Dedicação Àqueles que Desafiaram a Morte

Jolanta (o nom de guerre de Irena) salvou mais judeus que qualquer outra pessoa durante a guerra, cerca de 2,500. Há melhor exemplo de combatente?
(“Irena Sendlerowa”, por Mariusz Kubik / CC BY 3.0 / Dessaturado do original)

Eu não escrevi as palavras abaixo — eu apenas as digitei. Eu não acho que eu teria a capacidade de transpor meus sentimentos em palavras tão fortes, viscerais e honestas, mesmo se eu tivesse vivido o que esse homem viveu.

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O Combatente – #6

É por isso que ele odeia sair de casa tarde. São cinco da manhã e ele ainda nem chegou à Linha Vermelha. O fluxo de carros convergindo para o seu caminho significa tráfego pesado à frente. As lanternas vermelhas dos carros brilham como olhos de morcegos à noite, um milhão deles em procissão para alcançar seu mestre das trevas. Ele poderia verificar o aplicativo de mapa em seu celular, mas certas coisas é melhor não saber. Ele geralmente se sente bem em ter um horário incomum de trabalho. Isso o ajuda a fingir que não é um mero operário indo e vindo em sua labuta diária, como Sísifo carregando sua rocha para cima e para baixo da montanha. Seu horário geralmente evita o tráfego. Mas hoje — logo hoje — ele terá tempo para deixar de se sentir especial e se juntar ao bando.

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O Combatente – #5

Ele escuta muitas coisas interessantes, mas, fugazes, elas se vão quase tão rápido quanto chegam; só a morte permanece. Nem mesmo os motivos das mortes, os nomes das guerras ou as datas aproximadas ficam. Nada além do puro e grotesco fato de tantas mortes. Agora, enquanto ele olha para o passado do conforto do futuro, o tempo se comprime, a realidade perde importância, e o absurdo parece pouco mais do que meras palavras, palavras que nem mesmo mais usam tinta e papel.

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O Combatente – #4

Não há nada lá fora. É como se ele finalmente chegasse ao fim do mundo que sempre imaginou quando criança. Ele costumava lutar com a idéia do infinito. Como isso é possível? Tudo deve ter um fim. Mas quando ele tentava imaginar tal fim, ficava perplexo. Ele imaginava uma enorme parede de tijolos se estendendo indefinidamente em todas as direções. Mas, é claro, sempre surgia a pergunta óbvia: O que está além da parede? Agora, de pé em sua varanda, olhando para o vale à frente, tudo o que ele vê é um maciço cinza-escuro cobrindo todo o campo de visão, como sua parede de tijolos.

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O Combatente – #3

Ele daria graças a Deus pela vibração em seu bolso, mas ele não é tão hipócrita. Suas crenças estão extremamente escassas hoje em dia: sua Glock 22 na cintura é uma delas; Deus não entra na lista. Mas é com sincera gratidão à deusa Fortuna que ele faz uma das coisas que mais odeia e pega seu celular dentro do bolso — pelo menos seu transe acabou, e ele encontra a decisão necessária para sair do quarto de sua filha. Ele não olha para trás enquanto fecha suavemente a porta.

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Violência Natural

“Olhai em redor: o sangue corre em rios, até mesmo alegremente, como se fosse champagne. […] Que é que a civilização suaviza em nós? […] Acontece que o homem pode acabar encontrando prazer no sangue. […] Seja como for, se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, decerto o fez mais perversamente, mais covardemente sanguinário que antes. Antes, ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e era de consciência tranquila que exterminava quem lhe aprazia; hoje, embora considerando o derramamento de sangue uma coisa abominável, entregamo-nos a essa abominação ainda mais frequentemente que antes. Que é pior? Decidi por vós mesmos.”
— Fyodor Dostoyevsky, “Notas do Subterrâneo”.

O dia está quase acabando e bate aquele desespero que agora já me é conhecido. Eu ainda não escrevi post algum, não tenho nenhum guardado para momentos como esse, e, o que é pior, não tenho ânimo para escrever. No entanto, escrever é preciso. Como diz um amigo meu (se referindo ao hábito de correr todo dia): quando está difícil, quando não há ânimo algum, quando tudo o que você mais quer é não fazer aquilo é justamente o momento em que você mais deve fazê-lo — só nesse momento é que existe mérito verdadeiro. E, assim, me forço a escrever. Mas tudo que vem na minha mente é o absurdo da violência em que vivemos, e cada palavra que escrevo me incomoda.

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Voe!

“Quem passou pela Vida em branca nuvem, / E em plácido repouso adormeceu,
 / Quem não sentiu o frio da desgraça,
 / Quem passou pela Vida e não sofreu,
 / Foi espectro de homem; não foi homem,
 / Só passou pela Vida, não viveu.”
– Francisco Otaviano –
(por Barry Holubeck / CC BY-SA 3.0 / Dessaturado do original)

Quando um policial morre baleado, não é tão difícil entender; a vida nas ruas é perigosa, mas alguém tem que vivê-la se esperamos ter um mínimo de segurança e ordem. Então, quando acontece, o burburinho é no sentido de saber exatamente o que houve: se foi covardia dos bandidos, se foi em combate ou se o policial estava na sacanagem. Mas nunca se questiona o “mérito” da morte — policial e bandido morrem com tiro e é isso.

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Ponto-a-Ponto

Postes na favela e na vida: Ponto-a-ponto.

Você tem que mostrar ímpeto. Mesmo que você vá ficar preso à frente. Mesmo que seja uma passagem só de ida. Somente desse jeito você honra os combatentes passados, dá o exemplo para os do presente, e inspira os do futuro. O ponto-a-ponto, mais do que uma técnica efetiva de progressão, é uma declaração de petulância: você não vai ficar parado — não interessa as circunstâncias. E, mais do que isso: você vai para a frente. Você não desborda. Você não regride para avançar. Você apenas vai. A reta é a menor distância entre dois pontos, não é? Pois, continue. De lanço e lanço, você traça uma reta e avança. De ponto a ponto. Há mais do que violência no combate. Há uma certa sabedoria. Mostre ímpeto e progrida para o seu objetivo. Até porque, se você se recolher nesse momento mais difícil — se você perder o ímpeto — aí você não irá mais.

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