O Combatente – #6

É por isso que ele odeia sair de casa tarde. São cinco da manhã e ele ainda nem chegou à Linha Vermelha. O fluxo de carros convergindo para o seu caminho significa tráfego pesado à frente. As lanternas vermelhas dos carros brilham como olhos de morcegos à noite, um milhão deles em procissão para alcançar seu mestre das trevas. Ele poderia verificar o aplicativo de mapa em seu celular, mas certas coisas é melhor não saber. Ele geralmente se sente bem em ter um horário incomum de trabalho. Isso o ajuda a fingir que não é um mero operário indo e vindo em sua labuta diária, como Sísifo carregando sua rocha para cima e para baixo da montanha. Seu horário geralmente evita o tráfego. Mas hoje — logo hoje — ele terá tempo para deixar de se sentir especial e se juntar ao bando.

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O Combatente – #5

Ele escuta muitas coisas interessantes, mas, fugazes, elas se vão quase tão rápido quanto chegam; só a morte permanece. Nem mesmo os motivos das mortes, os nomes das guerras ou as datas aproximadas ficam. Nada além do puro e grotesco fato de tantas mortes. Agora, enquanto ele olha para o passado do conforto do futuro, o tempo se comprime, a realidade perde importância, e o absurdo parece pouco mais do que meras palavras, palavras que nem mesmo mais usam tinta e papel.

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O.P.A.R. – Capítulo 8: Virtudes (Honestidade)

“A filosofia só pode nos dizer isso: a realidade é uma unidade; se afastar dela em um único ponto, portanto, é afastar-se dela em princípio e, assim, brincar com um pavio aceso. A bomba pode não explodir. O mentiroso pode anular o poder de seu inimigo: aquilo que é, e pode se safar com qualquer esquema; ele talvez vença a batalha. Mas se essas são as batalhas que ele está lutando, ele necessariamente terá que perder a guerra.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 271.
Mentir é declarar guerra à realidade.
(Uma demonstração de uma flame fougasse em algum lugar na Inglaterra, durante a Segunda Guerra Mundial.)

“Honestidade” é a recusa em fingir a realidade, ou seja, em fingir que os fatos são diferentes do que realmente são. Se racionalidade é o compromisso com a realidade, honestidade é a rejeição da irrealidade. O homem racional reconhece que a existência existe; o honesto, que apenas a existência existe.

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Universalia

Debate imaginário entre Averróis e Porfírio.
Eu poderia apostar que o assunto seria o problema dos universais.

Começando com Sócrates e especialmente Platão, o “problema dos universais” (chamado universalia pelos lógicos da Idade Média) tem atormentado a história do pensamento até hoje. Mas o que foi — ou melhor, o que é — exatamente esse problema? Existe realmente um problema? Eu coloquei essa ideia na minha cabeça de que eu preciso me dedicar a este problema, mas a verdade é que eu ainda não entendo completamente a sua importância. O que eu gostaria de ser capaz de fazer é convencer um completo leigo em filosofia de que ele deveria se interessar por esse problema. No momento, acho isso completamente impossível. Abaixo, reproduzo algumas definições do problema que encontrei online apenas para começar a pensar no assunto. O caminho à frente será árduo, então vou começar devagar.

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O.P.A.R. – Capítulo 8: Virtudes (Integridade)

“O poder do bem é enorme, mas depende da sua consistência. É por isso que o bem tem que ser uma questão de ‘tudo ou nada’, ‘preto ou branco’ e porque o mal tem que ser parcial, ocasional, ‘cinza’. Ser mau ‘só às vezes’ é ser mau. Ser bom é ser bom o tempo todo, ou seja, por uma questão de princípio consistente e inviolável.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 266.
Em outra vida, eu trabalhei com Lógica Nebulosa (ou “Fuzzy”), e eu costumava dizer que a “vida é nebulosa, mas eu sou booleano”, quando falávamos sobre integridade. É uma maneira difícil e nem sempre bem-sucedida de se viver, mas a única que me permite dormir à noite.
(Imagem por Kyle McDonald do Flickr / CC BY-NC-SA 2.0)

Integridade é lealdade em ação às convicções e valores de uma pessoa. Como Ayn ​​Rand colocou, o homem íntegro não pode “permitir nenhuma brecha entre corpo e mente, entre ação e pensamento, entre sua vida e suas convicções…” Mas para manter todos os seus juízos de valor à mão em meio à turbulência da vida cotidiana é uma tarefa volitiva. E uma muito difícil. Você precisa manter em foco o contexto completo de seu conhecimento, mantendo seus objetivos de longo prazo na frente de seus olhos o tempo todo. A única maneira de fazer isso é se você integrou seus conhecimentos e propósitos em princípios.

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O.P.A.R. – Capítulo 8: Virtudes (Independência)

“Nada é dado ao homem na Terra. Tudo o que ele precisa tem que ser produzido. E aqui o homem enfrenta sua alternativa básica: ele pode sobreviver em apenas uma de duas maneiras — pelo trabalho independente de sua própria mente ou como um parasita alimentado pelas mentes dos outros. O criador origina. O parasita pede emprestado. O criador enfrenta a natureza sozinho. O parasita enfrenta a natureza através de um intermediário. A preocupação do criador é a conquista da natureza. A preocupação do parasita é a conquista dos homens. O criador vive pelo seu trabalho. Ele não precisa de outros homens. Seu principal objetivo é interior a si mesmo. O parasita vive em segunda mão. Ele precisa de outros. Outros se tornam seu principal motivo. A necessidade básica do criador é a independência. A mente racional … exige total independência em função e em motivação. Para um criador, todas as relações com os homens são secundárias. A necessidade básica do que vive em segunda mão é assegurar seus laços com os homens para poder ser alimentado. Ele coloca as relações em primeiro lugar.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, páginas 251-252, citando “A Nascente” de Ayn Rand.
(O que mais eu tenho para dizer?)
Imagem por Nicooografie de Pixabay.

O objetivismo enxerga o homem virtuoso como aquele que segue a razão a todo custo. Dessa forma, sua virtude principal é a racionalidade, cujo corolário é a objetividade — a aderência à realidade através do reconhecimento de fatos. O homem racional move-se do campo perceptual de suas experiências do momento para o campo conceitual do conhecimento abstrato através do uso da lógica. As virtudes mostram-lhe sob a forma de princípios quais valores deve buscar, e como aplicar sua racionalidade às escolhas concretas do dia-a-dia. Leonard Peikoff expõe as virtudes do objetivismo na mesma ordem em que aparecem no discurso de John Galt, em “A Revolta de Atlas”; eu sigo uma ordem levemente diferente que considero um pouco mais lógica.

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A Estória da Civilização: Elementos Morais – Casamento

“O casamento era uma parceria lucrativa, não uma devassidão privada; era uma maneira pela qual um homem e uma mulher, trabalhando juntos, poderiam ser mais prósperos do que se cada um trabalhasse sozinho. Onde quer que, na história da civilização, a mulher tenha deixado de ser um bem econômico no casamento, o casamento decaiu; e às vezes a civilização decaiu com ele.”
Will Durant, “Nossa Herança Oriental”, página 44.
(Uma família composta pelo pai, a mãe e seus filhos: uma instituição rara hoje.)

RESUMO: A civilização precisa da moral e do casamento, uma instituição que percorreu um longo caminho desde a nacionalização das mulheres e a poligamia predominantemente motivada pela propriedade, até a atual moda da monogamia romântica.

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De Volta A Que Coisas Mesmas?

Por favor, olhe para o mundo!
(Gorilla Selfie, por Anthony Poynton)

Não vou fingir aqui que eu compreendo plenamente o existencialismo, a fenomenologia ou o tomismo — eu sou apenas um estudante tentando subir os primeiros degraus de uma longa escada. Mas a ignorância funciona bem como um primeiro filtro. A faca intelectual cega, que é tudo que eu tenho com que trabalhar por enquanto, impede uma elaboração complexa de pensamento que possa justificar todos os tipos de absurdos. Então, é navegando (ou me afogando) em meio a essa ignorância que faço essa pergunta: Por que as filosofias mais subjetivas tentam se disfarçar como objetivas? Elas não olham para o mundo; elas olham para elas mesmas.

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Maritain, o Objetivista

“Eu não sou um neo-tomista. No geral, eu prefiriria ser um paleo-tomista do que um neo-tomista. Eu sou, ou pelo menos eu espero que seja, um tomista.”
Jacques Maritain, “Existência e o Existente”, Introdução.
(A Tentação de Sto. Tomás de Aquino, por Bernardo Daddi, 1338.)

Claro que Jacques Maritain não era um objetivista; ele era um tomista. E ser tomista, aprendi, é participar pelo menos do primeiro (e, possivelmente, do mais importante) axioma do objetivismo: “Existência existe”. Isso facilita muito minha vida, agora que decidi apresentar um trabalho inexistente sobre ele em uma conferência no futuro próximo.

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