O.P.A.R. – Comentário: A Postura de Voltaire

“O agnóstico trata alegações arbitrárias como assuntos propriamente abertos à consideração, discussão, avaliação. Ele permite que seja “possível” que essas afirmações sejam “verdadeiras”, aplicando, assim, descrições cognitivas a um palavreado que está em guerra com a cognição. Ele exige provas de um negativo: cabe a você, declara ele, mostrar que não há demônios, ou que sua vida sexual não é resultado de sua encarnação anterior como um faraó do antigo Egito.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 170.
(Pode haver alienígenas no lado escuro da lua. Quem sabe? Alegações desprovidas de qualquer evidência devem ser desconsideradas. Não importa o que você sente sobre isso. Tome sua posição com base em sua avaliação da realidade e diga o que você sabe. Você sabe que não há civilização alienígena no lado escuro da lua, não sabe? Ou você vai me dizer que é agnóstico em relação a isso também?)

“Yo no creo en brujas, pero que las hai, las hai”. Isso resume o credo do agnóstico. Isso não é atitude alguma. Isso é ficar em cima do muro. É renunciar à responsabilidade de julgar, de escolher seu caminho, de construir e depois postar-se atrás de suas próprias convicções. Em uma palavra, é evasão. Eu costumava dizer que era agnóstico. Não. Posicione-se. Tenha a coragem de dizer. Seja ousado por uma vez. Eu não sou mais agnóstico. Eu sou ateu.

Agnosticismo significa não rejeitar como falso o que você não pode provar ser falso. Parece razoável. É como o ônus da prova em um tribunal: se você não pode provar que o cara é um criminoso, ele provavelmente é inocente. Se eu não posso provar que Deus não existe, talvez Ele exista. E, é claro, é muito mais fácil se arrepender depois de uma vida reivindicando ignorância do que afirmando que Deus é uma invenção da imaginação do homem motivada por sua fraqueza inerente.

Lembro-me de ler um dos meus livros “formativos”, “Trindade”, de Leon Uris. O pano de fundo é o conflito entre o IRA e a ocupação britânica da Irlanda, mas, como esperado, é muito sobre religião também. Além da estranha admoestação de meu pai ao me entregar o livro, “A Irlanda é o berço da violência”, lembro-me pouco dele. Mas uma coisa se fixou na minha cabeça: a maneira como o homem enfraquece com a idade. O livro começa e termina com um velho se arrependendo em seu leito de morte: primeiro, o pai do protagonista e, depois, o próprio protagonista, que sempre vilipendiou seu pai por sua fraqueza.

Se não podemos realmente saber (porque, claro, não podemos), por que deveríamos tomar uma posição tão radical e negar a Deus? Muito melhor seria simplesmente dizer que não sabemos. No mínimo, nos proveria um caso melhor em nosso leito de morte. Leonard Peikoff me ensinou o contrário no Capítulo 5 de OPAR. E isso me mudou para sempre. Minha esposa lamenta esse fato, no entanto. Ela queria batizar nossa filha. Eu disse “não”.

O agnosticismo não é simplesmente alegar ignorância. É tacitamente aceitar que o arbitrário merece o mesmo respeito cognitivo que o logicamente suportado. É aceitar tacitamente o ônus da prova de uma negação. Mas o máximo que podemos fazer quando tentamos provar negações é recair em uma espécie de dúvida cartesiana que não nos leva a lugar algum a não ser aceitar o que já estamos inclinados a aceitar de qualquer maneira. Para Descartes, era Deus; para o agnóstico, é sua “atitude” covarde de não dispensar alegações arbitrárias, alegações que não se baseiam em nenhuma evidência. Tal atitude, diz Peikoff, “é incomparavelmente mais destrutiva do que qualquer erro cometido por um homem comprometido com a razão, que toma posições definidas com base em argumentos equivocados”. E há essa palavra “tacitamente” que eu usei. Um homem nunca deve fazer proposições tácitas. Eu errei muito na vida, mas se há uma coisa que me deixa orgulhoso dos meus erros é que errei agindo, não sentando em cima do muro.

Se eu tiver a chance de ter um leito de morte (o que, de acordo com meu estilo de vida, é altamente improvável), espero não me arrepender. Mas, mesmo que o faça, ainda tenho um último recurso à racionalidade. Em seu leito de morte, diz-se que Voltaire foi visitado por um padre que o exortou a renunciar ao diabo. Voltaire considerou, mas preferiu não fazê-lo. Difícil negar seu raciocínio.

“Este não é o momento”, disse ele, “de estar fazendo novos inimigos”.

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