O.P.A.R. – Comentário: Moralidade “Anti-Evasão”

“Por sua natureza, a evasão é uma forma de não-integração. É a forma mais letal: a desintegração intencional de conteúdos mentais. Um homem nesta condição não tem mais meios para determinar consistência ou contradição, verdade ou falsidade. Em sua consciência, todo o conteúdo conceitual é reduzido ao caprichoso, ao sem fundamento, ao arbitrário; nenhuma conclusão se qualifica como conhecimento em uma mente que rejeita as exigências da cognição. Assim, o verdadeiro evasor […] atinge apenas um fim e um tipo de “segurança”: a cegueira total.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 225.
(Pare de se evadir. Olhe para a realidade. Vê algo que não pode aceitar? Combata-o.)

O combate tem uma moralidade embutida, e ela é bela. Mas, por favor, entenda o que quero dizer com combate. Não é uma guerra ou uma situação violenta em que você se encontra. O combate é uma atitude em relação à vida, é escolher a luta ao invés de fugir. As formas mais facilmente reconhecíveis de combate são as explícitas, como a que eu pratico nas favelas, mas não é a aparência externa que importa — é a ética subjacente. Quando pressiono o gatilho do meu fuzil, não estou escolhendo a morte; eu estou escolhendo a vida — a vida de um homem qua homem como o seu padrão de valor.

Os combatentes têm o melhor ponto de visada para enxergar a vida como o bem que ela é e, assim, descobrir o melhor código de valores pelo qual se orientar; é uma pena que tão poucos façam o esforço. Não é apenas a proximidade da alternativa fundamental que todos nós encaramos — a vida ou a morte — mas o fato de nos colocarmos lá por nossa própria escolha e pelos motivos certos. É uma coisa diferente quando você se coloca em perigo apenas por diversão, como quando salta de base-jump ou escala em solo. Eu já fiz as duas coisas e sou a última pessoa a menosprezar não apenas a emoção, mas também o aprendizado embutido nessas atividades. Mas elas não são combate. Combate é fazer o que você deve fazer para viver uma vida racional e moral — uma vida de homem qua homem — não importa o que aconteça.

Se você olhar para o mundo ao seu redor e decidir que ele está deturpado, você tem duas opções: fugir dele ou combatê-lo. Se você acha que o mal do mundo não vai afetá-lo, se você acha que a pobreza e a violência estão restritas às favelas e seus arredores e que elas não chegarão ao seu condomínio de luxo, então você está se evadindo psicologicamente, fingindo poder viver em uma bolha, isolado de toda a realidade. Cedo ou tarde, você será provado errado. Mas se você decidir que o mal irá realmente afetá-lo e, portanto, se mudar para outro bairro, cidade ou país, a sua evasão é física — você foge para escapar das dificuldades da realidade. Você esquece que o mal tem muitos disfarces e que sua atitude fará você fugir para sempre. Há sempre um monstro dentro de nós — até mesmo o céu gerou o diabo — e ele nos acompanha onde quer que vamos.

As duas verdadeiras alternativas são sofrer passivamente ou viver moralmente; morrer em vida ou viver na morte. Viver moralmente em um mundo falho, perigoso e violento é combater. Combater é olhar a morte nos olhos, reconhecendo-a como tal e enfrentando-a de qualquer jeito, assim, descobrindo a vida como nosso valor último. Isso é o que eu chamo de “viver na morte”, e isso não está restrito a nós policiais ou a qualquer outro combatente de forças especiais — isso é como todos devem viver, porque a alternativa é viver na resignação como um animal ou na vergonha como um parasita: é morrer em vida.

Mas tão poucos realmente participam dessa mais necessária das atividades — o combate.

As pessoas vêem a pobreza durante o ano todo, mas, quando chega a véspera do Natal, dão grandes esmolas e dormem tranquilas com uma consciência apaziguada. As pessoas vêem a violência por toda parte, reclamam da inépcia e corrupção da polícia, e fumam maconha na praia ou ficam loucas de êxtase à noite. As pessoas querem ser respeitadas, mas tratam os outros como um meio para sua própria vantagem. As pessoas querem toda a liberdade que puderem obter, mas exigem do governo todo tipo de assistência, almejando a igualdade enquanto esquecem que nunca na história liberdade e igualdade deram as mãos. As pessoas apreciam os direitos humanos, mas só porque elas vivem como presas ou parasitas, sempre com medo ou exigindo o que não fizeram por merecer. As pessoas acham matar um absurdo execrável, em qualquer situação, como se “não matar” fosse um absoluto moral, e são rápidas em criticar o homem na arena, mas basta que seus entes mais queridos sejam raptados ou estuprados ou mortos, e imediatamente esquecem sua chamada moralidade e demandam a morte mais sangrenta a seus algozes.

Se arte é a “recriação seletiva da realidade de acordo com juízos de valor metafísicos”, o combate é alterar a realidade de acordo com uma moralidade que toma a vida como seu padrão de valor, mesmo que seja necessário arriscá-la. Combate é a moralidade da “anti-evasão”: a única atitude racional de alguém que persiga o interesse próprio em um mundo deturpado.

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