O Combatente – #6

É por isso que ele odeia sair de casa tarde. São cinco da manhã e ele ainda nem chegou à Linha Vermelha. O fluxo de carros convergindo para o seu caminho significa tráfego pesado à frente. As lanternas vermelhas dos carros brilham como olhos de morcegos à noite, um milhão deles em procissão para alcançar seu mestre das trevas. Ele poderia verificar o aplicativo de mapa em seu celular, mas certas coisas é melhor não saber. Ele geralmente se sente bem em ter um horário incomum de trabalho. Isso o ajuda a fingir que não é um mero operário indo e vindo em sua labuta diária, como Sísifo carregando sua rocha para cima e para baixo da montanha. Seu horário geralmente evita o tráfego. Mas hoje — logo hoje — ele terá tempo para deixar de se sentir especial e se juntar ao bando.

 

(Ler O Combatente – #5)

“Linha Vermelha” é um nome bem coerente para uma via expressa que passa por dezoito favelas dominadas pelo tráfico até chegar à mãe-de-todas chamada Rio de Janeiro. “Cidade Maravilhosa” é a mentira mais deslavada que ele já ouviu. E o pior é que ele é forçado a ouvir isso em cada esquina, como se os próprios habitantes celebrassem a beleza natural de sua cidade e se esquecessem da podridão humana que a assola. Aliás, “natural é exatamente a parte que não é a cidade; cidade mesmo é o monte de concreto, plástico e lixo que o homem encrua na natureza para satisfazer seu “instinto social”. De acordo com o sábio narrando ao seu ouvido a tragédia de uma cidade, as pessoas se apinhavam em Roma para se proteger das hordas de criminosos que perambulavam pelo campo e dos inimigos do império que um dia viriam. Hoje, o perigo está justamente nas cidades. Por que, então, as pessoas continuam se amontoando nelas? Ele preferiria não saber a resposta. Na Roma de antigamente, assim como no Rio de hoje, existia um motivo muito mais premente: é na cidade que os vícios, assim como os vermes, têm liberdade para se alastrar, ambos se deleitando com um cadáver putrefato.

Ele percebe o teor dos seus pensamentos afundando como que em uma lama sórdida à medida em que se aproxima de seu destino. Ele não consegue evitar, e resolve desligar logo seu áudio-livro para não desperdiçar aquelas palavras tão importantes. E é aí que o mundo pára de vez.

Ele percebe a imobilidade das luzes somente a tempo de frear bruscamente e quase encostar no para-choques à frente. Ele reza para o carro de trás não ser pior motorista do que ele. Dá certo. Nada acontece. O silêncio repentino em seu ouvido combina com a estagnação à sua volta.

Tudo está parado.

Ele procura em vão por alguma solidariedade nos rostos vazios dentro dos outros carros. Ele quer ver pessoas irritadas como ele por estarem presas naquele trânsito surreal, naquela fila interminável de lemingues prestes a se suicidar. Mas ele não acha o que busca. Ele só encontra a mais pura resignação, uma calma que seria invejável se fosse real. Pois aquilo não é calma; é apatia mórbida, é desistência vergonhosa, é capitulação antes da batalha, é morte em vida. Aquilo não é uma instância de apatia estóica, aquela tranquila aceitação do que não se tem controle. Se fosse, ele se sentiria mal por sua fraqueza. Não. Aquilo não é algo pontual, momentâneo, uma (não) reação dadas as circunstâncias reinantes. Aquilo tem a mesma textura que as almas dos escravos nos latifúndios romanos sobre os quais lia, seres parcamente vivos, aguardando a morte que, eles sabiam, tardaria para chegar. Mas diferente dos escravos romanos, as pessoas que ele vê não são um povo fraco que se deixou escravizar por um mais forte. Eles são como os africanos que caçavam seus próprios conterrâneos e os vendiam como escravos para os portugueses do Brasil; esses homens e mulheres que ele via impassíveis nos seus carros escravizavam-se a si próprios na sua evasão diária. E, assim como os caçadores de escravos africanos, selavam o destino de seu próprio povo.

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