Humanismo Cristão: A Crise da Modernidade

Nossa sociedade secular.
(Boekhandel Selexyz Dominicanen, uma igreja católica do século XIII em Maastricht, Holanda, que é hoje uma livraria de luxo. Imagem por FaceMePLS / CC BY 2.0 / Dessaturado do original)

Jacques Maritain começa seu ensaio “Humanismo Cristão” nos dizendo como as ideias na mente de apenas alguns poucos homens moldam uma época. Esse é o poder da filosofia que aprendi que existe e que ignorei toda a minha vida.

“Todo grande período de civilização é dominado por uma certa ideia peculiar de que o homem cria sobre o homem. Nosso comportamento depende dessa imagem tanto quanto de nossa própria natureza — uma imagem que aparece com notável brilho nas mentes de alguns pensadores particularmente representativos, e que, mais ou menos inconsciente na massa humana, é apesar de tudo forte o suficiente para moldar segundo seu próprio padrão as formações sociais e políticas que são características de uma dada época cultural.”

O ensaio de Maritain fala sobre a secularização progressiva da sociedade na modernidade, quando a fé e a razão se separaram, especialmente desde o Renascimento.

A imagem do homem que reinou durante a Idade Média foi criada por São Paulo e Santo Agostinho; a da modernidade, por Descartes, Locke, os pensadores iluministas e Rousseau.

O homem deixou o Reino de Deus e voltou para o reino do próprio homem, mas ainda mantendo uma fachada cristã; a Razão humana substituiu o Evangelho e a natureza do homem substituiu o que deveria vir da virtude de Deus. O homem agora era todo poderoso e suas possibilidades eram ilimitadas. Mas Maritain vê isso como uma enorme perda:

“… na ideologia moderna, de todas as certezas, vindas tanto do discernimento metafísico quanto da fé religiosa, que deram fundamento e concediam realidade à imagem do homem no sistema cristão.”

Esta “desgraça histórica”, continua ele, tem sido o “fracasso da Razão filosófica”, a perda da “compreensão do Ser”.

O homem moderno conhecia as verdades sem “a verdade”, alegava direitos humanos e dignidade sem Deus, confiava na paz e na fraternidade sem Cristo, progredia para o bem na Terra sem acreditar no mal na Terra, adorava a vida humana sem possuir alma. O homem moderno queria uma vida política e social em comum sem o bem comum ou o trabalho comum, pois tudo o que ele queria era riqueza e prazer. O homem moderno acreditava na liberdade sem responsabilidade moral e, de alguma forma, com o determinismo científico; na igualdade sem justiça, porque a justiça perdeu sentido na perspectiva biológica e sociológica moderna; no maquinismo, na civilização industrial sem sabedoria para dominá-los. O homem moderno buscava felicidade sem um objetivo final a ser visado. E, finalmente, o homem moderno buscava a democracia “sem que nenhuma tarefa heróica de justiça pudesse ser realizada e sem amor fraternal do qual obter inspiração”.

Maritain encerra a primeira parte de sua análise da “crise de nossa civilização” falando sobre uma crescente brecha entre nosso comportamento como homens secularizados e aqueles princípios morais e espirituais que costumavam nos dar significado e coerência interna, e que aprendemos a ignorar. Ele fala sobre um novo mundo “esvaziado de princípios”, um “universo de palavras”, um “universo nominalista”, uma “massa sem fermento”. Um mundo cuja suprema regra veio a ser a utilidade, mas utilidade sem objetivo e, portanto, inútil.

Para Maritain, perdemos a nossa fé, mas ainda vivemos em defesa dos valores e princípios que dela resultam, valores e princípios que acabaram por fundar a nossa época. Devemos retornar a esses princípios originais e abandonar essa “ideologia insubstancial que se alimentou deles como um parasita”.

Maritain soa muito como Alasdair Macintyre em “Depois da Virtude”, e eu gosto disso. Eu acho que vou aprender muito com esses caras. O que devo fazer, porém, é substituir algo pelo valor que colocam em Deus e na fé. Ayn Rand, é claro, diria que é a “razão”, apenas não na forma como a modernidade a usava. Ela defenderia a “objetividade” em seu sentido, uma maneira de aderir à realidade como tal, em vez de contar com qualquer consciência como primária, seja a da sociedade, a de Deus ou a de si próprio. O objetivo? Felicidade pessoal. Como? Interesse próprio racional. E ela ficaria plenamente satisfeita com isso.

Mas, leia seus livros — algo está faltando. Eu não sei o que é, mas enquanto “A Revolta de Atlas” e “A Nascente” estão lá em cima na minha lista de melhores livros (“Atlas” pode até ser o melhor), algo está faltando.

Seja o que for, é o que eu preciso substituir pelo Deus de Maritain.

(Continua…)

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