Um Brevíssimo Preâmbulo para a Filosofia Contemporânea

A “Bíblia Gutenberg”, o primeiro livro substancial impresso no Ocidente. Eu o vejo como uma metáfora para a fé sendo formatada pela tecnologia, um símbolo de uma modernidade incipiente.
(Imagem por NYC Wanderer / CC BY-SA 2.0 / Dessaturado do original)

A modernidade histórica e a filosofia moderna não são sincronizadas. A primeira começa naquela grande confluência de invenções, conquistas e descobertas que caracterizam a segunda metade do século XV, sendo mais importante a imprensa de Gutenberg, a queda de Constantinopla e a descoberta da América; a segunda começa apenas no século XVII com Bacon, Hobbes e Descartes. O humanismo renascentista dos séculos XV e XVI, assim como a Reforma Protestante, só podem ser considerados como um período de transição que leva à filosofia moderna propriamente dita nos séculos XVII e XVIII. Depois que Kant morre (1804), podemos dizer que a razão fracassou e que os fundamentos da irracionalidade tão difundida hoje começam. É esse período de crescente irracionalidade desde Kant até depois das Grandes Guerras que chamaremos aqui de filosofia contemporânea; o período depois disso, você pode dar o nome que quiser.

 

O principal motivador para a reviravolta na filosofia, caracterizada por sua variedade moderna, pode-se dizer que foi a ciência. O longo período de transição correspondente ao Renascimento coincidiu com uma secularização bastante marcada na sociedade, onde a onipotência de Deus estava sendo substituída pela da ciência. Naturalmente, a vida permaneceu ligada ao divino e à Igreja, mas o poder de medição, previsão e tecnologia, o qual melhorou sobremaneira a vida cotidiana do homem comum, era inquestionável. “A natureza para ser comandada deve ser obedecida”, afirmou Francis Bacon filosoficamente, mas ele o fez apenas em seu Novum Organum de 1620; a natureza já estava sendo comandada de qualquer jeito.

Para a filosofia sobreviver, ela teve que se libertar de sua tradição medieval, isto é, dos grilhões da realidade objetiva e do dogma cristão.

Primeiro, a epistemologia — ou, a “teoria do conhecimento” — ganha destaque sobre a metafísica, a queridinha da filosofia medieval e da filosofia em geral, desde Platão e Aristóteles. “O que é” dá lugar a “como sabemos”, e a natureza do conhecimento suplanta a natureza da existência nas mentes do homem. De onde vem o nosso conhecimento da realidade? Podemos alcançar o conhecimento da realidade, em primeiro lugar? Como nossa mente, ou o sujeito, opera para adquirir conhecimento? Como podemos evitar erros no julgamento? Esses eram os tipos de perguntas que os filósofos estavam tentando responder agora. E as respostas deles ativaram para todos os lados.

Mas se pudermos encontrar alguma unidade em seu pensamento, ou, pelo menos, nas conseqüências de seu pensamento, deve ser no fato de todos terem se enclausurado em suas próprias mentes, com pouco ou nenhum acesso à realidade objetiva. Mesmo seguindo caminhos muito diferentes, racionalistas e empiristas acabaram todos isolados dentro de seus próprios sujeitos.

Os racionalistas partiram da mente como a única fonte possível de verdade e, como esperado, não conseguiram mais sair dela para encarar a realidade como tal. Desde a glândula pineal de Descartes conectando Deus-sabe-como (trocadilho intencional) a mente e o corpo até as mônadas de Leibniz — pequenas “partículas de alma” que compõem o mundo — eles tentaram desesperadamente reconciliar os dois mundos irreconciliáveis ​​que eles haviam criado.

Os empiristas, por sua vez, partiram do próprio mundo, da percepção sensorial como o único conhecimento possível ou, pelo menos, como o ponto de partida de todo conhecimento. Mas se a percepção sensorial formava imagens, representações ou ideias na mente do homem, o homem só tinha acesso a elas, não à realidade em si. O sujeito acabou trancado no lado de dentro de qualquer maneira. Além disso, a percepção sensorial variava de homem para homem, até mesmo de tempos em tempos para um único homem, de modo que nem mesmo a fonte do conhecimento era confiável; o ceticismo surgiu, como repetidamente acontecera na história.

Mas se a capacidade do homem de saber o que é o caso estava sendo questionada, o que deveria ser o caso era ainda mais elusivo. Com o conhecimento e a verdade (theoria) em crise, não havia mais apoio para a ética e a moralidade (praxis), especialmente com a crescente rejeição da fé. A filosofia prática tentou encontrar consolo no sujeito: em Descartes e Kant, a autonomia da vontade chega ao extremo; em Hobbes e Hume, as paixões passam a puxar todas as cordas do homem. Em qualquer caso, a realidade como tal é esquecida.

Mas foi Kant quem deu o golpe final. Sua “Revolução Copernicana” representou uma reviravolta para a teoria do conhecimento: o conhecimento não era mais mente em conformidade com a realidade; passava a ser realidade em conformidade com a mente.

É a tentativa de lidar com um mundo sem realidade objetiva que caracteriza a filosofia contemporânea, o infeliz assunto dos meus próximos posts.

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