Universalia II

Obrigado, Sr. Copleston.
(Frederick Copleston, (1907 – 1994). / CC BY-SA 1.0 / Contraste aumentado)

Como vimos na citação de Porfírio em Universalia, ele se absteve da luta pela verdade sobre os universais. Mas referindo-se ao problema apenas em relação a gêneros e espécies, penso que ele pode ter criado outro problema, um viés no estudo dos universais que atravessou toda a Idade Média até nossos dias para confundir nossas mentes ignorantes sobre o tema — minha mente ignorante, ao menos.

 

Boécio, em seu comentário sobre a Isagoge de Porfírio, foi corajoso o suficiente para enfrentar o problema de uma forma que poderia ter avançado a influência de Aristóteles na história do pensamento e facilitado o caminho para o Objetivismo de Ayn Rand. Mas isso não aconteceu (não por muito tempo, ao menos), pois Platão ganhou esta primeiro disputa.

Boécio percebeu que podemos formar ideias em nossas mentes que, embora não correspondam exatamente ao que é a realidade, podem ser verdadeiras ou falsas. Quando elas são falsas, é porque nós compusemos fatos da realidade de maneiras arbitrárias, como quando unimos um homem e um cavalo para formar um centauro. Quando são verdadeiras, é porque abstraímos, isto é, selecionamos apenas uma parte da realidade por meio de nossa faculdade conceitual. Isso acontece quando formamos a ideia de uma linha depois que, digamos, olhamos o horizonte à beira-mar. A ideia é verdadeira mesmo que não haja linhas per se flutuando ao nosso redor.

Assim, de acordo com Boécio, gêneros e espécies são tipos de abstrações que são verdadeiras: eles existem nas próprias coisas de uma maneira que podemos isolá-los em pensamento, mas eles não existem como coisas propriamente ditas no mundo sensível ou mesmo no mundo das Formas de Platão.

É claro que há muito mais nessa controvérsia, mas meu ponto aqui é simplesmente tentar entender sua importância. Porque, falando sério, será que nós realmente achamos que é tão importante assim entender se  “homem” como uma classe de indivíduos existe de verdade como algo real no mundo em si? Será que realmente nos importamos se um golfinho traz consigo algum tipo de “mamiferidade” que seja comum a uma baleia ou mesmo a um homem? Bem, um biólogo diria que é claro que é importante que o homem e os golfinhos amamentem seus filhotes com leite, mas estamos falando de filosofia, não é?

Eu acho que a maneira como o problema foi colocado em sua concepção pode ter inclinado a discussão para a maneira como é tratada hoje. E, para ser honesto, a maneira como o problema é normalmente exposto hoje faz com que pareça tão útil quanto discutir o sexo dos anjos. É por isso que não consigo explicar nem para mim mesmo por que me preocupo com isso, e é por isso que não tenho a menor chance de convencer minha esposa sobre sua importância.

No entanto, o Sr. Copleston está aqui para ajudar.

No Volume II de sua primordial coleção “Uma História da Filosofia”, Frederick Copleston, SJ, um padre jesuíta, historiador e filósofo com uma prosa tão direta-ao-ponto quanto possível, me atentou para esse possível desentendimento acerca de “gênero/espécie” antes de me colocar de volta no caminho certo.

Ele se pergunta:

“Talvez um dos fatores que podem dar a impressão de que os medievais estavam discutindo uma questão comparativamente sem importância é que eles praticamente confinaram sua atenção a gêneros e espécies na categoria de substância. Não que o problema, mesmo nessa forma restrita, não seja importante, mas se o problema também é levantado em relação às outras categorias, suas implicações em relação, pelo menos, à maior parte do conhecimento humano tornam-se mais evidentes. Torna-se claro que o problema é, em última análise, o problema epistemológico da relação entre pensamento e realidade.”

Uau! Isso agora parece ser bastante sério até para minha esposa. Obrigado, Sr. Copleston. Deixe-me agora tentar entender o que você está realmente dizendo.

Sempre que olho para a realidade, vejo entes particulares, vejo indivíduos. Mas quando penso em um deles, mesmo que consiga visualizar uma cópia exata dele em minha mente, há também uma série de conceitos genéricos anexados à imagem. Sento-me no banco do motorista e penso no meu carro. Suponha que eu o visualize perfeitamente. Ao fazer isso, não posso evitar o fato de que eu sei que é um antigo (para não dizer “velho”) Ford Fiesta preto 2008. Todos esses conceitos são genéricos, na medida em que se aplicam a inúmeros outros indivíduos que compartilham as mesmas propriedades. Existe um “preto” nas estradas? Existe um “Fiesta”? Ou um “Ford”? Se esses conceitos universais — esses universais — não podem ser encontrados na realidade (na realidade “extramental”, como diz Copleston), e tudo o que realmente vemos na realidade são coisas individuais, que diabos é a relação entre os dois? Existe alguma relação?

“Se o fato de objetos subsistentes serem individuais e conceitos serem gerais significa que os conceitos universais não têm fundamento na realidade extramental, se a universalidade dos conceitos significa que eles são meras ideias, então é gerada uma separação entre pensamento e objetos, e nosso conhecimento, ao menos enquanto expresso por conceitos e julgamentos universais, é de validade no mínimo duvidosa.”

A ciência descreve a realidade exclusivamente com conceitos universais. Qualquer medição, por exemplo, é baseada em universais. A ética prescreve (ou tenta prescrever) condutas universais a serem seguidas. A injunção “Não inicie a força contra os homens” lida estritamente com conceitos universais, embora deva ser aplicada a toda situação particular. Se os universais da ciência e da ética lidam com meras invenções arbitrárias de nossas mentes, sem fundamento na realidade extramental, então como confiar neles?

Mas, esqueça por um momento essas questões “chatas” de ciência e ética. Quando você encontra alguém nas ruas e lhe diz seu nome, você está na verdade falando como um daqueles guerreiros da “Ilíada” que apresentam toda a sua linhagem antes da luta. Quando você diz seu nome, está reconhecendo uma linhagem que remonta a milhares de anos até seus antepassados migrando para sua terra natal, uma linhagem que remonta a milhões de anos até seus precursores quase macacos habitando as copas das árvores, uma linhagem que remonta a bilhões de anos até o primeiro ser que poderia se chamar de ser vivo!

Quando você diz seu nome, você está contando com um número infinito de universais para ser compreendido. Você não acha que deveria ao menos saber o que eles são?

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