O Combatente – #6

É por isso que ele odeia sair de casa tarde. São cinco da manhã e ele ainda nem chegou à Linha Vermelha. O fluxo de carros convergindo para o seu caminho significa tráfego pesado à frente. As lanternas vermelhas dos carros brilham como olhos de morcegos à noite, um milhão deles em procissão para alcançar seu mestre das trevas. Ele poderia verificar o aplicativo de mapa em seu celular, mas certas coisas é melhor não saber. Ele geralmente se sente bem em ter um horário incomum de trabalho. Isso o ajuda a fingir que não é um mero operário indo e vindo em sua labuta diária, como Sísifo carregando sua rocha para cima e para baixo da montanha. Seu horário geralmente evita o tráfego. Mas hoje — logo hoje — ele terá tempo para deixar de se sentir especial e se juntar ao bando.

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O Combatente – #5

Ele escuta muitas coisas interessantes, mas, fugazes, elas se vão quase tão rápido quanto chegam; só a morte permanece. Nem mesmo os motivos das mortes, os nomes das guerras ou as datas aproximadas ficam. Nada além do puro e grotesco fato de tantas mortes. Agora, enquanto ele olha para o passado do conforto do futuro, o tempo se comprime, a realidade perde importância, e o absurdo parece pouco mais do que meras palavras, palavras que nem mesmo mais usam tinta e papel.

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O Combatente – #4

Não há nada lá fora. É como se ele finalmente chegasse ao fim do mundo que sempre imaginou quando criança. Ele costumava lutar com a idéia do infinito. Como isso é possível? Tudo deve ter um fim. Mas quando ele tentava imaginar tal fim, ficava perplexo. Ele imaginava uma enorme parede de tijolos se estendendo indefinidamente em todas as direções. Mas, é claro, sempre surgia a pergunta óbvia: O que está além da parede? Agora, de pé em sua varanda, olhando para o vale à frente, tudo o que ele vê é um maciço cinza-escuro cobrindo todo o campo de visão, como sua parede de tijolos.

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O Combatente – #3

Ele daria graças a Deus pela vibração em seu bolso, mas ele não é tão hipócrita. Suas crenças estão extremamente escassas hoje em dia: sua Glock 22 na cintura é uma delas; Deus não entra na lista. Mas é com sincera gratidão à deusa Fortuna que ele faz uma das coisas que mais odeia e pega seu celular dentro do bolso — pelo menos seu transe acabou, e ele encontra a decisão necessária para sair do quarto de sua filha. Ele não olha para trás enquanto fecha suavemente a porta.

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O Combatente – #1

Quando o alarme dispara às duas da manhã, ele tem certeza de que ainda está sonhando. Ele apenas fechou os olhos, então não pode ser hora de acordar. Mas é. O problema é que depois de vinte horas trabalhando duro para proteger as famílias dos outros, tentando ganhar no setor privado o dinheiro que a polícia é que deveria fornecer, essas três horas de sono parecem passar como um relance, um breve interlúdio de vida tão profundo quanto a própria morte.

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