O.P.A.R. – Comentário: Homem Qua Homem

“Pode-se dizer que as espécies conscientes inferiores sobrevivem por ‘instinto’, se o termo significar uma forma de ação não escolhida e infalível (infalível dentro dos limites de seu alcance). Sensações e percepções não são escolhidas e são infalíveis. Um instinto, no entanto — seja de autopreservação ou qualquer outra coisa — é precisamente o que um ser conceitual não tem. O homem não pode funcionar ou sobreviver pela orientação de meras sensações ou percepções. Um ser conceitual não pode iniciar uma ação a menos que ele conheça a natureza e o propósito de sua ação. Ele não pode perseguir um objetivo a menos que ele identifique qual é seu objetivo e como alcançá-lo. Nenhuma espécie pode sobreviver regredindo aos métodos de organismos mais primitivos.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, páginas 193-194.
(Sanichar, o “menino-lobo”, nos obriga a pensar o que realmente nos faz homens. Se a razão é nosso meio básico de sobrevivência, como ele sobreviveu?)

Como eu disse no meu post maluco sobre “Duna”, razão é A palavra do Objetivismo. O Capítulo 5 de O.P.A.R. estabeleceu que é somente através da razão (não das emoções) que adquirimos conhecimento acerca do mundo; e o Capítulo 6 estabeleceu que é apenas pela razão que o homem sobrevive. Eu não vou mais mergulhar em (i) por enquanto, mas acho que (ii) precisa de um pouco mais de atenção.

Quando Aristóteles diz que o homem é o animal racional, Ayn Rand entende que o homem qua homem é definido pelo uso da razão. O termo “qua” é mais notoriamente utilizado por Aristóteles em sua “Metafísica” quando ele define propriamente a disciplina no início do Livro Gama:

“Há uma ciência que investiga o ser enquanto ser (ὂν ἢ ὀν) e os atributos que pertencem a isso em virtude de sua própria natureza.”

Em minhas próprias palavras, considero que qua significa algo como “considerado baseado no que o torna uma entidade deste tipo, em vez de uma entidade de qualquer outro tipo”. Você poderia considerar o homem como um animal bípede, mas o bipedalismo não é o que o faz se destacar como homem — sua racionalidade, de acordo com Aristóteles, Ayn Rand e esse humilde eu aqui, é.

Então, quando Ayn Rand e Leonard Peikoff falam sobre o homem qua homem, eles estão dizendo que o homem propriamente dito é aquele que usa sua mente ao máximo. Mas o fato de ser a razão o que diferencia o homem de todos os outros seres necessariamente a torna a ferramenta de que ele precisa para sobreviver?

Crianças selvagens foram relatadas em muitos lugares ao redor do mundo, mas especialmente na Índia, onde suas estórias foram contadas por séculos. Entre eles, provavelmente o caso mais emblemático é o de Dina Sanichar, o “menino-lobo”. Sanichar viveu seus primeiros seis anos de vida entre lobos até ser encontrado por caçadores, enquanto seguia o bando a uma caverna, correndo de quatro. A questão é: como ele sobreviveu?

Ele não fez nenhuma arma para caçar ou ferramentas para fazer fogo ou abrigo. Na verdade, ele sempre evitaria comida cozida e nunca aprenderia a falar. Bem, para ser totalmente sincero, ele acabou aprendendo a fumar; talvez o homem, o animal viciado, seja uma melhor definição de homem.

Se, então, assumirmos que ele usou um nível baixo de raciocínio para imitar os lobos e assim aprender o mínimo para buscar comida e água, então devemos supor que os lobos também tenham o mesmo nível de raciocínio. Nesse caso, não é qualquer nível de raciocínio que separa os homens dos animais. Mas, então, como estabelecer tal limiar, se é que há algum?

Se, em vez disso, assumirmos que ele sobreviveu por instinto, então Ayn Rand está errada, e a proposição de que o meio básico de sobrevivência do homem é a razão também está errada. A sobrevivência de Sanichar significaria que o homem também sobrevive sem raciocínio.

A solução para o problema é que ele não estaria sobrevivendo qua homem. E acho que é isso o que realmente importa.

Voltando a Aristóteles, não há dúvida de que ele NÃO consideraria Sanichar um homem. Para Aristóteles, escravos, mulheres e crianças não eram homem como tal, mas seres inferiores. Homem, o animal racional de que ele fala é o cidadão das cidades-estados — e ninguém mais.

Claro, não seremos tão extremos, mas então sejamos práticos: Ayn Rand também não está falando sobre Sanichar.

Quando ela fala sobre sobrevivência, não é sobrevivência a qualquer custo; não é sobrevivência como um menino-lobo, e nem é sobrevivência como Diógenes, o cínico, também conhecido como “o cão”, vivendo em uma manilha e realizando as “funções naturais do corpo” em público. Um homem pode sobreviver como um cão, ou como um criminoso covarde que estupra, mata e se intoxica com drogas diariamente. Mas ele não seria homem, nem baseado nos padrões de Aristóteles, nem nos de Ayn Rand, nem nos meus. Ele não estaria sobrevivendo qua homem. Para fazer isso, ele precisa usar sua razão e agir de acordo.

Aqueles mais cientificamente inclinados talvez queiram se concentrar no que Ayn Rand diz sobre o homem não ter instinto, e trazer um monte de artigos científicos mostrando que ele sim os possui, mas isso não faria nenhuma diferença para o argumento aqui apresentado. Se ele tivesse instintos, ele poderia talvez sobreviver como um cachorro, farejando por comida. Mas isso seria, no máximo, homem qua cachorro. Qualquer instinto que o homem possa ter nunca o levaria a construir arranha-céus, a encontrar a cura para a tuberculose ou a filosofar. O homem faz tudo isso vivendo qua homem — usando sua razão como sua ferramenta básica de sobrevivência.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s