Maldito seja, Epicteto!

Eu vejo minha mãe deitada na cama do hospital e eu amaldiçoo Epicteto. Ele diz que temos que ser indiferentes a coisas indiferentes. Ele diz que coisas indiferentes são dor, doença, morte e tudo o que está além do nosso controle, tudo que não se origina de nossas próprias ações e feitos. É inútil lutar contra os desígnios de Deus, então tudo o que devemos fazer é nos comportar e seguir o fluxo, mantendo uma resignação serena em relação às dificuldades da vida. Devemos pensar objetivamente sobre tudo o que acontece em nossas vidas, esforçando-nos para sermos justos em nossas ações, desempenhando nossos deveres como homens racionais, cumprindo nosso papel de criaturas divinas. Em suma, ele quer que eu não dê a mínima para a morte que se aproxima de minha própria mãe — e isso me enfurece.

 

No entanto, quero entender por que ele expõe essas idéias absurdas, por que ele tem a coragem de sequer pensar em tais palavras. Maldito seja, Epicteto! Mostre-me que você está certo. Mostre-me que não é imoral ser indiferente à morte de nossos amados. Mostre-me que devemos aceitar como vacas curvadas tudo o que nos é lançado de cima, sem reclamar, sem afetação. Não, faça melhor: mostre-me que você realmente poderia fazer isso.

Você era um escravo que ficou aleijado pela violência de seu próprio mestre, que por sua vez também era um escravo. Você era escravo de um escravo sob as asas de Nero, o pior espécime de todos os seres humanos que já existiu, numa época em que todos, com exceção dos melhores, eram escória. Você fez o que fez porque não tinha outra saída. Ou você se iluminava ou não teria chance. Ou você aprendia a levar golpes e limpar a merda de outras pessoas sem reclamar ou você morreria e seria você próprio um merda. Você é um sobrevivente nato, eu lhe concedo isso. Mas se assim for, sua filosofia não tem utilidade para nós. Se ela é para pessoas como você, para quem é natural aceitar, se resignar, simplesmente continuar e sobreviver, então ela é tão inútil para nós quanto sua perna aleijada é para você, um fardo que temos que carregar para nos lembrar de como somos fracos. Porque se não fosse por você e sua filosofia, eu poderia me permitir sofrer. Eu poderia amaldiçoar os deuses por sua injustiça e me entregar à autopiedade. Eu poderia fazer votos vazios de revolta contra a natureza e suas regras ridículas. Eu poderia procurar consolo na impessoalidade dos átomos e aceitar a aleatoriedade como o verdadeiro governador do mundo. Eu poderia sentar e chorar. No entanto, eu não posso.

Eu tenho suas palavras no meu bolso e elas ardem como o inferno! Eu gostaria de não tê-las memorizado.

“…quando você está encantado com qualquer coisa, deleite-se como com uma coisa que não é daquelas que não podem ser levadas, mas como algo assim, como um pote de barro é, ou um copo de vidro, que, quando for quebrado, você poderá se lembrar do que era e poderá não se afetar.”

“Lembre-se também da mesma maneira, que quem você ama é mortal, e que o que você ama não é nada seu próprio.”

“Que mal há em quando você estiver beijando seu filho dizer com uma voz trêmula: ‘Amanhã você vai morrer’; e também a um amigo: ‘Amanhã você irá embora ou eu irei, e nunca mais nos veremos novamente’?”

Quão irreal é isso? Quão irritantemente simples parece. Isso não é ser racional. Isso é ser sangue frio como um assassino! Não, muito mais que isso. Eu sou um assassino e minhas veias estão fervendo por dentro.

Não, o que você exige de nós é demais.

Isso não é nem seguir a natureza como os autômatos que você quer que sejamos. Isso é negar nossa própria natureza como seres humanos. Somos seres falhos. Buscar a razão como virtude pode ser nosso dever como filhos de Deus, mas a racionalidade perfeita não é nossa para alcançar. Perfeição é para deuses. Não para homens. Eu sou um homem! O que você é, Epicteto? Como você pode manobrar com amor e indiferença ao mesmo tempo? Porque se nós devemos observar quem amamos morrer e sermos indiferentes, você espera feitos impossíveis. Você realmente pensou em suas palavras? Você realmente as aplicou com alguma eficácia, ou você é apenas um homem de palavras, um especialista em filosofia de escritório desconectada da realidade, sonhando acordado sobre uma possível conduta moral ideal? Você é de verdade? Ou você é uma fraude, uma construção otimista das mentes carentes dos homens? O que eu tenho no meu bolso nem sequer foi escrito por suas próprias mãos, mas é o que um mero aluno disse que ouviu de você. Fale você mesmo se quiser que eu ouça — caso contrário, fique em silêncio e me deixe ser fraco.

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