Discurso aos Combatentes Caídos

De antemão, peço perdão às famílias de meus irmãos caídos, pois não estou aqui para homenagear suas vidas nem chorar suas mortes. Elogiar suas vidas seria como descrever obras de arte com meras palavras; e lamentar suas mortes como reclamar com os deuses pelo inexorável.

Peço perdão às famílias, pois não tenho palavras de conforto a dar. Não irei insultá-los dizendo que a morte de seus filhos, irmãos, pais ou maridos valeu à pena. Não, não valeu. Não irei nem mesmo fingir que o mundo está melhor graças às suas vidas. Não, não está. Se suas vidas valeram à pena — e sei que valeram — foi por cada momento que eles passaram ao lado de seus pais, irmãos, filhos ou esposas. Se suas vidas valeram à pena, foi pelo que fizeram por si próprios. Pois o combatente não faz o que faz por mais ninguém, nem mesmo pela segurança de seus filhos. Ele o faz porque é de sua natureza como Homem, e não como rato. Homens veem o absurdo à sua volta e agem; ratos se escondem. Garanto que meus irmãos mortos eram da primeira espécie.

Peço ainda perdão às famílias por um último motivo. Agora, não mais me dirijo a elas, mas uso sua presença para passar uma mensagem. Essa mensagem não é para os mortos. Não acredito na imortalidade da alma. Tudo que fosse imortal perderia completamente o valor pela vida, e não posso acreditar que exista tamanha perversidade no mundo. Não, essa mensagem é para os vivos. É para todos aqui presentes que se consideram combatentes e que vestem o preto. É para eles que agora me dirijo; e o faço aqui, perante as famílias de nossos irmãos mortos, na vã esperança de que isso irá ensejar-lhes ao menos um pouco de vergonha na cara!

O que fazem os senhores agora, Ó grandes Caveiras, após a morte de seus irmãos!? Irão afogar as mágoas em bebidas, sexo e lembranças? Irão se recolher ao aconchego de seus lares e se regozijar por estarem vivos? Irão se fazer cegos com a névoa de sua evasão? Irão se fazer surdos com os gritos de sua derrota? Talvez assim não escutem o chamado para o combate. Mas não há sereias aqui, senhores, fiquem tranquilos; apenas harpias sugando a alma de seus irmãos no campo de batalha. Respondam-me, Ó grandes combatentes dessa cidade maldita! Pois o tempo urge e o sangue em meus olhos me deturpa a visão. Parece que vejo ratos à minha volta, mas eles vestem preto! Eles ostentam caveiras no peito, armas, e cicatrizes por todo o corpo, mas eu podia jurar que buscam buracos para se entocar. E não é essa a natureza dos ratos?

Fiquem aí se quiserem, senhores combatentes caídos, pois a hora da partida chegou, e nós devemos seguir nossos caminhos: eu, para a vida na morte; os senhores, para a morte em vida. Qual sorte será a melhor, só os demônios saberão dizer.

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