O Combatente – #2

O ar aquecido do quarto de sua filha o recebe como um abraço de mãe, imediatamente amansando seu espírito, amaciando a dureza que ele tentara obter no banho frio. Esse é o motivo de não entrar no quarto: ele o enfraquece no aqui e agora. E o imediato é sempre mais contundente na alma do homem.

 

(Ler O Combatente – #1)

Ela não tem idade para apreciar seu quarto, mas ele tem que admitir que tudo combina com ela. Ele lembra de reclamar quando sua esposa quis colocar papel de parede logo após ele ter pintado o quarto. Para quê isso? O dinheiro estava curto naquele momento — como sempre — e sua filha não iria nem perceber. A parede era de uma cor que não dava pra descrever com uma ou duas palavra apenas: era meio cinza, meio verde, meio beje. Era um tom de “cor de burro quando foge”, mas estava na moda e era isso que interessava. O papel de parede era de outro tom da mesma cor, apenas com pequenas flores brancas espalhadas em colunas desalinhadas entre si, evitando parte da monotonia do design.

Ele sempre foi um homem prático. Ele analisava o que “fazia sentido” e o que não fazia, e agia de acordo. Ele sempre se gabou do seu raciocínio lógico, e o aplicava a tudo, como se um silogismo ou uma equação sempre resolvesse. Não só ela escolhera o tipo mais caro de papel de parede, como um rolo só não daria; faltariam poucos centímetros, e não havia outra maneira se não comprar um segundo rolo inteiro. Ele sugeriu deixar uma das paredes só na tinta, aquela tinta que ela havia feito questão de comprar e que agora seria tornada invisível, mas, é claro, ela não aceitou. Iria perder a harmonia, ela dissera. Agora, admirando sua filha dormir, ele sorri com o sentimento de paz e harmonia que sente. Qual é mesmo a equação que resolve isso?

Sua filha dorme de lado, abraçada a um cobertor todo retorcido, com parte de suas costas exposta e parte de seu rosto coberto. É como se o cobertor fosse um crocodilo rosa de pelúcia que tivesse tentado um daqueles “abraços mortais” com ela em uma briga de mentira por todo o berço e, de repente, exaustos, ambos tivessem pego no sono, agarrados e enrolados naquela posição, como velhos grandes amigos. A inocência daquela cena — amplificada pelo aconchego do quarto e pela pequena luz avermelhada que faz o berço branco enrubescer e combinar com a pele de sua filha — tenta tirar lágrimas de seus olhos, mas ele se controla. Ela é o motivo de tudo. É por ela que ele faz o que faz. Use-a para se fortalecer e cimentar sua decisão, não para amolecê-lo. Ela é seu amuleto para trazê-lo para a vida, não para afasta-lo da morte, como uma desculpa para seu medo. Guarde essa imagem para quando for necessária. Esqueça-a por agora, e faça seu trabalho. Ele tenta se convencer de que é tudo por ela, mas ele não consegue acreditar.

Ele tem outra profissão, uma com muito mais chance de uma boa remuneração do que a polícia, uma onde ele não precisa arriscar a sua vida ou o bem-estar de sua família. Por que, então, ele a largou? Por que, depois de tantos anos, ele era agora apenas um policial? Será que é isso mesmo que sua filha precisa: que ele se dedique a ser um bom gladiador, um escravo cujo sangue diverte as massas? Por que não usa seu raciocínio lógico e encontra uma alternativa mais racional? Será que é mesmo pelo seu senso de dever, pela sua moral de quem não se evade, pela “pureza do combate” que ele continua? Ou é porque não sabe fazer outra coisa da vida, porque se deixou apequenar pelas agruras do dia-a-dia, e porque se acomodou com a vida de plantões ligados por uma eterna recorrência de ciclos de quatro dias, um dia vivendo na morte e três dias morrendo em vida?

Ele odeia esses momentos. Uma cena linda como aquela à sua frente e ele fica travado em pensamentos circulares que não o levam a lugar algum. É como se ele tivesse que resolver sua vida inteira agora ou não conseguirá mais se mexer. O tempo para. O ar-condicionado novo fica ainda mais silencioso. Os pequenos gemidos de sua filha ainda mais leves. Em breve, seu ouvido se adapta e o silêncio fica absoluto. Não sente mais aquele cheiro de bebê, nem percebe o facho difuso de luz se espalhando pela mobília; o silêncio monopoliza todos os seus sentidos. Tudo se mescla em um borrão de sensações; semelhanças e diferenças perdem o sentido, sentidos e direções perdem o contexto. Ele está confinado em sua mente em busca de respostas, mas não por vontade própria. Sua mente simplesmente fugiu da realidade, de tal maneira que se desvencilhou dos sentidos — ele é puro pensamento agora. Puro pensamento idiota.

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