Preso ao Lenho

O “Escudo da Trindade” ou Scutum Fidei (latim para “escudo da fé”).

Clemente  (150 – 215 ) e Orígenes (184 – 253) foram os grandes expoentes da Escola Catequética de Alexandria, os “Pais da Igreja” que iniciaram o período Patrístico e foram enormemente influentes na formação da doutrina cristã e na tentativa de síntese com a filosofia greco-romana.

Clemente de Alexandria foi um teólogo grego que escreveu três obras muito importantes: “Protréptico”, “Pedagogo”, e “Tapeçaria”.

O “Protréptico” é uma exortação aos pagãos para que adotem a fé cristã. Nele, ele tenta achar pontos em comum entre a filosofia pagã (com seus mitos) e a Bíblia, exaltando a fé quase como uma consequência lógica da razão. Por exemplo, ele faz repetidas alusões à Odisseia de Homero, e equipara Jesus ao Logos:

“Impele o navio para além desse canto, que gera a morte. Basta desejares e vencerás a ameaça que paira sobre ti. Preso ao lenho, estarás livre da corrupção; o Logos de Deus será teu piloto…”

“Preso ao lenho” faz alusão a Odisseu amarrado ao mastro de seu barco para fugir da tentação das sereias, assim como o cristão deve se “prender” à cruz. Clemente também apela para que os mistérios embrenhados na religião grega sejam substituídos pelos mistérios cristãos — a palavra “mistério” sendo aqui interpretada como rito ou sacramento, aquilo que põe o homem em contato com Deus:

“Vem, pois, ó insensato, e não mais com o torso na mão, nem coroado de hera! Larga tua mitra, deixa tua pele de cabra e retoma a razão! Eu te mostrarei o Logos e os mistérios do Logos, valendo-me de tuas próprias imagens.”

Aqui, Clemente faz clara menção ao culto de Baco, e é explícito quanto ao seu objetivo de substituir os ritos. Interessante notar como um texto religioso clama por razão.

No seu texto “Pedagogo”, Jesus é a incarnação do Logos, o professor que ensina suas crianças, o pedagogo a mostrar o caminho certo à humanidade.

Sua obra “Tapeçarias”, como o nome sugere, é como uma colcha de retalhos, um conjunto de textos variados. Mas apesar de sua pouca sistematização, é nesse trabalho que Clemente expõe sua tese principal de que assim como Deus preparou o povo judeu com as leis mosaicas e os profetas, Deus preparou os pagãos com a filosofia — como uma propedêutica para a religião. A razão, assim, prepara o homem para a fé.

Seu maior discípulo, Orígenes de Alexandria, também grego, pode ser considerado um dos grandes gênios do período Patrístico. Orígenes, supostamente, escreveu mais de 6,000 trabalhos.

Em um dos seus livros mais famosos, “Contra Celso”, ele cria uma polêmica em resposta a um filósofo pagão meso-platônico manifestamente contrário ao cristianismo. Ele refuta, entre outras coisas, a afirmação de que a doutrina moral cristã não seria uma ciência respeitável, mas sim uma fé desprovida de razão. Deus, segundo Orígenes, seria exatamente a ponte que conecta a ciência grega e a fé cristã.

Em outro importante livro, “Sobre os Princípios”, um texto bem mais filosófico onde trata dos princípios primeiros da filosofia cristã, Orígenes faz a primeira exposição sistemática da teologia cristã, desenvolvendo dentre outros o conceito de Trindade, e defendendo a incorporação nela do Espírito Santo.

A partir de seus esforços de interpretação da Bíblia (tendo traduzido o texto original em hebraico em outras cinco versões em grego, dispostas em colunas lado-a-lado em uma mesma edição), pode se dizer que ele é o pai da ciência da hermenêutica bíblica. Tal abordagem é sumarizada no ditame medieval:

“A letra ensina os fatos,

O que crer, a alegoria,

A moral, o que fazer,

Para onde ir, a anagogia.”[1]

Essa citação demonstra os quatro níveis de interpretação do texto bíblico: literal, alegórico, moral, e anagógico (A interpretação anagógica pode ser entendida como tentar responder “A que nível de ascensão espiritual o texto, entendido como rito, pode nos levar?”).

Eu posso aceitar que razão e fé coexistam, porque a razão não explica tudo ainda e, provavelmente, nunca explicará. Mas eu nunca vou aceitar que a razão leve à fé, como tentam Clemente e Orígenes. No entanto, ao ler os seus textos, é quase impossível não acreditar que a fé tenha levado esses homens à razão.

 


Notas

1. “Littera gesta docet / Quid credas allegoria / Moralis quid agas / Quo tendas anagogia.”

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