A Antítese do Combate: Chamado da Montanha

O chamado das Montanhas.
(“Crianças da base das montanhas”, por Doug Zwick / CC BY-NC 2.0)

Deixe-me agora aprofundar minhas suposições fantásticas e estabelecer que essas crianças nunca envelheceriam. Bem, elas acabariam alcançando sessenta, setenta ou até noventa anos de idade e depois morreriam como nós, mas seus corpos permaneceriam os mesmos por toda a vida. Isso significa que mulheres nunca existiriam, apenas garotinhas que não provocariam nem sentiriam nenhum apelo sexual. Meninos e meninas sempre cuidariam de suas tarefas e brincariam com seus brinquedos. Isso não quer dizer que eles não se tornariam maduros — sim, eles amadureceriam. Mas o prazer deles nunca deixaria aquele ludismo inocente da infância para a luxúria superficial de uma caçada alcoólica pelos prazeres da carne. Seus vícios seriam outros.

Durante a “Grande Migração”, a integração das crianças da cidade na vida de seus colegas rurais não teria sido baseada em qualquer tipo de relação comercial. O excedente de alimentos no campo e sua essencialidade para a vida, em contraste com os brinquedos da cidade (muito importantes mas não tão essenciais), poderia facilmente ter gerado uma relação comercial, mas isso não acontecera. Poderia ter se formado uma sociedade baseada em castas onde os poucos donos da comida teriam dominado os muitos com brinquedos, que em breve perderiam seus brinquedos ou morreriam de fome. Mas eles eram crianças e até as crianças sabem que todo mundo precisa de comida para viver. E eles já haveriam tido morte suficiente. Além disso, quem iria querer brincar sozinho? Todos eles teriam ficado felizes o suficiente para conhecer outras crianças, longe das cidades infestadas onde os corpos de seus pais estariam. Sim, haveria disputas entre as crianças, como sempre houve, mas elas teriam desaparecido tão rapidamente quanto surgiram, e nenhuma mágoa ou ressentimento teria permanecido.

Ainda assim o tempo passaria.

Em algum lugar desse mundo sem adultos, acabaria se espalhando de boca em boca a estória de que uma pequena comunidade do outro lado do colo da montanha tinha brinquedos diferentes dos das crianças que viviam nas pradarias abaixo. Também seria dito que esses garotos da montanha tinham de alguma forma adquirido o ofício quase mágico da fabricação de chocolate. Naturalmente, o fato de o cacau crescer nas florestas chuvosas de seu vale teria ajudado bastante; infelizmente, ele não crescia nas gramas infrutíferas da enorme pastagem das crianças da pradaria. Mas eles poderiam ir fazer uma visita a essas outras crianças das alturas, não poderiam? Eles estariam curiosos e entediados com os mesmos brinquedos de sempre. E eles não poderiam evitar aqueles sonhos recorrentes. Repetidamente, por volta de março e abril, eles sonhariam com enormes ovos de chocolate com balas dentro, e com belos sorrisos que eles acreditariam terem vindo de seus pais. Que mal poderia causar uma pequena visita às montanhas?

(Continua…)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s