Ponto-a-Ponto

Postes na favela e na vida: Ponto-a-ponto.

Você tem que mostrar ímpeto. Mesmo que você vá ficar preso à frente. Mesmo que seja uma passagem só de ida. Somente desse jeito você honra os combatentes passados, dá o exemplo para os do presente, e inspira os do futuro. O ponto-a-ponto, mais do que uma técnica efetiva de progressão, é uma declaração de petulância: você não vai ficar parado — não interessa as circunstâncias. E, mais do que isso: você vai para a frente. Você não desborda. Você não regride para avançar. Você apenas vai. A reta é a menor distância entre dois pontos, não é? Pois, continue. De lanço e lanço, você traça uma reta e avança. De ponto a ponto. Há mais do que violência no combate. Há uma certa sabedoria. Mostre ímpeto e progrida para o seu objetivo. Até porque, se você se recolher nesse momento mais difícil — se você perder o ímpeto — aí você não irá mais.

Você está olhando a morte de perto, muito perto, e você está rindo dela. Quantas pessoas nessa hora te olham e pensam “Para que isso? Qual o objetivo?” Elas não sabem porque se deixaram parar, e o mundo parado atrás do poste é outro mundo completamente diferente daquele entre postes. Atrás do poste, você é um animal; seu instinto de sobrevivência o preserva, o faz voltar para casa , para sua mulher e filhos; lá você não mata, mas também não morre.

Se você for dos mais “corajosos” desse tipo, quando os tiros dão uma trégua, você coloca o seu fuzil pra jogo. Você não bota a cara. Aí seria demais. E para quê? O seu fuzil pode fazer o trabalho, mesmo que sem eira nem beira, sem direção ou rumo, sem destino certo. Mas dane-se, é so uma favela e ninguém que presta está acordado a essa hora no meio de um tiroteio desses, não é? Essa é a famosa “troca de tiro”. Dois grupos de covardes atirando a esmo, fazendo barulho para afugentar um ao outro, ambos querendo evitar o embate como vampiros fugindo da cruz.

Quando o silêncio finalmente chega como uma benção de um pai, a vergonha quase não é sentida de pronto. A adrenalina corre solta; o suor corre solto; isso tudo não pode ter sido à toa. Você sente que algo está errado mas ignora o sentimento. Ou tenta. À medida que vai se recompondo, a estranheza aumenta, dando lugar a olhares que tentam achar um culpado por aquela inatividade. Você e sua equipe não avançaram mais do que dois postes, e agora veem a rua inteira da favela, afunilando como um buraco negro em direção ao infinito — e lá próximo ao infinito vocês sabem que há oito homens. Mas é melhor esquecer isso. Afinal, eles são loucos e querem se matar. Isso não faz sentido e todos sabem. Você e os seus ignoram o olhar ressentido uns dos outros; vocês fingem para si próprios que se seu líder tivesse ido vocês teriam ido também.

Teriam, mas não foram.

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