A Antítese do Combate: “É Meu”

“É meu”.
(por elijah)

As “crianças” do outro lado do vale teriam ficado muito surpresas, mas acolhedoras. Décadas teriam se passado sem ninguém para se observar, conversar ou brincar. Elas ficariam felizes em dar chocolate às crianças da pradaria e deixá-las brincar com seus brinquedos. Elas também teriam ouvido falar sobre os diferentes tipos de brinquedos que as crianças de baixo teriam, e ficariam mais do que felizes em provar a carne que elas teriam trazido. O vale onde viviam era muito estreito para permitir a criação de gado e tudo o que tinham eram cabras e galinhas. Só então eles perceberiam como estavam fartos de carne de cabra. Eles se proporiam a fornecer mais chocolate se os garotos da pradaria lhes trouxessem mais carne, e um acordo seria feito alegremente. Mas algo estranho aconteceria quando as crianças da pradaria pedissem por brinquedos em troca de ainda mais carne. As crianças da montanha não iriam aceitar trocar seus brinquedos.

Na verdade, elas ofereceriam mais chocolate em troca dos brinquedos das crianças da pradaria. Todas elas estariam entediadas com seus respectivos brinquedos, com os quais teriam brincado por anos, mas aqueles brinquedos eram seus brinquedos. Brinquedos não nascem de outros brinquedos ou crescem nos campos ou nas árvores. Se elas abdicassem de seus brinquedos, todos saberiam que eles estariam perdidos para sempre.

As crianças da pradaria sairiam para sua terra natal cheias de chocolate, mas sem brinquedos. Em casa, as outras crianças que teriam ficado para trás ficariam muito excitadas, mas também invejosas. Não haveria chocolate suficiente para todos. E quanto àqueles brinquedos novos? Elas deveriam vê-los. Outra expedição seria organizada e depois outra. E outra. As crianças sempre levariam muita carne consigo e retornariam com muito chocolate. Mas elas nunca levariam seus brinquedos, que eram agora essenciais. Antes, elas nunca teriam percebido como esses brinquedos eram essenciais, mas agora não poderiam evitar a sensação de que eles eram de fato! Elas não seriam capazes de explicá-lo, mas, por alguma razão, mesmo que não sentissem vontade de brincar com seus próprios brinquedos, elas nunca os abandonariam. Especialmente, não para aquelas crianças egoístas com todos aqueles brinquedos legais que não queriam compartilhar.

Depois de algum tempo, as crianças da pradaria aprenderiam a fazer chocolate e estabeleceriam um esquema de comércio em que receberiam cacau em troca de gado. Elas também obteriam mudas de cacau e construiriam estufas onde poderiam cultivá-las. Logo, elas aprenderiam como fazer aqueles grandes ovos de chocolate, e os sonhos parariam. As crianças da montanha, por sua vez, criariam gado em grandes cercados nas encostas mais baixas do vale e comeriam toda a carne que pudessem comer.

Mas nenhum brinquedo trocaria de mãos — eles eram a propriedade delas.

E quando tanto o chocolate quanto a carne de vaca se tornassem triviais, quando não houvesse mais necessidade de comércio, quando a vida se tornasse ainda melhor do que antes, e mais estável, elas voltariam sua atenção mais uma vez para os brinquedos que não teriam.

E logo haveria guerra.

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