História da Filosofia – Aula 8: Sócrates e o Problema dos Universais

“Um cachorro, por exemplo, gosta de um osso; ele gosta de vários ossos. Agora, a questão é: por que não lhe ocorre abrir uma loja de ossos, ou iniciar uma ciência de ossos, ossologia, e descobrir de onde vêm os ossos e como os você os obtém? E o problema é que o pobre cachorro não consegue ter a idéia de “ossidade”, entende? Ele obtém esse osso, e depois o próximo — ele esqueceu o primeiro — depois o seguinte e assim por diante. E então o problema dele é que ele está enredado em particulares e ele não consegue ascender aos universais.”
— Leonard Peikoff,  curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 8.
(O “Homem Universal”, por Gerald Gladstone. Sócrates provavelmente não estava pensando nisso quando procurava uma abstração apropriada para o homem, mas eu acho que é uma boa mnemônica para o tópico dos universais. Fonte original: SimonP; CC BY-SA 3.0 / Dessaturado do original)

É quase impossível exagerar a influência de Sócrates na história do pensamento. Ele ensinou Platão, que ensinou Aristóteles; só isso mostraria sua importância, mas, é claro, ele fez muito mais. A maior parte do que sabemos sobre Sócrates, no entanto, é através dos diálogos de Platão, então a verdade é que não sabemos muito sobre ele. Os estudiosos tendem a concordar que os primeiros diálogos representam principalmente o Sócrates histórico, enquanto os diálogos do meio e do final representam o próprio Platão. Seja como for, como um personagem de ficção, um verdadeiro filósofo ou apenas um homem de caráter, Sócrates vem ensinando toda a humanidade por milênios. “A vida não examinada não vale à pena ser vivida”. Isso poderia ser considerado seu lema; hoje, é o meu.

A vida de Sócrates marca uma mudança definitiva da metafísica para a ética como o fulcro do pensamento filosófico na Antiguidade. O vibrante ambiente político de Atenas na Era de Péricles exigia uma resposta ao relativismo dos sofistas. Sócrates desejava uma ética objetiva e absoluta e, para isso, precisava fundamentar o conhecimento e a moralidade em princípios primeiros.

Sócrates, aparentemente, considerava-se em uma missão divina para despertar as pessoas de seus sonos complacentes e irracionais. Ele queria que as pessoas examinassem suas suposições precipitadas e se aprofundassem em suas ideias mal-formuladas. Seu método para realizar isso — o método socrático — era baseado em uma intensa sequência de perguntas e respostas que, se suportadas até o fim (o que raramente ocorria), levaria à verdade ou a uma contradição (aporia), resolvendo o problema em questão ou expondo sua má formulação.

O problema desse método foi que incomodou muitos a quem ele entrevistava, pois os fazia confrontar sua própria ignorância. Por fim, usado como um recado a todos com ideias supostamente anti-democráticas (o conhecimento não podia ser alcançado pelas massas, mas apenas por uma seleta elite), ele foi preso, falsamente acusado de corromper a juventude e negar os deuses, e condenado à morte. A “Apologia de Sócrates” foi o primeiro texto filosófico antigo que eu li, e a integridade de Sócrates no momento de sua morte fez uma marca em minha alma que eu espero nunca se apague.

O que ele havia encontrado durante suas discussões foi que as pessoas usavam conceitos que não eram claros ou definidos adequadamente. Ao enfatizar a importância das definições, Sócrates estabeleceu o problema crucial do conhecimento humano: O conhecimento verdadeiro deve se concentrar não nos detalhes, mas nos universais. Diferenças irrelevantes entre particulares devem ser abstraídas, dando lugar àquelas características comuns a uma determinada classe — sua essência.

Leonard Peikoff nos explica a questão com expressividade magistral:

“Sócrates acreditava, e Platão acreditava, e Aristóteles acreditava que aquilo que distinguia o homem dos animais, tudo o que era distintivo sobre ele, derivava de sua capacidade de compreender os universais. Eles diziam que isso é o que significa dizer que o homem é um ser racional — ele pode abstrair, ele pode compreender denominadores comuns, ele pode conceituar, ele pode classificar — e, portanto, ele pode generalizar, ele pode entender leis, ele pode aplicar a todos os outros particulares que ele nunca encontrou as informações que obteve de apenas alguns particulares, ele pode prever o futuro, ele pode satisfazer seus desejos e controlar seu ambiente. Mas se você tirar essa capacidade crucial, a capacidade de compreender os universais, a você restarão os animais, que são meramente capazes de perceber particulares e reagir a eles, mas não conseguem abstrair os universais e, portanto, não podem tirar conclusões, não podem formulam princípios, e são comparativamente indefesos.”

Conhecimento, em resumo, é conhecimento conceitual. Até que o homem ascenda ao estágio conceitual, nunca encontraremos acordo entre nós. Sócrates sabia disso quando morreu, em 399 a.c., e nós ainda não aprendemos.

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