Linha Dividida

O mundo sensível: coisas e seus reflexos — meras opiniões.

O homem vive nas sombras. Ele cria opiniões sobre coisas que ele nem mesmo tem certeza se existem. E mesmo essas coisas não são totalmente reais. O cientista consegue transcender o falho mundo dos sentidos — das coisas como nos parecem — e elaborar hipóteses sobre a realidade. Mas somente o filósofo chega à luz e, a partir dela, consegue enxergar as coisas como elas realmente são. Essa é a teoria platônica sobre o mundo, uma mistura fascinante de teoria do conhecimento e metafísica.

 

Quando Platão escreve “A República” (ca. 380 a.c.), Sócrates já está morto há cerca de vinte anos. Mas a perda de seu mestre apenas aumenta a convicção do que Platão já sabia desde antes de a Guerra do Peloponeso acabar e a vergonha ateniense iniciar: a democracia é uma farsa, e deve ser substituída.

Esse é, em mínimas palavras, o contexto histórico-político de “A República”, mas o seminal diálogo de Platão é muito mais do que uma crítica política. Sim, seu texto propõe uma nova forma de governo — o governo dos “filósofos-reis” — mas nele Platão expõe toda uma nova teoria do conhecimento, além de uma nova compreensão metafísica do universo. Ambas são necessárias para um dos projetos inerentes a sua obra: uma reforma educacional.

Que tipo de educação os futuros filósofos-reis devem receber? Com certeza, não aquela contida nos mitos homéricos, onde os deuses são ainda mais vis que os homens. Platão favorece a matemática e sua irmã nas artes — a música — mas independentemente do método a ser utilizado, o homem deve aprender a distinguir a natureza de cada objeto que enxerga, assim como a qual atitude da alma este se relaciona. É para isso que ele desenvolve no Livro VI de sua obra a “analogia da linha dividida” e, no Livro VII, a famosa “alegoria da caverna”, esta última uma maneira mais dramática de expor a primeira.

O personagem Sócrates divide a linha em dois segmentos duas vezes, formando quatro segmentos no total. Mas como ele correlaciona estados de espírito com seus objetos correspondentes (deixando clara a intrínseca conexão de suas epistemologia e metafísica), vale à pena imagina-la dividindo o plano vertical em duas seções longitudinais também, uma de cada lado da linha. O lado da esquerda (tomando-se a linha na vertical) é o lado da epistemologia; o da direita, da metafísica.

A seção inferior de dois segmentos é o mundo das aparências, o mundo sensível, quando tudo que temos é uma opinião (δόξα) sobre as coisas. Nele está tudo o que apreendemos com nossos sentidos (πίστις) — lagos e montanhas, por exemplo — assim como as imagens deturpadas que fazemos das coisas (εικασία) — a imagem da montanha refletida na superfície do lago. Mas Platão não se refere só às coisas físicas e às ideias que fazemos delas, mas a todo tipo de opinião. Assim, se enxergamos a bondade em nossos pais, ao menos fazemos o juízo certo daquilo que se apresenta a nós (πίστις). Mas quando nos deixamos convencer pela bondade aparente de um charlatão, então enxergamos apenas as sombras, reflexos deturpados das coisas como elas se apresentam; estamos no nível mais abaixo de percepção, o de meras conjecturas, opiniões falsas, ilusões (εικασία).

A seção superior é o mundo das coisas-em-si, da realidade propriamente dita, o mundo inteligível. A apreensão desse mundo produz conhecimento verdadeiro (έπιστήμη) e não mera opinião. Mas mesmo o conhecimento é divido em dois níveis. O segmento inferior corresponde a hipóteses  formuladas a partir das imagens do mundo sensível. Platão parece equiparar os objetos desse segmento às abstrações matemáticas. Tais hipóteses permitem ao homem chegar a conclusões sobre o mundo, mas não aos princípios primeiros que o regem. Assim, essas conclusões são parciais, temporárias, apenas entendimento (διάνοια) sobre as coisas. A partir do uso da dialética, a qual opera sobre essas hipóteses, o filósofo consegue passar “das ideias umas as outras” até chegar ao “princípio de tudo”. Só então, refazendo o caminho de volta, ele é capaz de transformar suas hipóteses em conclusões finais, em inteligência (νόησις). Ele viu a luz e agora pode iluminar seu mundo intelectual.

A luz é metaforicamente vista como o Sol, mas para Platão é a própria Ideia do Bem, o “bem” sendo entendido conjuntamente como o belo, o bom, o verdadeiro.

Deus?

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