Que Diabos é Substância?

Um cavalo é uma substância? Um homem é? Que tal uma estátua de cavalo e homem? A matéria subjacente é a substância ou é a sua forma? Ou é o composto da matéria e forma o que uma substância realmente é? Talvez não haja substância. Dúvidas, dúvidas e mais dúvidas…

Durante a maior parte da minha vida, eu dei preferência a ler não-ficção em relação à ficção, usando o argumento de que uma vez que “a verdade é mais estranha que a ficção”, por que perder meu tempo com “verdades inventadas”? Não preciso dizer que eu estava profundamente enganado. Mas conto isso agora apenas para explicar por que, durante esse mesmo período da minha vida, eu lia não-ficção como se fosse ficção. Eu lia página por página apreciando o mistério do entendimento gradativamente se desdobrar diante dos meus olhos, ansiando pelo final do livro como se o assassino de uma estória de Agatha Christy fosse ser revelado. Foi ingênuo assim (para não dizer estúpido) que três anos atrás fiz uma débil tentativa de enfrentar a “Metafísica” de Aristóteles. O trauma foi tão forte que só agora estou me recuperando. Rapaz, é nessas horas que eu gostaria de acreditar em Deus ou qualquer outra superstição menor! Porque agora vou precisar de toda a ajuda que puder ter para encarar esse tomo.

Há alguns dias, comecei minha provação trapaceando “um pouco”. Eu havia aprendido que o cerne da “Metafísica” está contido nos livros Zeta, Heta e Teta, então eu pensei que poderia começar logo ali. Okay, certo! Isso é totalmente impossível. O problema não é que Z (Livro Zeta) menciona A ou B (Livro Alfa ou Beta); O problema é que ele pressupõe uma compreensão de, pelo menos, as “Categorias” e a “Física” de Aristóteles. Felizmente, eu tive a Stanford Encyclopedia of Philosophy[1] (SEP) para me dizer isso cedo o suficiente. E como era Carnaval no Rio e eu sou um homem casado, o que poderia ser melhor para fazer em tempos como este do que respirar, beber e comer o Corpus Aristotelicum?

Livro Zeta, Capítulo 1 (Z1)

Aristóteles começa Z1 tentando descobrir a qual sentido de “ser” corresponde a substância. Qualidades e quantidades e ações são todas consideradas aspectos de “ser”, mas elas precisam de algo subjacente a elas para que existam. Você não pode ver a “brancura” por si só, apenas algo que é branco. Nem pode ver uma quantidade de algo além daquilo que você está contando ou medindo. Da mesma maneira, você não pode olhar para o mundo e ver “o andar” lá fora, apenas alguém andando. Em outras palavras, “o ser primeiro, ou seja, não um ser particular, mas o ser por excelência é a substância”. Portanto, ele conclui, “que é o ser”, equivale a “que é a substância”.

Livro Zeta, Capítulo 2 (Z2)

Em Z2, Aristóteles considera os candidatos viáveis ​​para o que poderia ser classificado como substância. Corpos de todos os tipos, com certeza, como animais, plantas, água, fogo, planetas. Mas há também aqueles que consideram objetos mais simples, como superfície, linha ou ponto, ainda mais dignos de serem chamados de substâncias. Alguns consideram apenas coisas sensíveis, enquanto outros (como Platão) acham que existem substâncias supra-sensíveis, como as Formas ou os números, existentes à parte das coisas sensíveis. Qual deles está certo? Isso é o que Aristóteles está atrás de responder quando o capítulo termina: Qual é a natureza da substância? Até aí tudo bem, mas é agora em Z3 que a “cobra vai fumar”.

Livro Zeta, Capítulo 3 (Z3)

Ele começa afirmando quatro coisas comumente consideradas como substância: a essência, o universal, o gênero e o substrato. Isso imediatamente sinalizou para mim que eu estava com problemas, mas eu não podia fazer ideia do quanto.

Aristóteles então indica que, por enquanto, ele estará se concentrando apenas na última possibilidade, ou seja, que a substância é o substrato, o que parece estar em consonância com a sua conclusão no final de Z1. Mas primeiro ele define substrato:

“O substrato é aquilo de que são predicadas todas as outras coisas, enquanto ele não é predicado de nenhuma outra.”

Embora eu tenha aprendido os fundamentos da lógica, a expressão “ser predicado” torna as coisas difíceis para mim. O artigo extremamente útil da SEP sobre a “Metafísica” de Aristóteles traduz como “ser dito”, o que soa muito melhor: “O substrato é aquilo sobre o que tudo é dito, e que não é dito de coisa alguma”. Eu continuei avançando.

Aristóteles então parece equiparar substrato à matéria, mas ele também diz que poderia ser associado com a forma (ou formato) ou o composto de forma e matéria:

“E chama-se substrato primeiro, em certo sentido, a matéria, noutro sentido a forma e num terceiro sentido o que resulta do conjunto de matéria e forma.”

Aqui, mais uma vez eu senti que tinha que desenterrar o verdadeiro significado desses termos, embora eu achasse que sabia o básico deles. Mas, ainda assim, eu continuei. Usando um argumento similar ao de Z1, ele conclui que a matéria deve ser substância, pois “uma vez excluídas todas as determinações, parece que não resta nada além dela”. No entanto, ele imediatamente desconsidera sua própria conclusão com uma declaração extremamente enigmática:

“Mas isso é impossível; pois as características da substância são, sobretudo, o fato de ser separável e de ser algo determinado.”

Ele parece querer dizer que a matéria deveria ser capaz de permanecer sozinha como tal, e que deve ser possível considerá-la como uma entidade individual mesmo quando “separada”. Mas como isso poderia não ser assim? Eu não enxerguei nenhum problema quanto a isso, no começo. Porque se você enfiar, digamos, um cavalo em um liquidificador realmente poderoso e moe-lo até seus constituintes primários (o que quer que estes sejam) e deixar tudo por si só no chão como um monte de matéria de ex-cavalo, isso ainda seria algo, um monte individual sozinho no chão — um algo existindo por conta própria. Por que isso não pode ser?

Aristóteles torna tudo ainda pior para mim ao concluir que “a forma e o composto de forma e matéria parecem ser mais substância do que a matéria”. Por quê? Como pode haver uma forma existindo sozinha como um indivíduo? Para mim, isso é ainda menos possível do que matéria por si só. E o que é um composto de forma e matéria se não um indivíduo em si? Se você considerar forma e matéria juntos, você não estaria tirando nada da coisa, mas sim a estaria mantendo como é! O que diabos ele quer dizer?

Mas para tornar as coisas ainda piores (sim, já que eu estou sofrendo tanto, você também irá), há algo que ele disse que eu deixei intencionalmente de fora até agora. Como vimos em Z2, ele parece considerar as coisas individuais como substâncias, como um cavalo ou uma planta ou um planeta, mas na primeira frase de Z3, ele nos diz que aqueles quatro candidatos (essência, universal, etc.) “são tidos como sendo a substância de alguma coisa.” Então ele agora parece estar procurando a “substância das substâncias”!

Eu nunca teria notado isso se não fosse pelo artigo da SEP, e eu admito que fiquei tentado a ignorar isso aqui. Mas eu tenho uma sensação incômoda de que, se eu fizer isso, vou me envolver em uma tal confusão intelectual que logo estarei pulando Carnaval em busca de qualquer esclarecimento metafísico, contanto que este venha com uma alta dose de álcool.

O que vou fazer agora é seguir a dica dos meus amigos da SEP e ir primeiro entender quais são as “coisas que são” — os existentes — como descrito nas “Categorias”, especialmente sua explicação de substância, para então ir lidar com o conceito de forma e matéria na “Física”. Talvez aí eu seja capaz de compreender o que realmente é um monte de ex-cavalo.


Nota

1. Você pode obter versões muito bem formatadas dos artigos do SEP, em PDF, tornando-se um “Amigo do SEP“; custa míseros 10 dólares por ano por toda essa riqueza de estudos de alta qualidade sobre todos os assuntos filosóficos, por isso exorto qualquer pessoa interessada em filosofia a apoiá-los e aprimorar sobremaneira sua própria bibliografia com os artigos deles.

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