Catedral de Notre-Dame

Foi assim que eu a vi; é assim que eu vou me lembrar dela.

Olhando para a nave principal da Catedral de Notre-Dame, ouvindo uma missa gregoriana durante a manhã de domingo, senti mais espíritos ao meu redor do que a maioria dos cristãos lá. Mas esses espíritos não eram anjos de Deus vindo para me cumprimentar. Se existe um Deus, não tenho dúvidas de que ele fica lá de vez em quando, sentado junto às pessoas apenas para que Ele possa olhar para cima. Mas é o espírito do homem que você encontra de cima a baixo, o espírito dos imperadores e conquistadores, dos pedreiros e homens simples como eu, todos sentindo que chegaram ao centro do mundo. Porque esse não é um lugar para reverenciar a Deus; é um lugar para reverenciar a mais grandiosa conquista do homem. Todas as pedras, janelas e arcos comandam você para tentar alcançar os céus com o seu olhar espantado. Eu não acho que nem homens nem deuses possam evitar isso. Quando você olha para cima, a única palavra que pode preencher sua mente é a mesma que enche a minha mente agora quando me lembro daquele dia: admiração. Não é admiração aos deuses, pois não foram eles quem a construíram — é admiração pelo homem, e perante ao homem eu me ajoelhei naquele dia. Perante ao homem, eu gostaria de me ajoelhar hoje.

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Primeiro Sangue

Foi um dia como outro qualquer, mas eu estava anormalmente feliz. Eu tinha cerca de dez anos na época e minha mãe concordou em me comprar um conjunto de raquetes de pingue-pongue e bola. Eu não tinha tanta certeza com quem eu jogaria, porque eu nunca tive muitos amigos e os que eu tinha não tinham uma mesa para jogar. Mas eu estava realmente feliz.

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Dedicação Àqueles que Desafiaram a Morte

Jolanta (o nom de guerre de Irena) salvou mais judeus que qualquer outra pessoa durante a guerra, cerca de 2,500. Há melhor exemplo de combatente?
(“Irena Sendlerowa”, por Mariusz Kubik / CC BY 3.0 / Dessaturado do original)

Eu não escrevi as palavras abaixo — eu apenas as digitei. Eu não acho que eu teria a capacidade de transpor meus sentimentos em palavras tão fortes, viscerais e honestas, mesmo se eu tivesse vivido o que esse homem viveu.

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Linha Dividida

O mundo sensível: coisas e seus reflexos — meras opiniões.

O homem vive nas sombras. Ele cria opiniões sobre coisas que ele nem mesmo tem certeza se existem. E mesmo essas coisas não são totalmente reais. O cientista consegue transcender o falho mundo dos sentidos — das coisas como nos parecem — e elaborar hipóteses sobre a realidade. Mas somente o filósofo chega à luz e, a partir dela, consegue enxergar as coisas como elas realmente são. Essa é a teoria platônica sobre o mundo, uma mistura fascinante de teoria do conhecimento e metafísica.

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O Problema da Percepção



“Catedral de Rouen”, por Claude Monet.
Eu não preciso nem de cores para deixar claro o meu ponto.

Se existe um mundo cheio de objetos que são independentes do meu próprio corpo ou mente, e se eu posso apenas conhecê-los através dos efeitos que eles têm nos sentidos do meu corpo, por sua vez causando estados mentais de consciência no meu cérebro onde esses objetos são representados, como posso saber que essas representações correspondem aos objetos ou, em outras palavras, que minhas percepções correspondem à realidade?

Potência e Ato

Eu tenho a potência para agir. Eu tenho a potência para escrever. Todo mundo tem. Apenas o ato perfeito não tem mais potência. Um ato é relativo à potência que lhe é própria. O ato perfeito em relação à potência da escrita é Ilíada, Moby Dick, Duna. Potência é imperfeição. A maioria dos atos também é imperfeita, apenas menos. O protótipo do ato imperfeito da escrita é o que estou fazendo agora.

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Uma Nota sobre Histórias da Filosofia

Já que eu compartilhei com você ontem um comentário muito impulsivo e rancoroso sobre um livro de história da filosofia, permita-me responder a isso com uma análise muito mais leve, mas tão impulsiva quanto a última. Esta é realmente uma ótima oportunidade para eu adiar novamente meus posts sobre Filosofia Contemporânea — minha prova já é amanhã, então, de fato, não há mais necessidade premente para esses posts. Meu único objetivo era matar dois coelhos com uma só cajadada ao estudar e acrescer o meu blog. Ainda não estou preparado para o idealismo alemão — careço tanto do conhecimento acadêmico quanto da tolerância nesse momento.

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A Fonte de Todo o Mal

Hoje eu estou correndo com meu estudo (que está muito atrasado) para um teste depois de amanhã sobre filosofia contemporânea, daí o meu post anterior e, espero, os meus próximos. Então eu estava procurando por um único livro do qual eu pudesse extrair, no meu típico “modo quase quase plagiador”, material suficiente para rápidas posts-sumários e um entendimento minimamente decente. Tive a sorte de mencionar isso a um colega que acabara de comprar um livro que parecia ser exatamente o que eu precisava: “Filosofia Alemã 1760-1860: O Legado do Idealismo”, de Terry Pinkard. Dei-lhe uma carona para casa, peguei emprestado o livro (um livro físico de verdade!) e vim para casa, não ansioso para lê-lo, devo admitir, mas apreciando o fato de que eu tinha uma missão que agora poderia ser cumprida. Como eu disse, estou atrasado, por isso estou eu fazendo uma leitura dinâmica, sublinhando apenas o mínimo necessário e nem mesmo tomando notas quando simplesmente tive que parar e escrever este post. A razão é: eu vi o mal. Eu vi o mal na página 44.

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Um Brevíssimo Preâmbulo para a Filosofia Contemporânea

A “Bíblia Gutenberg”, o primeiro livro substancial impresso no Ocidente. Eu o vejo como uma metáfora para a fé sendo formatada pela tecnologia, um símbolo de uma modernidade incipiente.
(Imagem por NYC Wanderer / CC BY-SA 2.0 / Dessaturado do original)

A modernidade histórica e a filosofia moderna não são sincronizadas. A primeira começa naquela grande confluência de invenções, conquistas e descobertas que caracterizam a segunda metade do século XV, sendo mais importante a imprensa de Gutenberg, a queda de Constantinopla e a descoberta da América; a segunda começa apenas no século XVII com Bacon, Hobbes e Descartes. O humanismo renascentista dos séculos XV e XVI, assim como a Reforma Protestante, só podem ser considerados como um período de transição que leva à filosofia moderna propriamente dita nos séculos XVII e XVIII. Depois que Kant morre (1804), podemos dizer que a razão fracassou e que os fundamentos da irracionalidade tão difundida hoje começam. É esse período de crescente irracionalidade desde Kant até depois das Grandes Guerras que chamaremos aqui de filosofia contemporânea; o período depois disso, você pode dar o nome que quiser.

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Carta a um Amigo: Sobre a Família

Meu amigo,

Eu nunca tive a chance de te dizer isso, mas eu o faço agora porque acho que você deveria ouvir. Eu pensei nisso por causa da minha mãe, que está morrendo em um hospital. Eu pensei nisso por causa da minha filha, que está começando sua vida. E eu lhe escrevo por causa de sua esposa e de seu filho — por sua causa. Eu lhe escrevo por causa de sua família.

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