Voe!

“Quem passou pela Vida em branca nuvem, / E em plácido repouso adormeceu,
 / Quem não sentiu o frio da desgraça,
 / Quem passou pela Vida e não sofreu,
 / Foi espectro de homem; não foi homem,
 / Só passou pela Vida, não viveu.”
– Francisco Otaviano –
(por Barry Holubeck / CC BY-SA 3.0 / Dessaturado do original)

Quando um policial morre baleado, não é tão difícil entender; a vida nas ruas é perigosa, mas alguém tem que vivê-la se esperamos ter um mínimo de segurança e ordem. Então, quando acontece, o burburinho é no sentido de saber exatamente o que houve: se foi covardia dos bandidos, se foi em combate ou se o policial estava na sacanagem. Mas nunca se questiona o “mérito” da morte — policial e bandido morrem com tiro e é isso.

Mas quando alguém morre se tacando de um precipício com pequenas asas entre os braços, o burburinho é outro. Aqueles que têm um mínimo de senso evitam a pergunta que paira em suas mentes, mesmo que não saibam a resposta. “O cara morreu por causa disso, então vou ficar calado”, eles pensam. Fazem bem. Mas outros não se seguram e não tardam a questionar o porquê de fazer uma coisa dessas, parecendo até indignados com o ocorrido, como se aquele que se fora fosse fazer alguma falta a eles. Se exaltam com a aparente falta de zelo pela própria vida, com a irresponsabilidade e, sejamos diretos aqui, com a idiotice demonstrada.

Tenho pena de tais pessoas; pois somente acham que vivem.

Essas pessoas se agarram ao que chamam de vida com unhas e dentes, fazendo de tudo para incorrerem o mínimo de perigo possível. Parecem querer garantir sua perpetuidade no planeta, como se tivessem controle para tal. São pessoas que, como já dizia o poeta Jorge Luis Borges em “Instantes”, nunca vão a “parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um pára-quedas”. Infelizmente, não percebem que nem um pára-quedas é suficiente, às vezes.

A inexorável verdade que passa despercebida por essas pessoas é que NUNCA temos controle. Mas mesmo aqueles que admitem que estamos sob desígnios maiores que nossas próprias vontades apresentam, de pronto, uma solução: “minimizemos os riscos”, eles dizem pateticamente. Assim, talvez consigam extender seu visto de turista aqui na Terra e, quando tiverem que morrer, ao menos, terão vivido ao máximo. Será?

Acordar no horário ditado pelo seu chefe, ou melhor, horas antes, por causa do trânsito absurdo que o fazem aturar; mofar no carro em meio ao ar carregado de seu ar-condicionado que o protege temporariamente do mundo que tanto o aflige; ralar o dia todo em um emprego sem graça (mas seguro) fingindo ser o dono da verdade em reuniões que não levam a lugar nenhum ou tendo que baixar a cabeça submisso só porque não pode perder sua cadeira; ir irritado para casa no fim do dia sem saber se o motivo do stress que sente é o trabalho inútil realizado no dia ou a antecipação por ter que encontrar sua “cara-metade” em casa, a qual tem tão pouca vontade de vê-lo quanto você a ela; olhar todo dia a noite para o seu filho e reconhecer alguém que pode ser muito melhor que você um dia, mas que, devido ao seu ressentimento pela sua própria vida aquém de seus sonhos, nunca receberá de você mais do que uma boa noite, dinheiro para faculdade e um breve carinho entre as suas três primeiras cervejas e a oitava ou nona. Isso é viver? Ah, mas é claro que isso não se aplica a você. Você tem controle sobre sua vida e não faria isso, não é?

Infelizmente, essas pessoas têm sim um pouco mais de probabilidade de sobreviverem e, assim, transmitirem seus genes medíocres. Mas não de viverem. Pois a Morte faz parte da Vida tanto quanto respirar e, como tudo na vida, não deve ser enfrentada com medo, mas sim, com respeito. Aquele que vive com medo vive pela metade, e aquele que passa a vida “em brancas nuvens” desperdiça sua única chance de viver. Quem acredita em Deus e no Paraíso talvez tenha uma segunda oportunidade, mas e se estiverem enganados? E se não fizerem por merecer? Porque se há um Deus e se ele fez os mares e as montanhas e os céus, será que ele não quer que desfrutemos ao máximo de sua criação? Será que prefere que nos regozijemos, ao contrário, da criação do Homem: dinheiro, drogas, carros e poder? Ainda bem que existem aqueles que “se tacam do precipício”.

Mas, então, vem aquele cara mais impertinente e faz a fatídica pergunta: “Mas valeu a pena”? E eu sou obrigado a responder…

Inicio deixando claro uma coisa. Da mesma maneira que Nelson Mandela abriu sua defesa em seu primeiro julgamento declarando que não reconhecia o direito do tribunal de julgar o seu caso (pois, como poderia uma corte branca racista julgar o mérito de um negro revolucionário?), começo dizendo que sei que não vou convencer ninguém aqui — e nem faço questão. Como podem aqueles que vivem se arrastando no chão entender aqueles que almejam tocar os céus? Mas faço questão de ousar uma resposta, mesmo que, talvez, não me expresse tão bem quanto fariam aqueles que a conhecem muito melhor do que eu, pois a vivem diariamente.

Não, não valeu a pena.

Há poucos dias[1], um grande irmão morreu. Apesar de eu ter tido pouco contato com ele, como homem de operações especiais, era meu irmão de armas, assim como de todos os Falcões que trabalham comigo. Além disso, era grande amigo de pessoas que eu admiro muito. Ele deixou família e um filho de um ano. Uma vida sensacional acabou. Muitos choraram e chorarão por ele durante muito tempo. Pais perderam um grande filho. Os combatentes do GRUMEC perderam um grande amigo. O Brasil perdeu um grande combatente. O Mundo perdeu um grande homem.

Mas ele conheceu o sublime prazer de VOAR! Ele conheceu o manso vazio que é não ter um chão sob seus pés e, mesmo assim, ter a certeza de que não precisa de tão trivial suporte. Ele sentiu a tranquila liberdade de zunir como uma rocha montanha abaixo e saber que a gravidade brevemente seria domada. Ele viu cristais de quartzo passarem a centímetros de sua cabeça, a centenas de quilômetros por hora, e sentiu o calor que emanava da rocha e a imponência de tais testemunhos da eternidade da Terra. Ele viu as copas das árvores de braços abertos o aguardando, e as viu chorar a ausência de sua companhia quando as moléculas de ar abaixo caprichosamente se comprimiram no momento certo e o levaram para frente. Ahh que momento sensacional a hora que Deus te sustenta com todas as Suas forças! Ou não é Deus que transforma o homem que anda em rocha que cai e, finalmente, em guerreiro que voa? Eu não sei, pois fui agnóstico a vida toda, mas talvez quem viveu a vida temendo a Deus, ao invés de viver o presente que Ele nos deu, possa responder. Só sei que ele sentiu o vento vibrando e amassando a sua pele e ouviu o rugido enquanto cortava o meio a sua volta. E foi quando percebeu que, ao invés de cair impotente, influenciava seu caminho a sabor da turbulência. Não, não havia controle total. Mas quem quer isso? Havia, ao invés, uma harmonia que só se sente quando ambas as partes concordam e não quando uma domina a outra. Era um acordo tácito entre criações ímpares: o vão entre a Montanha e o Mar de um lado, e o homem audaz do outro — ou melhor, juntos, do mesmo lado. Ao voar, ele viu urubus planando a sua frente, despercebidos, e os seguiu até que, surpresos, danaram a bater em retirada. Devem ter pensado: “Não sabia que havia urubus de olhos azuis”. Não, não há. Mas há homens que olham para a Morte e, com um sorriso maroto, se tacam no vazio, não como quem diz “Sou melhor do que você”, mas sim como quem diz “Obrigado por fazer a vida tão bela”. Pois o que seria da Vida sem a Morte? Eu não sei, mas talvez possamos perguntar àqueles que têm controle total sobre suas vidas, àqueles que nunca conhecerão a vitória sobre a Morte (mesmo que efêmera) mas que, ao invés, se gabarão de sua derrota para a Vida (mesmo que constante, durante toda ela).

Não, não valeu a pena — VALE A PENA!

A dor dos que ficam — pais, irmãos, amigos — às vezes não permite sentir, mas, no fundo, sei que sabem a verdade: ele não teria sido quem foi se tivesse sido privado de voar. Não é e nunca foi uma opção. Da mesma forma que artistas preferem a morte a não exercer sua arte, aqueles que voam também a preferem a ter suas asas cortadas. A morte virá a todos, mas quantos podem dizer que sabem o que é voar? Quem, além dos pássaros e de homens como o filho e irmão dos senhores? Por mais que a dor os faça sofrer, que ela lhes lembre que só a sentem de maneira tão forte e visceral porque aquele que

se foi homenageava a Vida todo dia e, com isso, enchia a vossa com essa rara e bela energia.

E é por isso que, nesse momento, só o que consigo fazer é exortar a todos que o imitem:

Saltemos, senhores! Voemos e combatamos! E morramos, se for necessário.

Mas nunca vamos olhar para trás, de onde quer que estejamos, e nos arrepender de nunca ter vivido. Pois, assim, o “nosso lugar nunca será ao lado daquelas frias e tímidas almas que nunca conheceram nem a vitória nem a derrota”.

O nosso lugar será ao lado dele. E que honra maior podemos querer?

Ventura, 10 de Junho de 2016.

 


Nota

1. Eu escrevi este texto alguns dias depois que ele morreu, mas isso foi há alguns anos atrás. Na época, eu enviei este texto para sua família e amigos; agora eu mando para você.

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