Caminhos Divinos

Santo Agostinho”, por Peter Paul Rubens (1577-1640).

Agostinho de Hipona (354 – 430), o Santo Agostinho, era originário da província romana do norte da África chamada Numídia, hoje parte da Argélia. Cerca de quarenta anos antes de seu nascimento, em 313, Constantino legalizava o cristianismo; cerca de quarenta anos depois de sua morte, em 476, o Império Romano Ocidental chegava ao fim.

Agostinho foi talvez o mais importante “Pai da Igreja”, no período Patrístico, dando um matiz platônico ao cristianismo até o ressurgimento da influência de Aristóteles no século XII com a Escolástica. Ele foi um expoente da doutrina do pecado original, da trindade, e da predestinação, entre outras. Seus dois trabalhos mais influentes foram as “Confissões” e “ A Cidade de Deus” (De Civitate Dei). Com o primeiro, ele inaugurou um novo estilo literário — o lirismo, baseado na subjetividade do autor; com o segundo, ele materializou a concepção cristã de história.

Nas “Confissões”, Agostinho faz um registro autobiográfico mostrando não um passado de um homem santo, mas o de um pecador, e seu caminho em direção à iluminação divina. O título de seu livro refere-se tanto às confissões de seus variados pecados, como também ao louvor a Deus por ter lhe concedido a conversão. Seus pecados não chegam nem perto dos de qualquer pessoa normal do século XXI, mas, mesmo assim, dentre eles está sua ligação ao maniqueísmo e à astrologia, sua atração pelos prazeres da carne, e, até mesmo, o furto de peras. Nesse último caso, Agostinho relata o prazer de fazer o errado simplesmente por ser errado, aos seus 16 anos:

“Tiramos uma enorme quantidade de peras, não para comê-las, mas simplesmente para atirá-las aos porcos. Talvez tenhamos comido algumas delas, mas nosso verdadeiro prazer consistia em fazer algo que era proibido”.

Independentemente de se acreditar em Deus ou não, de ser cristão ou não, as “Confissões” é um texto belíssimo e poderoso, o qual deveria ser lido por qualquer um que se preocupe com seu próprio caráter ou com a diferença entre o certo e o errado. Eu, com certeza, vou querer que minha filha o leia cedo na vida.

A “Cidade de Deus”, por sua vez, foi escrita para refutar a tese de que fora o Cristianismo o causador da ruína de Roma. Roma oficialmente cai em 476, mas já estava em franca decadência há várias décadas. Agostinho passa os primeiros dez livros de sua obra dedicando-se a essa refutação, para só então começar a descrever as “duas cidades” e avançar sua doutrina. Ele basicamente cria uma versão religiosa da República de Platão, onde ao invés dos filósofos a governarem, são os santos que detém o poder. Esse aspecto de sua obra teria um ápice de influência negativa em Bonifácio VIII, no século XIV, cuja sede por poder, julgando ser dever do papa governar sobre tudo e todos, acabou contribuindo sobremaneira para o Grande Cisma do Ocidente (não foi à toa que Dante o colocou no Oitavo Círculo do Inferno).

Segundo Agostinho, a história do mundo é a história de uma guerra universal entre Deus e o Diabo, entre a Cidade de Deus e a Cidade Terrena. Com suas detalhadas interpretações da Bíblia e suas descrições do progresso das duas cidades desde Abraão até seus destinos em eternas felicidade ou danação, Santo Agostinho inadvertidamente inaugura a noção de história — os fatos históricos não podem mais ser tratados como meros relatos, mas seus sentidos ocultos devem ser interpretados. Tudo segue um caminho para um fim dado pela Providência Divina.

Essa noção de história, que hoje tomamos como corriqueira, foi uma grande inovação em relação aos gregos ou ao oriente, os quais julgavam o universo como eterno, sem começo ou fim. Agora, o relato bíblico da criação do mundo fora formalizado em uma exegese detalhada. A história, como ciência, só vai existir oficialmente no século XVIII com a “Scienza Nuova” de Vico, mas na mente dos homens ela começa com a “Cidade de Deus”.

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