A Antítese do Combate

Crianças.
(por skeeze / CC0 1.0)

Imagine um cenário fantástico semelhante ao mostrado no filme “Filhos da Esperança“: os efeitos devastadores do nosso desleixo para com o mundo acabaram fazendo com que as mulheres não fossem mais capazes de engravidar; a raça humana está em contagem regressiva para a extinção. No meu cenário, o problema é ainda pior — todos, menos as crianças, morrem de repente.

No início, as crianças chorariam a perda de seus pais e seriam invadidas por um sentimento de solidão a ponto de ficarem paralisadas de medo. O mundo estava silencioso, pacífico, deprimente. Mas em breve, elas ficariam com muita fome para ficarem paradas. Elas teriam que se levantar e se alimentar.

Elas primeiro consumiriam os recursos já à sua disposição. Aquelas crianças que viviam no campo e, portanto, sabiam muito melhor como lidar com a natureza, rapidamente começariam a cultivar e criar gado como seus pais faziam. A vida complexa das cidades, no entanto, seria impossível de ser mantida pelas crianças da cidade, e todos os serviços essenciais (e não essenciais, aliás) estagnariam. Sem ninguém para manter a indústria funcionando, não haveria mais eletricidade e, eventualmente, não haveria mais combustível. Mesmo antes de todos os fósforos e isqueiros serem usados, os garotos mais brilhantes encontrariam uma maneira de designar outros para manter um fogo perene, mas, mesmo assim, a comida na cidade logo acabaria, assim como tudo que se pudesse queimar.

Esta raça mais fraca de crianças da cidade acabaria por migrar para o campo, onde eles sabiam que haveria lenha e, eles tinham esperança, comida. E eles levariam consigo seus brinquedos, a única fonte de alegria em uma época em que o sexo ainda era algo que apenas os adultos faziam (ou fariam, se ao menos estivessem vivos) e que não os interessava em nada.

Assim que chegassem às fazendas e assentamentos da zona rural, seriam recebidos pelas crianças do campo. Estas haviam sempre se sentido bastante sozinhas — e até um pouco desmerecidas — vivendo tão afastadas da colorida vida de alta tecnologia das grandes cidades. Elas ficariam felizes por desfrutar da companhia de seus novos amigos, com sua maneira sofisticada de falar e, é claro, com todos aqueles brinquedos extravagantes. A vida alcançaria um novo equilíbrio, um equilíbrio abençoado. A essência da vida — abrigo, comida, água e diversão — estaria garantida. Logo, as lembranças de seus pais desapareceriam em um morno sentimento de uma era distante, quase como um sonho aconchegante em uma tarde de verão. Vilas felizes como os primeiros kibutzim judeus se espalhariam por toda a terra e, assim como neles, a dança e a música continuariam mesmo sob uma chuva de artilharia inimiga. Mas não haveria inimigos desta vez. A inocência das crianças dominaria a vida — uma utopia temperada pela capacidade natural de sobrevivência da humanidade. Eles estariam vivendo a antítese do combate.

(Continua…)

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