O Combatente – #1

Quando o alarme dispara às duas da manhã, ele tem certeza de que ainda está sonhando. Ele apenas fechou os olhos, então não pode ser hora de acordar. Mas é. O problema é que depois de vinte horas trabalhando duro para proteger as famílias dos outros, tentando ganhar no setor privado o dinheiro que a polícia é que deveria fornecer, essas três horas de sono parecem passar como um relance, um breve interlúdio de vida tão profundo quanto a própria morte.

Ele sabe que sua esposa ao lado está acordada, e ele também sabe que ela vai continuar a “dormir”, porque essa foi a única maneira que ela encontrou para não pedir para ele ficar. Ele a beija suavemente e entra em uma ducha congelante.

Mesmo sendo o Brasil, o inverno é real nas montanhas onde ele mora, a água àquela hora sua manifestação mais contundente. É sempre bom sofrer um pouco pela manhã, ele tenta se convencer enquanto hesita, vendo a água cair. A vida confortável que os homens levam os torna fracos. Ele sempre admirou o nível de rusticidade que ele alcançava em cursos de operações especiais. Dormir dia após dia ao ar livre, como um mendigo em um papelão, eternamente sujo, cansado e faminto, mas com seu fuzil em perfeitas condições; ele gostava da lição embutida naquilo. Quando ele entra no chuveiro, ele se força a não mostrar qualquer reação enquanto a água parece perfurar seu crânio. Em pouco tempo ele se envergonha de sua hesitação anterior, e logo depois sente uma ponta de orgulho. Não é preciso muito para começar bem um dia.

Quando ele desce as escadas para ir embora, ele sente o cheiro do café; cafeteiras programáveis ​​são a oitava maravilha do mundo. Mesmo determinado a ir direto para a cozinha e de lá para o seu carro, ele não consegue resistir e pára em frente à porta entreaberta do quarto de sua filha.

É sempre a mesma dicotomia. Ele não consegue decidir se entra para capturar aquela imagem em sua mente, caso precise dela mais tarde, ou se a evita completamente. Tudo perde seu significado quando significa colocar a vida dela em risco. Racionalmente, ele sabe que não vai melhorar o mundo com suas ações, e também sabe que pode destruir o dela. Ao mesmo tempo, ainda mais racionalmente, ele sabe que isso tem que ser feito, que ele é quem deve fazê-lo, e que este é o exemplo e a educação mais fundamental que sua filha deve receber: que a vida é um combate, e que todos que tentam negociá-la devem ser combatentes. Ele sabe que o campo de batalha de sua filha será diferente, mas que ela ao menos veja a vida de seu pai como uma metáfora, algo que representa em cores vivas a atitude que ela deve ter no futuro.

Ainda na porta, ele se lembra de homens morrendo enquanto flutuam em um mar paradisíaco, agarrados a destroços sob um sol crepitante, enquanto são arrastados um por um para as profundezas por tubarões famintos, ou deixados lá, desmembrados e sangrando até a morte. Ele se lembra de homens parecidos com zumbis em campos de concentração nazistas, trocando cigarros por mais alguns dias de vida na forma de um pedaço de pão ou uma porção de sopa, enquanto em torno deles seus pares morrem às centenas. Ele lembra de ter lido, pasmo, sobre quantos desses homens simplesmente perdiam a vontade de viver. Náufragos de navios de guerra torpedeados acabavam simplesmente se deixando afundar, exaustos pela provação de dias sob o sol. Prisioneiros dos campos nazistas um dia simplesmente sentavam em um canto, se recostavam na parede e fumavam seus preciosos cigarros, um sinal claro de sua renúncia à vida — geralmente, eles morriam no dia seguinte.

Aqueles homens não tinham uma razão forte o suficiente para continuarem vivos.

Ele decide entrar no quarto.

(Continua…)

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