Violência Natural

“Olhai em redor: o sangue corre em rios, até mesmo alegremente, como se fosse champagne. […] Que é que a civilização suaviza em nós? […] Acontece que o homem pode acabar encontrando prazer no sangue. […] Seja como for, se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, decerto o fez mais perversamente, mais covardemente sanguinário que antes. Antes, ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e era de consciência tranquila que exterminava quem lhe aprazia; hoje, embora considerando o derramamento de sangue uma coisa abominável, entregamo-nos a essa abominação ainda mais frequentemente que antes. Que é pior? Decidi por vós mesmos.”
— Fyodor Dostoyevsky, “Notas do Subterrâneo”.

O dia está quase acabando e bate aquele desespero que agora já me é conhecido. Eu ainda não escrevi post algum, não tenho nenhum guardado para momentos como esse, e, o que é pior, não tenho ânimo para escrever. No entanto, escrever é preciso. Como diz um amigo meu (se referindo ao hábito de correr todo dia): quando está difícil, quando não há ânimo algum, quando tudo o que você mais quer é não fazer aquilo é justamente o momento em que você mais deve fazê-lo — só nesse momento é que existe mérito verdadeiro. E, assim, me forço a escrever. Mas tudo que vem na minha mente é o absurdo da violência em que vivemos, e cada palavra que escrevo me incomoda.

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Bloqueio de Escritor

Bloqueio de Escritor.
(por Drew Coffman / CC BY 2.0 / Dessaturado do original)

Eu invejo o bloqueio de um escritor. Ele pressupõe um escritor sentindo algo, um coração cheio contrastando com uma página em branco e encontrando nessa contradição o motivo do desespero. Palavras esmurrando por dentro, tentando rasgar a pele, ansiando pela liberdade que só a página pode proporcionar. Mas elas não são livres, pois há um carcereiro: bom gosto — caso contrário, qualquer coisa pode preencher uma página. Eu invejo o bom gosto de um escritor também. Meu desespero vem de raciocínio que não leva a lugar algum, de proposições vazias combinando conceitos flutuantes, de argumentos falaciosos combinando proposições tendenciosas. Meu desespero vem de falsas premissas se tornando conclusões surreais, que por sua vez tornam-se falsas premissas e então conclusões surreais de novo, como se eu estivesse andando em uma faixa de Moebios, torcendo meu próprio caminho em um ciclo interminável e irritante. Meu desespero não vem de sentimentos que não se tornam palavras. Não há nenhum. O absurdo reina, mas eu ignoro o sentimento. Eu ignoro sentimento. Eu finjo que o raciocínio é suficiente. O homem é o animal que pensa ou não é? Mas ele não é o animal que sente também? Emoções — as verdadeiras — não são apenas percepções sensoriais ligando a realidade a algum órgão. Sim, elas dependem da razão — parcialmente. Você se habitua a valorizar isso e aquilo de modo a sentir como você sente. Você poderia se forçar a sentir o contrário — talvez — mas não hoje. Hoje, você é um escravo obedecendo ao vencedor do conflito platônico acontecendo dentro de sua alma. Ou é você o vencedor? Seja qual for o motor que gera esse sentimento, quando floresce, é exclusivo do homem. Nenhum animal sente como nós, alegria e tristeza, orgulho e fragmentação, satisfação e raiva. Nenhum animal sente o sucesso em seus ossos ou a alegria de estar vivo. Nenhum animal quer se vingar com todo o seu coração apenas para se sentir envergonhado quando percebe que não é seu coração falando, mas algo menor, mais escuro, mais sombrio. Ambos os sentimentos — vingança e vergonha — tentam reescrever o presente: o primeiro agoniza sobre o futuro; o segundo, sobre o passado — ambos inúteis. Nenhum animal é tão estúpido. Eles têm coisas mais importantes para fazer: sobreviver é uma delas. E nós temos coisas ainda mais importantes para fazer: viver é uma delas. No entanto, nós não vivemos. Não de verdade. É o sentimento humano que acabará por preencher a página: vida abstraída — não palavras ou pensamentos ou argumentos. Estas que você vê acima são palavras, meras palavras. Todas elas encurraladas em um único parágrafo longo demais, como se pudesse haver arte suficiente para justificar isso. Simplesmente não há razão para quebrar a “linha de pensamento”, a linha do “não-sentimento”. Este sou apenas eu tentando escrever sem parar, tentando sentir ao fazê-lo, e falhando miseravelmente. Eu paro e não sinto. Palavras são forçadas; emoções inexistentes. Inveja é o máximo que sinto; Ah, se ao menos isso bastasse! Eu invejo escritores. Eu invejo aqueles que sentem. No entanto, aprecio a razão e a lógica. Existe alguma lógica nisso? Pelo menos, não sinto bloqueio de escritor. Eu não sou um escritor. Eu nunca serei.

Truby e o Mundo da Estória

O mundo da estória, explica John Truby em “A Anatomia da Estória”, é “uma teia complexa e detalhada na qual cada elemento tem um significado na estória e é, de alguma forma, uma expressão física da teia de personagens e especialmente do herói”. Ele usa o termo “condensador-expansor”, porque o mundo da estória condensa significado e depois o expande gradualmente para a mente do público, como mensagens subliminares trabalhando em segundo plano. Como dizemos no jargão de Operações Especiais, você deve tentar conquistar “corações e mentes” do seu público, e com o mundo certo para a sua estória, você faz exatamente isso.

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Truby e o Argumento Moral

Ah, quão complexo é escrever ficção! Escrever qualquer coisa, na verdade. John Truby, em “A Anatomia da Estória”, diz que eu preciso criar crescimento moral, mas como é que alguém sabe como crescer moralmente em primeiro lugar? É exatamente por isso que comecei a escrever; o porquê de eu estar escrevendo nesse momento — para evoluir moralmente. Eu preciso estar familiarizado com as palavras para poder expressar minha vida através delas, para que eu possa aprender a entendê-la. A única solução que eu prevejo é crescer enquanto escrevo. Mais uma vez, quão complexo!

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Truby e o Esqueleto da Estória

Todo esqueleto tem uma estória. Ou seria o contrário?

De acordo “A Anatomia da Estória” de John Truby, a estrutura de uma história é como ela se desenvolve ao longo do tempo. Ela é também o esqueleto ao qual toda a carne está ligada. Qualquer história tem um mínimo de sete partes, todas as quais devem estar organicamente ligadas à sua premissa e fluir naturalmente dela.

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Truby e o Porquê da Ficção

O livro que me fez querer aprender a arte da ficção.
(“Moby Dick”, por Augustus Burnham Shute, 1851-1906.)

Eu tenho esse desejo de escrever sobre a minha vida. Parece egocêntrico e provavelmente é um pouco, mas acho que há muito o que contar — se ao menos eu pudesse aprender as lições. A verdade é que é difícil encarar a verdade. Então eu pensei que tentar escrever ficção pode ser uma maneira de tornar isso mais fácil. Talvez fingindo que estou escrevendo sobre outra pessoa — alguém que nem sequer existe — misturando personalidades aqui e ali, adicionando quaisquer detalhes que eu ache interessante, eu possa realmente ser capaz de analisar minha vida em vez de sempre me evadir da tarefa. O problema é que eu não sei praticamente nada sobre a arte de escrever ficção.

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Foda-se! Seu Idiota Perfeccionista

Comigo é sempre dor ou prazer. Sempre fugindo ou mergulhando de cabeça. Eu disse que se eu mudasse os planos, estaria aceitando a derrota. E daí? Vou dizer da maneira mais direta possível: Dez anos atrás, deixei meu melhor amigo para morrer no campo de batalha. Eu nunca aceitei essa derrota. Eu simplesmente me evadi. E agora eu quero fazer o mesmo com esta situação aparentemente muito mais tola. Agora, é apenas sobre o meu caráter; não há vidas envolvidas além da minha. Eu quero perder e não aceitar. Isso é pura evasão — de novo. Foda-se! Eu vou perder, mas vou mudar e vou me adaptar. Eu deveria ter feito isso dez anos atrás. Eu vou começar a fazer isso agora.

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Ordem, Dualidade e Escuridão

”Se eu sou o maior dos pecadores, eu sou o maior dos sofredores também.”
— Dr. Jeckyll, em “O Estranho Caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”, por Robert Louis Stevenson, página 23.
(Os dois amigos do Dr. Jeckyll conversam com ele da rua abaixo, apenas para vê-lo perder subitamente o controle e bater a janela em suas caras. Quem não tem um Mr. Hyde à espreita na escuridão interior?)

Quão incrível é o poder da ordem! A ordem certa, claro; aquilo que apenas um grande escritor alcança. Pois o que é escrever senão encontrar a sequência correta de palavras em meio ao caos das possibilidades? Se você der uma máquina de escrever a um macaco, dizem, e deixá-lo esmurrar as teclas por todo o infinito, ele quase certamente comporá a Ilíada. No entanto, o homem-o-macaco-pensante precisa de apenas um punhado de anos para criar suas obras-primas. Não se trata apenas de palavras ou frases ou personagens ou tramas. É quase como um crime premeditado, com todas suas maquinações malignas embutidas nas palavras, antecipando sua consumação em uma passagem inspiradora. Foi escrevendo sobre a escuridão – e pensando na escuridão interior – que me lembrei de “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” e uma das melhores cenas que já encontrei.

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