Maritain, o Objetivista

“Eu não sou um neo-tomista. No geral, eu prefiriria ser um paleo-tomista do que um neo-tomista. Eu sou, ou pelo menos eu espero que seja, um tomista.”
Jacques Maritain, “Existência e o Existente”, Introdução.
(A Tentação de Sto. Tomás de Aquino, por Bernardo Daddi, 1338.)

Claro que Jacques Maritain não era um objetivista; ele era um tomista. E ser tomista, aprendi, é participar pelo menos do primeiro (e, possivelmente, do mais importante) axioma do objetivismo: “Existência existe”. Isso facilita muito minha vida, agora que decidi apresentar um trabalho inexistente sobre ele em uma conferência no futuro próximo.

 

“… o que distingue o tomismo autêntico das muitas correntes não-tomistas ou supostamente tomistas no escolasticismo, nas quais o espírito de Platão, Descartes ou Wolff se insinuou […] é precisamente a primazia que o tomismo autêntico concede à existência e à intuição do ser existencial “.

A metafísica de Maritain, Aquino e Rand pode bem ser resumida laconicamente pelo dizer medieval com o qual Maritain começa seu livro “Existência e o Existente”:

Veritas sequitur esse rerum

“A verdade segue a existência das coisas.”

“A verdade”, continua ele, “é a adequação da imanência em ato do nosso pensamento com aquilo que existe fora do nosso pensamento.” “O conhecimento está imerso na existência”.

Bom. Esta leitura superficial do primeiro capítulo de “Existência e o Existente” me dá confiança de que serei capaz de me concentrar na sobreposição entre essas duas filosofias. Eu vejo agora porque Ayn Rand anunciou Aquino como um membro daquela sua lista mais restrita de “filósofos dignos de Rand”.

Maritain continua prestando sua homenagem aos sentidos e à razão:

“O sentido entrega a existência ao intelecto; dá ao intelecto um tesouro inteligível que o sentido não sabe ser inteligível, e que o intelecto, por sua vez, conhece e chama pelo seu nome, que é ser”.

E então, referindo-se àqueles filósofos que seguiram Descartes, e assim acabaram enclausurados dentro de suas próprias mentes, ele faz uma afirmação que conquistaria o coração de Ayn Rand (eu acredito):

“Eles não vêem que objeto e objetividade são a própria vida e salvação do intelecto”.

Eu iria dormir agora pensando que Maritain tinha uma inclinação séria para o objetivismo, mas ele então chega ao que eu acho que é o cerne de seu argumento, o que, ao que parece, vai desviá-lo da afeição de Rand:

“Um filósofo não é um filósofo, se ele não é um metafísico.” Até aí tudo bem. “E é a intuição do ser […] que faz o metafísico.” Hummm… agora isso me preocupa. “Intuição” definitivamente não é uma palavra que Ayn Rand via com bons olhos. E Maritain confirma minhas preocupações quando diz que essa intuição “não é uma questão de análise racional ou de um procedimento indutivo ou dedutivo, ou de uma construção silogística”.

Então, é uma questão de quê? Seria iluminação divina? Insight místico? Ele é um tomista, afinal de contas, não um filósofo ateu como Rand.

Ele fala sobre essa intuição brotando “inesperadamente como uma espécie de graça natural ao ver uma folha de grama ou um moinho de vento”, ou sobre uma “percepção repentina da realidade do eu”, ou mesmo sobre a existência de coisas independentes de nós mesmos tornando-se “abruptamente evidente para nós”.

Ele diz, em suma, que há muitos caminhos que levam à obtenção dessa intuição, mas o que realmente importa, ele nos insta, é que nós demos:

“…o salto, para liberar, em uma autêntica intuição intelectual, o sentido do ser, o sentido do valor das implicações que estão no ato de existir. O que conta é ter visto que a existência não é um simples fato empírico, mas um dado primitivo para a própria mente, abrindo para a mente um campo infinito supra-observável — em uma palavra, a fonte primária e super-inteligível de inteligibilidade.”

Não, definitivamente ele não é objetivista. Ele parece estar se aproximando de Deus como a “fonte super inteligível de inteligibilidade”, o que o enviaria a milhares de quilômetros de distância das convicções de Rand. No entanto, a primazia da existência ainda está lá com toda a sua força. E isso não é tudo.

Como acabamos aceitando um axioma auto-evidente? Rand fala sobre o axioma da existência como sendo conhecido apenas ostensivamente, apontando para a coisa e dizendo “lá está!”. Mas todos os céticos, platonistas ou cartesianistas ou praticamente a grande maioria dos filósofos ao longo dos milênios dirão que não é suficiente, que podemos ser enganados. Podemos evitar o fato de que, no final da estória, temos que confiar em algum tipo de intuição ou, como gosto de chamar, de “fé científica”?

Claro, eu não sei a resposta para esta pergunta. Mas, por mais objetivista que eu seja, estou ansioso para aprender o que Maritain tem a dizer sobre sua “intuição do ser”. Espero que, seja por seu caminho ou pelo de Rand, eu permaneça, como Maritain colocou no final do capítulo, “inebriado pelo ser”.

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