Violência Natural

“Olhai em redor: o sangue corre em rios, até mesmo alegremente, como se fosse champagne. […] Que é que a civilização suaviza em nós? […] Acontece que o homem pode acabar encontrando prazer no sangue. […] Seja como for, se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, decerto o fez mais perversamente, mais covardemente sanguinário que antes. Antes, ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e era de consciência tranquila que exterminava quem lhe aprazia; hoje, embora considerando o derramamento de sangue uma coisa abominável, entregamo-nos a essa abominação ainda mais frequentemente que antes. Que é pior? Decidi por vós mesmos.”
— Fyodor Dostoyevsky, “Notas do Subterrâneo”.

O dia está quase acabando e bate aquele desespero que agora já me é conhecido. Eu ainda não escrevi post algum, não tenho nenhum guardado para momentos como esse, e, o que é pior, não tenho ânimo para escrever. No entanto, escrever é preciso. Como diz um amigo meu (se referindo ao hábito de correr todo dia): quando está difícil, quando não há ânimo algum, quando tudo o que você mais quer é não fazer aquilo é justamente o momento em que você mais deve fazê-lo — só nesse momento é que existe mérito verdadeiro. E, assim, me forço a escrever. Mas tudo que vem na minha mente é o absurdo da violência em que vivemos, e cada palavra que escrevo me incomoda.

Eu acabo de dormir cerca de cinco horas ao longo de toda a tarde. Eu odeio dormir durante o dia, mas hoje foi inevitável. O motivo é que meu dia de trabalho ontem, que deveria ter durado quatorze horas, durou trinta e seis. E eu estou ficando velho.

Fomos chamados para uma missão sobre a qual não posso falar em detalhes. Mas o que interessa é que ela envolvia tentar pegar uma quadrilha de criminosos fortemente armados que vem operando em uma cidade vizinha ao Rio. O problema é que essa cidade é conhecida por ser um destino paradisíaco para quem gosta de curtir a paz de uma cidade pequena. Há muitos anos não ia para aquela região e, hoje, enquanto voltava dirigindo semi-sonâmbulo de manhã cedo, fiquei pasmo com a beleza do lugar. No entanto, se a missão tivesse sido bem-sucedida, esse mesmo lugar teria amanhecido coberto de sangue e cadáveres — talvez até o meu próprio.

Eu sou acostumado com a violência, ao menos, até certo ponto. Mas, hoje, o absurdo do que tentamos fazer ontem (ou melhor, do que tentamos impedir) se junta ao absurdo do que aconteceu a poucos dias no Rio para me deixar com um gosto amargo na boca. Em um evento de “terrorismo doméstico”, dois jovens invadiram uma escola e mataram a tiros e machadadas oito pessoas inocentes, entre alunos e funcionários, antes de matarem a si próprios. O que há para se falar sobre um ato de barbárie como esse? Muito. Mas, por pura fraqueza, hoje eu falarei muito pouco.

Quando lemos história, vemos atrocidades sem fim. Quando lemos o jornal, vemos a mesma coisa. Quando eu olho para o meu passado, vejo mortes e mais mortes. Em um esforço racional de compreensão, tentamos integrar os diversos eventos particulares que percebemos em busca de abstrair suas diferenças e focar nas suas semelhanças — são essas últimas que nos darão a essência do que vemos e, portanto, nos colocarão mais próximos de uma descrição apropriada da realidade. Qual é, então, a essência que une tudo que vejo à minha volta a tudo que vejo dentro de mim?

A natureza do homem.

E é com ansiedade que aguardo pela luz da manhã — quando nos é bem mais fácil mentir — pois, hoje, o negro da noite só me traz vergonha.

 

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