A Estória da Civilização: Elementos Morais – Casamento

“O casamento era uma parceria lucrativa, não uma devassidão privada; era uma maneira pela qual um homem e uma mulher, trabalhando juntos, poderiam ser mais prósperos do que se cada um trabalhasse sozinho. Onde quer que, na história da civilização, a mulher tenha deixado de ser um bem econômico no casamento, o casamento decaiu; e às vezes a civilização decaiu com ele.”
Will Durant, “Nossa Herança Oriental”, página 44.
(Uma família composta pelo pai, a mãe e seus filhos: uma instituição rara hoje.)

RESUMO: A civilização precisa da moral e do casamento, uma instituição que percorreu um longo caminho desde a nacionalização das mulheres e a poligamia predominantemente motivada pela propriedade, até a atual moda da monogamia romântica.

 

Civilização seria impossível sem moralidade. Moralidade é a cooperação das partes com o todo através do senso moral e da consciência social. Estes, por sua vez, surgem após o tempo ter trabalhado sua mágica para introduzir tanto os costumes quanto a moral na própria constituição do homem, tornando-os uma segunda natureza no indivíduo. Moral são costumes que o grupo considera vitais para seu bem-estar e desenvolvimento; costumes são convenções selecionadas após gerações de tentativas e erros; convenções são formas de comportamento consideradas práticas por um povo.

A primeira tarefa dos costumes que constituem um código moral foi regular as relações dos sexos. A forma básica de tal regulação era o casamento — a associação de parceiros para o cuidado da prole — que foi tão variável na história quanto é hoje.

Sociedades sem casamento eram raras, e uma “nacionalização de mulheres” primitiva existiu por um tempo, mas rapidamente passou. Ela continuou, no entanto, ainda a ser vista em costumes como festivais periódicos de abandono sexual, no empréstimo de mulheres e no jus prima noctis.

Uma variedade de uniões provisórias tomou gradualmente o lugar de relações indiscriminadas. Na verdade, a palavra original para casamento, no Havaí, significava “tentar”. O casamento era mais frequentemente uma instituição temporária, facilmente encerrada tanto pela esposa quanto pelo marido. Muitas mulheres poderiam se casar com um único homem e vice-versa, e até o casamento em grupo foi praticado.

A substituição dessa primitiva semi-promiscuidade provavelmente esteve ligada à crescente instituição da propriedade. O casamento individual veio porque o homem desejava escravos baratos e para evitar deixar sua propriedade aos filhos de outros homens. Mas a poligamia (mais corretamente, a poliginia, ou a posse de várias esposas por um único homem) era a regra. Os homens viviam uma vida mais perigosa e violenta, então eles morriam mais; o celibato das mulheres era intolerável para uma população que precisava aumentar, então eles tinham que aceitar a poligamia; o homem gosta de variedade e de esposas jovens, e as próprias esposas queriam uma maternidade menos frequente, assim como compartilhar sua labuta. Quanto mais rico o homem, mais escravos ele tinha, ou seja, esposas e filhos.

A diminuição do perigo e da violência com o advento de uma vida agrícola sedentária levou os sexos a uma igualdade numérica aproximada. E à medida que a cupidez do homem aumentava, tornou-se desejável compartilhar seu legado apenas com a “esposa principal” e deixar as outras como meras concubinas. Gradualmente, a esposa principal tornou-se a única esposa, as concubinas foram mantidas em segredo ou desapareceram e, com o cristianismo na Europa, a monogamia tornou-se a forma legal e exterior de associação sexual.

O casamento era obrigatório entre quase todos os povos primitivos, assim como a exogamia, ou a obtenção pelo homem de uma esposa de outro clã que não o seu. Para isso, o homem era frequentemente obrigado a passar um período de serviço vivendo com o clã da mulher, mas o casamento por captura também ocorria. Com o aumento da riqueza, tornou-se mais conveniente oferecer ao pai um presente substancial ou uma quantia em dinheiro. Consequentemente, o casamento por aquisição e acordo parental tornou-se a regra. Por outro lado, também era comum o pai pagar em troca um presente que foi aumentando com o tempo e com os pais ricos que tentavam facilitar o caminho para as filhas. Por fim, a instituição do dote tomou forma e a compra do marido pelo pai substituiu ou acompanhou a compra da esposa pelo pretendente.

Em todas essas formas e variedades de casamento, dificilmente havia um traço de amor romântico. Naqueles dias simples, homens se casavam por mão-de-obra barata, parentesco rentável e refeições regulares — os povos primitivos eram pobres demais para serem românticos. Eles eram homens práticos e, de fato, exigiriam de nós “alguma explicação do nosso costume de unir um homem e uma mulher quase para a vida toda, somente porque o desejo sexual os acorrentou por um breve momento como um relâmpago”.

 


  1. O que são convenções, costumes, moral e moralidade?
  2. Qual é a primeira tarefa dos costumes?
  3. O que levou os homens a substituir a semi-promiscuidade da sociedade primitiva pelo casamento individual?
  4. Por que a poligamia era preferida?
  5. Qual foi o caminho para a monogamia?
  6. O que é o dote? E como ele se originou?

Um comentário sobre “A Estória da Civilização: Elementos Morais – Casamento

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