História da Filosofia – Aula 7: O Ceticismo dos Sofistas

“Górgias, que foi o exemplo perfeito de um cético do século XX transplantado para a Grécia antiga […] manteve três proposições básicas: um, nada existe; dois, se alguma coisa existisse, você não poderia saber; três, se você pudesse saber, você não poderia se comunicar. Agora, isso é o que se chama de ceticismo.”
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 7.
(Eu não gosto de arte moderna. Mas se procurarmos bem, talvez tenha algo para se aprender com ela. A escultura de aço “Protágoras”, de Charles Ginnever, bem poderia ser considerada a concretização de uma ideia filosófica. A escultura muda de forma à medida que os espectadores se movem em torno dela, o jogo de luz e sombra em suas formas triangulares dando vida à estrutura massiva. “Os sentidos enganam”, eu diria que é a mensagem. Mas, agora, tente imaginar alguém saltando dessa ideia malformada (porque não são os sentidos que estão errados, mas os conceitos que geramos a partir deles) para a conclusão de que nada existe. Talvez alguns dos juízes federais que trabalham no Edifício Burger, em St. Paul, Minnesota, onde “Protágoras” está instalada, gostariam que ela desaparecesse. Mas afirmar que ela nunca existiu seria um pouco forçado. No entanto, é exatamente isso que sofistas como Protágoras e Górgias faziam.)

Os sofistas foram tachados ao longo da história como professores gananciosos e imorais, mas isso é polêmica para um curso de história, ou um sobre Platão e sua obsessão por eles. Leonard Peikoff se concentra, em vez disso, nas ideias que eles apresentam — mesmo que sua ideia principal seja a negação de todas as ideias.

Os sofistas foram os primeiros céticos declarados na história, considerando-se ceticismo a posição filosófica de que nenhum conhecimento objetivo ou certo é possível. Eles embasaram suas alegações com muitos argumentos, alguns fracos como o dos sonhos ou o das alucinações, outros mais fortes. O mais forte de todos e influente até os nossos tempos é pouco mais que um resultado natural de toda filosofia pré-socrática desde depois de Tales: Se não podemos confiar em nossos sentidos, então não temos acesso à verdadeira realidade.

A ideia central é que o que percebemos depende do objeto sendo percebido (obviamente), mas também depende da natureza e condição do aparato sensorial gerando a percepção. Embora seja verdade que nossas percepções são realmente afetadas por nossos órgãos sensoriais (um daltônico não verá o vermelho, não importa o que aconteça), os sofistas se desviarão dessa premissa correta e concluirão erradamente que nada pode ser conhecido. Como as percepções variam de pessoa para pessoa, ninguém pode perceber a realidade como ela é; nós só percebemos as aparências da realidade. Estamos trancados em nossas próprias mentes, percebendo nossas percepções.

É difícil enfatizar o quão influente essa ideia tem sido até hoje — e quão prejudicial para a história do pensamento — mas confio que até o final desta longa série de posts sobre a história da filosofia isso ficará mais claro. Esta é uma das ideias mais pervasivas e perversas já expostas.

Uma conseqüência lógica da invalidade dos sentidos é que a razão também é inválida. Os sofistas assumiram corretamente que a razão depende da evidência dos sentidos, mas se essa evidência varia para cada um de nós, a razão não pode fazer muito. “Entra lixo, sai lixo”. Além disso, eles diziam, ninguém pode sequer concordar sobre o que é racional, então como pretender que a razão alcance alguma verdade?

Protágoras é conhecido como o “chefe dos sofistas”. Sua famosa afirmação: “O homem é a medida de todas as coisas”, como interpretado hoje — “Cada homem é a medida de todas as coisas” — é o lema do subjetivismo e do relativismo. Ele é o ídolo não reconhecido da geração atual, que vive pelo credo de que não existe a verdade, e, sim, a verdade para você ou a verdade para mim. Cada um com a sua.

Os sofistas, é claro, não eram teístas nem ateus. Isso exigiria que eles adotassem uma postura, o que, por sua vez, significaria que eles poderiam saber alguma coisa. Assim, eles eram agnósticos. Sua ética, portanto, não poderia vir de Deus. Nem poderia vir da realidade, já que os sentidos são inválidos. Sua solução foi lógica: não há ética objetiva, apenas convenção social. Se você acha que um determinado caminho é bom ou certo, vá em frente. Todos os desejos são eticamente iguais, porque não há nada a seguir, exceto desejos arbitrários e paixões. “Viva seus desejos.” “Expresse suas paixões” e você alcançará a moralidade. Mas, se você não se sentir confiante o suficiente para fazer isso, basta seguir os costumes da sociedade — a maioria sempre sabe melhor. Ou, ainda, siga seus deuses se você assim acredita — a religião é melhor que a anarquia. Em todo caso, o ceticismo equivale à primazia da consciência, que, por sua vez, equivale ao subjetivismo e à negação da realidade.

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