Linha Dividida

O mundo sensível: coisas e seus reflexos — meras opiniões.

O homem vive nas sombras. Ele cria opiniões sobre coisas que ele nem mesmo tem certeza se existem. E mesmo essas coisas não são totalmente reais. O cientista consegue transcender o falho mundo dos sentidos — das coisas como nos parecem — e elaborar hipóteses sobre a realidade. Mas somente o filósofo chega à luz e, a partir dela, consegue enxergar as coisas como elas realmente são. Essa é a teoria platônica sobre o mundo, uma mistura fascinante de teoria do conhecimento e metafísica.

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Potência e Ato

Eu tenho a potência para agir. Eu tenho a potência para escrever. Todo mundo tem. Apenas o ato perfeito não tem mais potência. Um ato é relativo à potência que lhe é própria. O ato perfeito em relação à potência da escrita é Ilíada, Moby Dick, Duna. Potência é imperfeição. A maioria dos atos também é imperfeita, apenas menos. O protótipo do ato imperfeito da escrita é o que estou fazendo agora.

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Universalia II

Obrigado, Sr. Copleston.
(Frederick Copleston, (1907 – 1994). / CC BY-SA 1.0 / Contraste aumentado)

Como vimos na citação de Porfírio em Universalia, ele se absteve da luta pela verdade sobre os universais. Mas referindo-se ao problema apenas em relação a gêneros e espécies, penso que ele pode ter criado outro problema, um viés no estudo dos universais que atravessou toda a Idade Média até nossos dias para confundir nossas mentes ignorantes sobre o tema — minha mente ignorante, ao menos.

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Universalia

Debate imaginário entre Averróis e Porfírio.
Eu poderia apostar que o assunto seria o problema dos universais.

Começando com Sócrates e especialmente Platão, o “problema dos universais” (chamado universalia pelos lógicos da Idade Média) tem atormentado a história do pensamento até hoje. Mas o que foi — ou melhor, o que é — exatamente esse problema? Existe realmente um problema? Eu coloquei essa ideia na minha cabeça de que eu preciso me dedicar a este problema, mas a verdade é que eu ainda não entendo completamente a sua importância. O que eu gostaria de ser capaz de fazer é convencer um completo leigo em filosofia de que ele deveria se interessar por esse problema. No momento, acho isso completamente impossível. Abaixo, reproduzo algumas definições do problema que encontrei online apenas para começar a pensar no assunto. O caminho à frente será árduo, então vou começar devagar.

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De Volta A Que Coisas Mesmas?

Por favor, olhe para o mundo!
(Gorilla Selfie, por Anthony Poynton)

Não vou fingir aqui que eu compreendo plenamente o existencialismo, a fenomenologia ou o tomismo — eu sou apenas um estudante tentando subir os primeiros degraus de uma longa escada. Mas a ignorância funciona bem como um primeiro filtro. A faca intelectual cega, que é tudo que eu tenho com que trabalhar por enquanto, impede uma elaboração complexa de pensamento que possa justificar todos os tipos de absurdos. Então, é navegando (ou me afogando) em meio a essa ignorância que faço essa pergunta: Por que as filosofias mais subjetivas tentam se disfarçar como objetivas? Elas não olham para o mundo; elas olham para elas mesmas.

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Maritain, o Objetivista

“Eu não sou um neo-tomista. No geral, eu prefiriria ser um paleo-tomista do que um neo-tomista. Eu sou, ou pelo menos eu espero que seja, um tomista.”
Jacques Maritain, “Existência e o Existente”, Introdução.
(A Tentação de Sto. Tomás de Aquino, por Bernardo Daddi, 1338.)

Claro que Jacques Maritain não era um objetivista; ele era um tomista. E ser tomista, aprendi, é participar pelo menos do primeiro (e, possivelmente, do mais importante) axioma do objetivismo: “Existência existe”. Isso facilita muito minha vida, agora que decidi apresentar um trabalho inexistente sobre ele em uma conferência no futuro próximo.

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Quatro Categorias do Ser

Eu ainda não faço ideia do que é uma substância, e só tenho uma noção do que seria um universal. Mas eu sei bem o que é um acidente.

Meu último post sobre a “Metafísica” de Aristóteles não deu muito certo, eu sei. Mas agora vai piorar. Porque eu preciso de uma longa digressão para preparar o terreno para aquela coisa ilusória chamada entendimento. Aristóteles define o conceito de substância primeiro nas “Categorias“, uma obra geralmente considerada anterior à Metafísica, e que deve ser lida primeiro também. Lá ele explica os fundamentos de muitos termos que usa depois em todo o corpus. É lá também onde ele introduz suas famosas dez categorias do ser. Tudo o que quero aqui é chegar à primeira categoria, mas permita-me que eu ande por todo o caminho até lá.

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Que Diabos é Substância?

Um cavalo é uma substância? Um homem é? Que tal uma estátua de cavalo e homem? A matéria subjacente é a substância ou é a sua forma? Ou é o composto da matéria e forma o que uma substância realmente é? Talvez não haja substância. Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas…

Durante a maior parte da minha vida, eu dei preferência a ler não-ficção em relação à ficção, usando o argumento de que uma vez que “a verdade é mais estranha que a ficção”, por que perder meu tempo com “verdades inventadas”? Não preciso dizer que eu estava profundamente enganado. Mas conto isso agora apenas para explicar por que, durante esse mesmo período da minha vida, eu lia não-ficção como se fosse ficção. Eu lia página por página apreciando o mistério do entendimento gradativamente se desdobrar diante dos meus olhos, ansiando pelo final do livro como se o assassino de uma estória de Agatha Christy fosse ser revelado. Foi ingênuo assim (para não dizer estúpido) que três anos atrás fiz uma débil tentativa de enfrentar a “Metafísica” de Aristóteles. O trauma foi tão forte que só agora estou me recuperando. Rapaz, é nessas horas que eu gostaria de acreditar em Deus ou qualquer outra superstição menor! Porque agora vou precisar de toda a ajuda que puder ter para encarar esse tomo.

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O Livro Esquecido da “Metafísica”

A “Metafísica” de Aristóteles começa dizendo que “Todos os homens desejam por natureza o saber”. Ele, claro, considerava como “homens” um grupo seleto de pessoas — os cidadãos gregos — não a maioria do povo grego formada por escravos — seres que se permitiram conquistar, seres inferiores — muitos menos os bárbaros não gregos. Talvez o problema seja justamente esse: a maioria de nós deve ser descendente dos escravos e, como disse Will Durant, deve ter sido a escravidão que nos preparou para o hábito da labuta. Se assim não fosse, talvez não vivêssemos trabalhando tanto e pensando tão pouco. Porque quando olho à minha volta, não vejo muitas pessoas interessados no saber. Na verdade, não vejo quase ninguém.

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História da Filosofia – Aula 4: Parmênides e a Lógica da Imobilidade

“Então [de acordo com Parmênides] o mundo é simplesmente uma bola não diferenciada de matéria bem empacotada, imóvel e imutável. Agora, é desnecessário dizer, essa não é a maneira com a qual ele aparece aos nossos sentidos.”
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 4.
(Há tanto movimento no mundo que é difícil entender como Parmênides chegou a pensar que não há. Contudo, havia lógica por trás do seu raciocínio, e isso gerou um sério problema para a filosofia. Foram necessários cerca de cem anos e Aristóteles para a humanidade encontrar uma solução.)

Heráclito disse: “A mudança é óbvia, portanto, ao inferno com a lógica.” Parmênides disse: “A lógica é óbvia, portanto, ao inferno com a mudança.” Ainda usando as próprias palavras de Peikoff, sua filosofia pode ser resumida pelo princípio “O que é, é, e o que não é, não é, e o que não é, não pode nem ser, nem ser pensado.” Difícil negar essa lógica.

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