Bloqueio de Escritor

Bloqueio de Escritor.
(por Drew Coffman / CC BY 2.0 / Dessaturado do original)

Eu invejo o bloqueio de um escritor. Ele pressupõe um escritor sentindo algo, um coração cheio contrastando com uma página em branco e encontrando nessa contradição o motivo do desespero. Palavras esmurrando por dentro, tentando rasgar a pele, ansiando pela liberdade que só a página pode proporcionar. Mas elas não são livres, pois há um carcereiro: bom gosto — caso contrário, qualquer coisa pode preencher uma página. Eu invejo o bom gosto de um escritor também. Meu desespero vem de raciocínio que não leva a lugar algum, de proposições vazias combinando conceitos flutuantes, de argumentos falaciosos combinando proposições tendenciosas. Meu desespero vem de falsas premissas se tornando conclusões surreais, que por sua vez tornam-se falsas premissas e então conclusões surreais de novo, como se eu estivesse andando em uma faixa de Moebios, torcendo meu próprio caminho em um ciclo interminável e irritante. Meu desespero não vem de sentimentos que não se tornam palavras. Não há nenhum. O absurdo reina, mas eu ignoro o sentimento. Eu ignoro sentimento. Eu finjo que o raciocínio é suficiente. O homem é o animal que pensa ou não é? Mas ele não é o animal que sente também? Emoções — as verdadeiras — não são apenas percepções sensoriais ligando a realidade a algum órgão. Sim, elas dependem da razão — parcialmente. Você se habitua a valorizar isso e aquilo de modo a sentir como você sente. Você poderia se forçar a sentir o contrário — talvez — mas não hoje. Hoje, você é um escravo obedecendo ao vencedor do conflito platônico acontecendo dentro de sua alma. Ou é você o vencedor? Seja qual for o motor que gera esse sentimento, quando floresce, é exclusivo do homem. Nenhum animal sente como nós, alegria e tristeza, orgulho e fragmentação, satisfação e raiva. Nenhum animal sente o sucesso em seus ossos ou a alegria de estar vivo. Nenhum animal quer se vingar com todo o seu coração apenas para se sentir envergonhado quando percebe que não é seu coração falando, mas algo menor, mais escuro, mais sombrio. Ambos os sentimentos — vingança e vergonha — tentam reescrever o presente: o primeiro agoniza sobre o futuro; o segundo, sobre o passado — ambos inúteis. Nenhum animal é tão estúpido. Eles têm coisas mais importantes para fazer: sobreviver é uma delas. E nós temos coisas ainda mais importantes para fazer: viver é uma delas. No entanto, nós não vivemos. Não de verdade. É o sentimento humano que acabará por preencher a página: vida abstraída — não palavras ou pensamentos ou argumentos. Estas que você vê acima são palavras, meras palavras. Todas elas encurraladas em um único parágrafo longo demais, como se pudesse haver arte suficiente para justificar isso. Simplesmente não há razão para quebrar a “linha de pensamento”, a linha do “não-sentimento”. Este sou apenas eu tentando escrever sem parar, tentando sentir ao fazê-lo, e falhando miseravelmente. Eu paro e não sinto. Palavras são forçadas; emoções inexistentes. Inveja é o máximo que sinto; Ah, se ao menos isso bastasse! Eu invejo escritores. Eu invejo aqueles que sentem. No entanto, aprecio a razão e a lógica. Existe alguma lógica nisso? Pelo menos, não sinto bloqueio de escritor. Eu não sou um escritor. Eu nunca serei.

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