O Combatente – #5

Ele escuta muitas coisas interessantes, mas, fugazes, elas se vão quase tão rápido quanto chegam; só a morte permanece. Nem mesmo os motivos das mortes, os nomes das guerras ou as datas aproximadas ficam. Nada além do puro e grotesco fato de tantas mortes. Agora, enquanto ele olha para o passado do conforto do futuro, o tempo se comprime, a realidade perde importância, e o absurdo parece pouco mais do que meras palavras, palavras que nem mesmo mais usam tinta e papel.

 

(Ler O Combatente – #4)

Som. Bytes. O mundo hoje tenta se eternizar em meios efêmeros. E ele se sente um idiota por tentar entrar nessa moda. Ele escuta um “livro falado”, um audiolivro, enquanto dirige pelo breu da madrugada. Ele finge que aprende alguma coisa, que consegue reter algo que presta, que se torna um homem mais culto após cada esforço desses. Tudo que ele quer, na verdade, é uma companhia na solidão da noite, alguém a contar estórias no seu ouvido como ele gostaria de fazer com a sua filha mas não tem tempo. Ele quer ser levado para outro mundo, outra era — outra realidade. Mas ele descobre o que já sabia. Há certos conceitos universais que permeiam tudo de concreto na vida, fragmentos de uma mesma existência aqui e ali, tornando semelhantes os diferentes, unindo aquilo que está separado. Ao longo de toda a história, um desses universais é a Morte. E ele sabe que isso jamais mudará, pois não há outra realidade.

No fundo, ele não é um combatente. Ele está mais para um intelectual forçado a combater, uma alma pacata presa em um corpo feroz, um conflito ambulante que busca uma paz impossível. Ele usa todos os segundos que tem em seu carro para escutar seu livro, para se evadir da realidade da cidade à sua volta. Não é medo que ele sente, nem ansiedade. Talvez seja um pouco de ansiedade. Mas é mais uma espécie de insatisfação constante, como se ele sempre estivesse no caminho errado, olhando por cima do ombro para a outra alternativa, avaliando se não seria melhor mudar de rumo.

“César e Cristo”, é o nome do livro. O terceiro de onze volumes de uma coleção recontando a estória da civilização. Ele leu que o autor enriquecera com um livro de filosofia que quase fora forçado a escrever, e que ele tinha usado sua liberdade financeira para se dedicar a esses volumes. Cinquenta anos, ele levou para escrevê-los. Cinquenta anos! E ainda morreu antes de escrever os últimos dois volumes. Ele havia buscado imagens desse homem na Internet, fascinado por aquela loucura intelectual, por aquela determinação impassível. Ele admirava com uma inveja irracional as fotos daquele homem de cabeça branca, sentado ao lado de sua esposa em seu escritório de casa, ambos lendo uma pilha de livros, fazendo anotações. Ele fantasiava sobre que tipo de conversa eles deveriam ter enquanto trabalhavam. Com certeza, eles teriam criado um protocolo de comunicação, ou se interromperiam com tanta frequência que não seriam capazes de trabalhar. Como não querer comentar sem parar a história do mundo? Ele os imaginava suspirando levemente enquanto se acomodavam na cadeira, esticando um pouco a coluna, um sinal sutil de que suas almas haviam sido movidas pelas palavras, e que, se o mundo fosse perfeito e o tempo eterno, adorariam compartilhar a experiência um com o outro. Ele imaginava esse padrão se repetindo ano após ano, cravejado apenas pelas pausas ditadas pelos ritmos humanos — almoço, chá da tarde, jantar — todos excelentes momentos para discussões sobre os temas recentes. Ele visualizava com reverência aquele casal vivendo junto por milhares de anos enquanto observavam o passado, até que o presente resolvesse levá-los. Quando isso finalmente aconteceu, eles partiram quase ao mesmo tempo, deixando seu legado para uma posteridade ingrata.

Ele queria fazer parte daquilo, queria ler aqueles livros, queria viver como aquele homem — ele queria ter a capacidade de entender a vida e escrever sobre ela até a morte. Mas é apenas sobre esta última que ele entende.

Quando seu carro chega quase que por si só ao pé das montanhas, e o bafo daquele ar estagnado e poluído do Rio invade seu carro, ele sente vergonha do quanto dedica àquela leitura: uma mísera hora de um dia de trabalho, apenas parte de seu cérebro, e uma alma incapaz de compreender a filosofia contida naquelas palavras. Seu destino é mesmo o combate. Por que se enganar?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s