominável, entregamo-nos a essa abominação ainda mais frequentemente que antes. Que é pior? Decidi por vós mesmos.”
— Fyodor Dostoyevsky, “Notas do Subterrâneo”.

O dia está quase acabando e bate aquele desespero que agora já me é conhecido. Eu ainda não escrevi post algum, não tenho nenhum guardado para momentos como esse, e, o que é pior, não tenho ânimo para escrever. No entanto, escrever é preciso. Como diz um amigo meu (se referindo ao hábito de correr todo dia): quando está difícil, quando não há ânimo algum, quando tudo o que você mais quer é não fazer aquilo é justamente o momento em que você mais deve fazê-lo — só nesse momento é que existe mérito verdadeiro. E, assim, me forço a escrever. Mas tudo que vem na minha mente é o absurdo da violência em que vivemos, e cada palavra que escrevo me incomoda.

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Voe!

“Quem passou pela Vida em branca nuvem, / E em plácido repouso adormeceu,
 / Quem não sentiu o frio da desgraça,
 / Quem passou pela Vida e não sofreu,
 / Foi espectro de homem; não foi homem,
 / Só passou pela Vida, não viveu.”
– Francisco Otaviano –
(por Barry Holubeck / CC BY-SA 3.0 / Dessaturado do original)

Quando um policial morre baleado, não é tão difícil entender; a vida nas ruas é perigosa, mas alguém tem que vivê-la se esperamos ter um mínimo de segurança e ordem. Então, quando acontece, o burburinho é no sentido de saber exatamente o que houve: se foi covardia dos bandidos, se foi em combate ou se o policial estava na sacanagem. Mas nunca se questiona o “mérito” da morte — policial e bandido morrem com tiro e é isso.

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O Combatente – #1

Quando o alarme dispara às duas da manhã, ele tem certeza de que ainda está sonhando. Ele apenas fechou os olhos, então não pode ser hora de acordar. Mas é. O problema é que depois de vinte horas trabalhando duro para proteger as famílias dos outros, tentando ganhar no setor privado o dinheiro que a polícia é que deveria fornecer, essas três horas de sono parecem passar como um relance, um breve interlúdio de vida tão profundo quanto a própria morte.

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Luto Desprezível

Eu não entendo mais o mundo em que eu vivo. Inocente ou criminoso, vocês são todos iguais.

Seis pessoas morreram por causa das fortes chuvas que assolaram o Rio há dois dias. Ontem, logo ao raiar do dia, dez jovens entre quatorze e dezesseis anos morreram queimados em um incêndio no centro de treinamento do Flamengo. Pouco depois, treze criminosos armados foram mortos pela polícia em uma violenta favela carioca. O que, além do Anjo da Morte pairando nos céus, existe de comum nos três casos? Segundo um dois maiores jornais da cidade e, é claro, um monte de idiotas pelas redes sociais, a resposta é óbvia: TODOS são pobres inocentes.

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Escuridão Que Se Aproxima

Conhecer a sua própria escuridão é o melhor método para lidar com as escuridões de outras pessoas.
— Carl Gustav Jung

Estou na minha escrivaninha, muito cedo pela manhã, logo após acordar. Eu tenho uma caneca de café na mão e uma página em branco na tela do computador. A umidade do ar combina com a crosta nos olhos para tornar a visão nebulosa, como um sonho. Em contraste, o sonho em si não está nada nebuloso na minha memória, tão fresco que quase posso sentir o cheiro de enxofre. Não é a mais bonita das manhãs, e será quente. Eu sinto frio.

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