O Combatente – #3

Ele daria graças a Deus pela vibração em seu bolso, mas ele não é tão hipócrita. Suas crenças estão extremamente escassas hoje em dia: sua Glock 22 na cintura é uma delas; Deus não entra na lista. Mas é com sincera gratidão à deusa Fortuna que ele faz uma das coisas que mais odeia e pega seu celular dentro do bolso — pelo menos seu transe acabou, e ele encontra a decisão necessária para sair do quarto de sua filha. Ele não olha para trás enquanto fecha suavemente a porta.

 

(Ler O Combatente – #2)

Um pequeno ponto vermelho com o número “setenta e seis” mostra quantas mensagens de WhatsApp o aguardam. É um absurdo que a unidade de operações especiais da polícia civil do Rio baseie sua comunicação inteiramente em um aplicativo gratuito de mensagens instantâneas, mas isso é verdade. Não é sobre a negligência do governo, no entanto, sobre o que ele reflete agora. Quando foi que o mundo ficou assim? Quando foi que as pessoas pararam de se relacionar sem um intermediário digital que as proteja de suas verdadeiras intenções? Por que o homem passou a precisar tanto de contato com outras pessoas, mesmo que (ou contanto que) seja um contato indireto, distante, e falso? Ele sempre preferiu combater no chão ao invés de no helicóptero pelo mesmo motivo que prefere contato pessoal a aplicativos digitais irritantes: só assim ele vê o branco nos olhos do inimigo.

Quando ele abre o aplicativo, vê o Daniel na primeira fila. Ele é um antigo membro da sua equipe, um dos poucos que já frequentou a sua casa, mesmo ele sabendo que o caráter do Daniel é um tanto quanto duvidoso. Depois de tantos anos combatendo juntos, é difícil se desvencilhar de certos vícios em comum, e sua amizade recíproca é um deles. O Daniel pode ter todos os defeitos do mundo, mas ele é seu amigo. Ele sempre teve um grande senso de trabalho em equipe e sempre se preocupou com o bem-estar de todos, além de ser um grande combatente. O problema dele é o gosto pela mentira. Ele a usa sem perceber, como se a verdade fosse um empecilho à continuidade natural da vida. Você encontra uma agarra complicada no meio de uma escalada e decide evitá-la usando uma laca grande e oca à esquerda, uma que está claramente solta e provavelmente mal suportará seu peso apenas para ser arrancada da parede e mergulhar no abismo em direção às cabeças dos outros participantes — é assim que ele usa as mentiras. Ele não se importa, contanto que o ajude a subir para onde quer ir, onde quer que isso seja. Além disso, ele é social demais para o seu gosto, aquele tipo de pessoa que está sempre fazendo “amigos” no caso de precisar deles algum dia, e é exatamente assim que ele ficou sabendo sobre o cancelamento, apesar de a linha-de-comando não passar por ele.

A mensagem o pegou de surpresa: “E aí, nada mais de op, hein?” Ele volta para a página inicial do aplicativo e observa mais de perto as outras mensagens. Às 23:47, seu chefe havia mandado um aviso ao “grupo dos chefes” dando “última forma” na operação. Este era o jargão que deveria enviar a equipe mentalmente de volta ao estado anterior, isto é, à situação normal de plantão sem qualquer operação planejada. Ele com certeza devia estar no meio de um sono pesado quando a mensagem fora enviada. Ele deveria ter deixado o som do aplicativo ligado, ao menos o do grupo principal, mas cancelamentos assim em cima da hora não eram nada comuns. Não o cancelamento em si — o que acontecia toda hora — mas o fato de avisarem eles com qualquer antecedência. A cúpula superior de comando simplesmente não poderia se preocupar menos com o sono de reles operadores. “Não, não vai mais ter”, ele rapidamente digita para Daniel e já muda o aplicativo para o grupo de sua equipe, o SOTE 1. “Senhores, a operação foi desmarcada por ordem superior. Estejam prontos somente no horário regulamentar às 06:00.”

Ele sempre prefere começar o dia com um combate, ou ao menos com a possibilidade de um. Não havia nada melhor para aguçar o apetite do que cheiro de pólvora e o zunido de projéteis passando próximo a seu corpo, as infames “abelhinhas”, como as chamam. Mas hoje ele está feliz por ter mais uma hora e pouco de folga para desfrutar de sua casa no silêncio do antes do amanhecer.

Há algo no ar que ele não consegue identificar. Faz frio, mas não o suficiente como ele gosta, e o ar não está limpo como é costumeiro no inverno. Além disso, parece haver uma presença estranha. Quem dera fossem seus pais. Ele nunca entendeu por que as pessoas têm medo de espíritos. Elas se preocupam mais em não sentir medo por breves instantes do que com o fascínio de descobrir que existe vida após a morte, e com a chance de rever seus entes mais queridos. Ele adoraria que seus pais voltassem para assombrá-lo à noite. Assim, ele poderia pedir o perdão de seu pai e saber se ele estava feliz em rever sua mãe. Ele podia imaginar o teor da resposta: “Eu sabia que ela não aguentaria ficar muito tempo sem vir encher o meu saco”. Com um sorriso quase imperceptível no rosto, a cabeça baixa e os olhos fixos no infinito, ele resolve pegar sua caneca de café e sair para a varanda. Lá, ele espera discernir algo de bom na negritude da manhã que ainda teima em não nascer.

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