Lamentação

Qualquer “primeira vez” depois dos quarenta anos é algo a ser comemorado ou lamentado. Não há meio termo. Hoje, foi a primeira vez na minha vida em que eu fui humilhado. E, você sabe, é impossível alguém te humilhar unilateralmente. Quero dizer, ser humilhado não está sob o controle de outra pessoa. A única coisa que os outros precisam fazer é pegar você fazendo algo errado. O resto é com você. Tudo o que é necessário, então, é que você perceba o quão errado você está. E se você fizer isso, tudo o que lhe resta é lamentação.

 

Este post é inócuo para você. Você não aprenderá nada de útil com ele. Eu não posso te dizer o que fiz. Isso é uma catarse, sim, mas há algumas coisas que você simplesmente não pode confessar. Essa é uma.

Eu não consigo nem escrever decentemente do jeito que me sinto. Mas preciso escrever. Pelo menos um pouco.

O que eu fiz não é algo que aconteceu hoje; é algo que vem acontecendo há dezessete anos, um monstro crescendo dentro de mim sem que eu percebesse. Eu permiti que ele crescesse. Agora, todo mundo o viu. Eu vi. E quase todos perceberam que também tinham um monstro parecido por dentro. Mas eles ainda não se importaram. Eles não acharam que aquilo era realmente um monstro. Não a princípio, pelo menos.

Nem eu. Mas então eu pensei um pouco.

Claro que tem a ver com moralidade. Está no centro de todas as minhas argumentações sobre evasão. É tão abjeto porque ficou invisível por tanto tempo. E porque contradiz tudo que eu prego. Uma evasão crônica disfarçada de uma espécie de soberba que me convenceu de que eu estava certo sem qualquer pensamento racional. Eu simplesmente tomei por certo que eu tinha um direito moral que eu, na verdade, não tinha. Ninguém tem.

Eu fiz o que fiz por sentimento, não pela razão.

Eu fiz o que fiz porque alguém iria fazer de qualquer maneira, então que fosse eu.

Eu fiz o que fiz porque não passou pela minha cabeça que eu tinha uma saída.

Mas isso é tudo que eu sempre digo que TODOS têm. Eu poderia LUTAR. Eu poderia escolher o COMBATE. Mas eu escolhi a EVASÃO.

Eu poderia ter dito ”será do meu jeito ou não será” e fazer o que é certo. Mas eu escolhi seguir o caminho mais fácil, a estrada menos percorrida.

Essa expressão me parece engraçada agora.

Quando eu era criança, eu costumava ter aulas de inglês em um lugar que tinha uma biblioteca. Eu gostava de ir para lá depois da aula e simplesmente ficar folheando livros desconhecidos. Um dia, por acaso, encontrei “A Estrada Não Trilhada”, de Robert Frost. Demorei anos para descobrir que era um poema tão famoso. Eu não gosto de poemas. Mas esse eu nunca mais esqueci.

“Duas estradas divergiam num bosque, e eu,
Eu trilhei a estrada menos percorrida,
E isto fez toda a diferença.”

Besteira.

Eu tomei o mesmo caminho que todo mundo.

E, sim, isso fez toda a porra da diferença.

Lamentação.

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