Uma Nota sobre Histórias da Filosofia

Já que eu compartilhei com você ontem um comentário muito impulsivo e rancoroso sobre um livro de história da filosofia, permita-me responder a isso com uma análise muito mais leve, mas tão impulsiva quanto a última. Esta é realmente uma ótima oportunidade para eu adiar novamente meus posts sobre Filosofia Contemporânea — minha prova já é amanhã, então, de fato, não há mais necessidade premente para esses posts. Meu único objetivo era matar dois coelhos com uma só cajadada ao estudar e acrescer o meu blog. Ainda não estou preparado para o idealismo alemão — careço tanto do conhecimento acadêmico quanto da tolerância nesse momento.

 

Eu já li (ou escutei) algumas histórias da filosofia, tanto na íntegra como em parte, mas só hoje (nesse exato momento, na verdade) eu decidi qual é a melhor. Na verdade, é DE LONGE a melhor .

Primeiro, deixe-me dizer muito brevemente quais eu li (ou escutei) e, ainda mais brevemente, o que achei sobre elas:

  • A Estória da Filosofia“, de Will Durant (volume único): linda prosa intercalada por fantásticos comentários espirituosos de um gênio, mas carece de escopo (por exemplo, quase nada sobre os pré-socráticos);
  • História da Filosofia Ocidental“, de Bertrand Russell (volume único): grande prosa e amplitude, com muito contexto histórico, mas peca por se perder em opiniões e não em fatos;
  • Da série de audiobooks “Os Grandes Cursos”, “As Grandes Ideias da Filosofia”, de Daniel N. Robinson: trinta horas de lições muito bem apresentadas de todos os tipos de assuntos filosóficos por alguém que claramente entende do riscado. Não é um curso de história da filosofia em si, embora siga a cronologia, portanto, como esperado, peca um pouco no contexto histórico;
  • Da série de audiolivros “Os Grandes Cursos”, “Grandes Mentes da Tradição Intelectual do Ocidente”, de vários professores: como são muitos professores falando por quase quarenta e quatro horas, cada lição deve ser julgada separadamente. Em geral, porém, é bastante básico e até mesmo o ignorante aqui detectou alguns erros (eu não terminei esse curso);
  • Da série de audiolivros “Os Grandes Cursos”, “A Tradição Intelectual Moderna: De Descartes a Derrida”, de Lawrence Cahoone: considerando a impossibilidade de apresentar as filosofias mais contemporâneas de maneira facilmente compreensível e coerente, o professor Cahoone faz um ótimo trabalho tornado claros o suficiente os pontos mais importantes ao longo de dezenove horas de uma serena apresentação;
  • Uma Nova História da Filosofia Ocidental”, de Anthony Kenny (quatro volumes): muito bem equilibrado em termos de história e filosofia e extremamente conhecedor. Eu particularmente não gosto do seu método de primeiro fazer um relato cronológico geral do período, incluindo sua história e seus filósofos, e depois comentar todos os filósofos novamente em diferentes categorias de ideias. Mas isso sou eu, não há nada intrinsecamente ruim em seu método;
  • Routledge História da Filosofia”, de diversos autores e editores (nove volumes): deve ser julgado não apenas livro por livro, mas capítulo por capítulo, pois cada um é escrito por um autor diferente. Eu não li uma parte considerável dessa obra, mas a usei apenas para pesquisas pontuais. No entanto, minha impressão é de que ela tem um viés para o lado da “história” (não digo de maneira negativa, mas neutra), incluindo a “história acadêmica” envolvida.

Ok, mas se nenhum desses é o melhor, qual é?

Bem, eu escrevi recentemente sobre como esse cara me resgatou de uma ignorância universal sobre universais, então depois da minha decepção ontem eu me voltei mais uma vez para ele, e mais uma vez fui resgatado. Obrigado, Sr. Copleston… de novo.

Uma História da Filosofia”, de Frederick Copleston, em onze volumes. O sujeito foi um padre jesuíta, historiador, filósofo e tomista. Baseado em suas fortes visões religiosas, minha primeira reação quando encontrei seus livros foi abster-me de lê-los. Eu esperava visões tendenciosas, e visões tendendo para a religião, o que não é a minha praia.

Eu estava errado.

Ele, sem dúvida, usa seus livros também como uma espécie de “história da filosofia cristã”, porque ele mostra quando e como certas ideias foram naquela direção ou não. Mas ele não está fazendo proselitismo de forma alguma, nem julgando qualquer ponto de vista baseado em sua fé, pelo menos não exclusivamente. Ele está simplesmente exercendo seu desejo como autor, moldando seu trabalho da maneira mais pertinente às suas inclinações. Isso todos os historiadores fazem. Mas ele faz isso maravilhosamente bem.

Ao mostrar suas opiniões nos locais apropriados, ele quebra uma narrativa que pode acabar ficando muito densa e até chata, ao mesmo tempo em que ajuda o leitor a entender melhor. Isso ajuda o leitor porque o estimula a formar uma opinião também. Eu comparo o tipo “normal” de livro de história (você pode imaginar “A História do Mundo“, de Roberts e Westad ; um livro fascinante por sua amplitude, mas um tanto quanto monótono — uma séria falha para um livro de 1.200 páginas) com o que Aristóteles disse de suas categorias: (parafraseando) “aquilo que não pode ser dito ser verdadeiro ou falso”. Você apenas o aceita como é. Em contraste, você pode argumentar com os livros de Copleston (embora a maioria de nós com certeza perderia qualquer argumento com Copleston). E, além disso, acho que tenho outra razão para gostar do que ele escreve: eu geralmente participo de suas opiniões.

O teste final será quando eu ler o que ele diz sobre Hegel. Se ele puder me fazer gostar dele, mesmo que de maneira mínima, esse cara é um gênio!

 

EDIÇÃO: Aqui eu compartilhava um link para download dos livros do Copleston, achando que eram arquivos dentro da lei, mas o blogger William chamou minha atenção (na versão em inglês do meu blog) para o fato de que não deveriam ser. Foi uma ridícula inocência minha achar que eram, e agora me sinto envergonhado. Só me resta tentar achar essa coleção por aqui mesmo no Brasil ou comprar volume por volume nos EUA e mandar entregar aqui. Muito dinheiro, sem dúvida, mas é o mínimo que eu tenho que fazer para me redimir um pouco com o Sr. Copleston. Desculpem-me pelo link ilegal. Terei muito mais atenção daqui pra frente, e irei procurar e eliminar outros links que sejam duvidosos no restante do blog.

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6 comentários sobre “Uma Nota sobre Histórias da Filosofia

      • Excelente referência! Eu não conhecia não, mas olhei aqui rapidamente e parece ser realmente do estilo do Copleston. Essa “História da Metafísica” particularmente me interessa. Eu nunca li nenhuma história de uma disciplina isolada da filosofia, a não ser um pouco da história da ética com Macintyre e Sidgwick. Com o meu recente interesse em metafísica, acho que vai ser uma boa conhecer Battista Mondin. Obrigado mesmo pela dica!

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  1. Ele imprime sutilmente as visões dele, mas de forma clara e não tendenciosa. Primeiro ele demonstra os estudos corretos e amplamente aceitos, não deturpa, e eventualmente no fim dos capítulos ele faz alguma argumentação dele próprio. Um método bem melhor do que alguns autores que interpretam tudo ao seu bel prazer.

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  2. Muito bom. Será que é alguma qualidade típica de filósofos cristãos? Copleston coloca seus comentários no meio do texto, em momentos oportunos, mas fora essa diferença, digamos, “espacial”, ele parece ser bem próximo ao seu autor.
    Se posso dizer que tenho um sonho infantil, é o de ter uma biblioteca pessoal enorme contendo todos os clássicos e mais esses livros que fazem um apanhado geral sobre filosofia e/ou história — poucos prazeres superam folhear livros na paz da sua casa, mergulhando mais profundamente aqui e ali, de preferência bebericando um bom vinho, e, de vez em quando, encontrar um antigo “amigo” como um Mondin ou um Copleston da vida, se resolver por ele e passar o resto do dia em solitária lealdade.
    Um grande prazer, porém, infelizmente, bem raro nessa vida atribulada…

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    • Sim, sem dúvidas. Este é um sonho de desconsumo. Rs.
      Penso que, por terem um estereótipo que você próprio cita no texto e que causa preconceitos, os cristãos se esforçam mais para dar um aspecto não tendencioso quando tratam de filosofia, pois o simples fato de serem cristãos e teólogos muitas vezes, encontram resistência na academia “ele escreve isso porque é religioso”.
      Eu sou cristão também, e este é um cuidado sempre presente.

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