Lembrar De Tudo

Lembrar de tudo.
(“Giordano Bruno”, um dos pais da Arte da Memória, por Matteo Mignani / CC BY 2.0)

Uma vez eu brinquei com a ideia de que eu não apenas leria os Grandes Livros do Mundo Ocidental, mas memorizaria tudo. Claro, eu estava me entregando a sonhos impossíveis, mas isso me levou a um universo inteiro de pensamento (literalmente) que eu nunca sonhara existir: a Arte da Memória.

Os Grandes Livros não se destinam apenas a ser consultados ou procurados quando em dúvida ou em falta de conselhos. Eles também não são feitos para serem memorizados de forma mecânica, ou regurgitados como conversas cultas em uma festa. Muito menos eles existem apenas para serem apreciados por filósofos ou estudiosos em geral.

Eles existem para fazer parte da própria estrutura dos homens, para ser a matéria-prima sobre a qual construiremos soluções inovadoras para novos problemas, e, talvez mais importante, soluções de senso comum para os problemas do dia-a-dia. Porque os problemas cotidianos podem ser totalmente desastrosos para a vida dos homens, e senso comum é muito mais difícil de possuir do que o nome sugere. Esses livros são os que devem ser “mastigados e digeridos”, como Francis Bacon falou, e como tais devem fazer parte de nossos próprios seres, tanto quanto nossas mãos, nosso coração e nossos pensamentos são. Eles são feitos para ser os blocos construtivos daquela fortaleza que sempre nos protegerá — aquela qualidade esquiva e rara chamada caráter.

Minha solução fantástica foi lembrar de tudo.

A Arte da Memória, também conhecida como mnemônica ou mnemotécnica, é hoje utilizada precipuamente em campeonatos de memória onde os “atletas mentais” chegam a feitos simplesmente absurdos, como memorizar um baralho em 14 segundos (número e naipe) ou mais de 3000 dígitos em uma hora. Mas “a Arte”, como eu gosto de chamar, raramente é utilizada para lembrar o que realmente interessa: conhecimento. Foi com essa esperança que eu embarquei em uma grande jornada, mas que (por minha culpa) rendeu menos frutos do que eu esperava.

A Arte da Memória supostamente começou com o poeta grego Simonides de Ceos (556 – 468 a.c.). De acordo com a lenda, ele estava realizando um recital em um grande banquete, quando de repente ele foi convocado para ir para fora encontrar alguém. Logo depois que ele saiu, todo o salão desmoronou, esmagando e desfigurando os convidados além do reconhecimento. Mas Simonides, provavelmente para seu próprio espanto, conseguiu se lembrar de onde cada hóspede estava sentado à grande mesa, os quais, graças a ele, puderam ser devidamente enterrados. Sua façanha motivou a ideia de que para melhor memorizar algo, devem-se conjurar imagens e colocá-las mentalmente em locais espaciais reais. Assim, a Arte nasceu.

Esta é uma boa história, seja verdadeira ou não. Mas o que realmente importa é que essas técnicas funcionam, tendo sido elaboradas, analisadas e promovidas ao longo dos milênios por grandes expoentes como Cícero, Aristóteles, São Tomás de Aquino, Giordano Bruno, Gottfried Leibniz, Francis Bacon e Descartes. Começando com seu papel mais pragmático ao salvar vidas — mesmo que lendárias — e evoluindo para técnicas detalhadas de lembrança e aprendizado, a Arte da Memória há muito tempo atingiu seu status de verdadeira arte. E, como tal, tem sido primordial na promoção do caráter dos homens.

Na sociedade atual de memórias digitais externas, onde o que as pessoas pensam de você é muito mais importante do que o que você realmente é, tanto a arte quanto a evolução do caráter são ambições esquecidas pelo homem. No entanto, não consigo imaginar um momento em que ambas sejam mais necessárias.

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