A Síntese Impossível

Altar dos Pais da Igreja”, por Michael Pacher (c. 1483).

Bertrand Russell, em sua “História da Filosofia Ocidental”, introduz a segunda parte do livro dizendo que a Idade Média é a história do “crescimento e decadência” da síntese católica. Ele acha tão claro o que está sendo sintetizado que esquece de dizer o que é. Mas agora, enquanto releio certas porções do livro, sei que a síntese almejada foi entre e razão. Meu professor de História da Filosofia Medieval acha que ela foi bem-sucedida. Eu, da minha parte, não sei de onde ele tirou essa ideia.

A Era Apostólica (desde a ressurreição de Cristo, no ano 33, até a morte do último apóstolo, João, no ano 100) trouxe para o mundo o Novo Testamento e, com ele, uma “nova” fé. O sucesso e a rápida difusão da fé cristã, por sua vez, geraram um problema. O período helenístico havia espalhado a cultura grega por toda parte e Roma a havia absorvido ao máximo, então qualquer nova religião / filosofia teria que se defender dos ataques da filosofia greco-romana dominante. “Se não pode vencer o inimigo, junte-se a ele”. A solução cristã foi mesclar dogmas religiosos e princípios filosóficos.

Como isso poderia ser possível? A meu ver, fé é a antítese da razão. A razão é a faculdade que converte percepções do mundo real em conceitos usando a lógica. Aceitar algo por revelação divina fere completamente essa definição. Não consigo ver como a razão pode levar à fé, ou a fé à razão.

De qualquer maneira, a história da filosofia medieval é a história dessa síntese — ou dessa tentativa de síntese — e se divide, basicamente, em dois períodos: a Patrística (séc. II – VIII); e a Escolástica (séc. XII – XV). Entre ambos, houve um período de transição onde o conhecimento da língua grega havia praticamente desaparecido (a não ser espalhado pelos monastérios que cresciam em número), mas, ao mesmo tempo, o Renascimento Carolíngio passava a criar escolas em quase todas as abadias e, com isso, gerava as bases para o período Escolástico. O que unifica todos esses períodos é o desejo por uma síntese.

A patrística recebe esse nome, pois é o período dos “Pais da Igreja” (pater = pai, em latim) — influentes teólogos, filósofos e escritores que construíram as bases fundamentais do cristianismo. O período vai do fim da Era Apóstolica até, convencionalmente, o Segundo Concílio de Niceia, em 787, quando se considera que a ortodoxia católica estava plenamente estabelecida, mas ele tem como seu ápice a vida e o trabalho de Agostinho de Hipona, o Santo Agostinho (354 – 430).

A lista de Pais da Igreja é inconclusa e bastante controversa, tendo sido expandida até os dias de hoje, mas, em geral, consideram-se quatro critérios de escolha:

  1. Doutrina ortodoxa: O padre não precisa estar isento de erros, mas deve promover a fiel comunhão da doutrina com a Igreja universal;
  2. Santidade de vida: O padre não precisa ter sido oficialmente canonizado, mas sim cultuado da forma como os santos o eram na Antiguidade Cristã;
  3. Aprovação da Igreja: A decisão deve advir de consenso entre as deliberações e declarações eclesiásticas;
  4. Antiguidade: O padre deve ter vivido no período acima considerado (séc. II ao VIII).

Eu considero o projeto de unir fé e razão completamente incoerente. No entanto, quando olho para o mundo de hoje — o mundo sem fé ou razão — confesso que uma parte de mim lamenta seu insucesso.

4 comentários sobre “A Síntese Impossível

  1. Olá amigo, gostei da exposição histórica. Porém, a título de comentário, proponho aqui que fé e razão não são antíteses completamente incoerentes; encontrá-las-ia complementares entre si. Se procurares bem, verás que mesmo as matérias mais concretas, como a matemática, dependem da fé em premissas às quais a razão não pode exercer seu ofício completamente. Se veres os axiomas matemáticos, por exemplo, encontrá-los-á subordinados à uma questão de fé. Pode ser que queiras dizer fé religiosa, e assim, pode-se discutir. Mas fé não é instituto único da religião. Continue com o bom blog, e boa sorte em tua jornada!

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    • Excelente, seu comentário! Tão excelente que coloca em perigo o meu argumento. Deixe-me primeiro concordar com você para depois tentar refutá-lo.
      Acontece que eu sempre disse exatamente isso: que a aceitação de axiomas (principalmente os axiomas primeiros da filosofia, “ainda mais primeiros” que o da matemática) realmente demandam fé, exatamente como você mencionou. Eu costumo chamar de “fé científica”, praticamente um oximoro segundo minha própria análise! Axiomas são ditos auto-evidentes, acima de qualquer discussão, impassíveis de prova, devendo ser apenas apontados ostensivamente, “Olhe, eu estou aqui, e agora estou aqui! Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto! Viu? A é A!” No entanto, eu nunca consegui achar que acreditar piamente nos sentidos não demande uma certa “fé”. Se você der uma olhada no site, vai ver que eu admiro muito a filosofia objetivista de Ayn Rand e a crença total na validade dos sentidos. Mas olhe aí eu usando a palavra crença!
      Agora, seria a hora de refutá-lo, mas reli seu comentário e vejo que não tenho porque fazê-lo: você já fez a ressalva que eu precisava. Eu quero sim dizer “fé religiosa” no meu post, e, portanto, continuo ratificando o que escrevi. Mas ler que “fé não é instituto único da religião” foi algo muito interessante, e algo que pretendo meditar a respeito e levar a outros para discussão.
      Muito obrigado por compartilhar seus pensamentos aqui. Será sempre um prazer ler seus comentários, mesmo (e, talvez até, principalmente) quando discordar veementemente de mim.
      Forte abraço!

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      • Realmente, encontrei teu blog hoje e acho que já o li todo. Gostei de todas as postagens, ainda mais a “Mestres por Toda Parte”. Achei-me com o mesmo sentimento há algum tempo, o de descobrir, por assim dizer, a própria ignorância. Não conheço ainda a fundo a filosofia de Ayn Rand, mas já fizeste-a despertar em mim curiosidade. Há tempos tenho lido matemática e “Great Books of the Western World”, seguindo as dicas deste link: https://prodigalnomore.wordpress.com/great-books-of-the-western-world-as-free-ebooks/. Acho fundamental ler os clássicos, mas não sei dizer ainda o porquê. Acompanharei as novas postagens e indicarei o blog. Sucesso.

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  2. Fico lisonjeado por seus comentários. Obrigado.
    A Ayn Rand é muito controversa pela sua péssima mania de ataques ad hominem desnecessários, os quais mais a fazem parecer imatura e pouco profissional do que avançam seus argumentos. Seu grande discípulo Leonard Peikoff segue o mesmo caminho, porém um pouco mais comedido. Mas se conseguir filtrar isso, há muita sabedoria na sua filosofia. Ela beira uma “filosofia do bom senso”, mas eu garanto que é mais do que isso. Acho que para um filósofo catedrático, ela deve soar simplista, o que o faz (erradamente) descartá-la. Mas para aquele que vê na filosofia uma ferramenta necessária à vida real, e não somente uma oportunidade para devaneios intelectuais, acho que há muito o que extrair de útil do Objetivismo.
    Quantos aos “Great Books”, tive recentemente a oportunidade de comprar a coleção de 1952 (mostrada na foto do post que você gostou) e lhe digo que é um prazer inenarrável segurar aqueles livros e folheá-los a esmo. Mas como o tempo (sempre) é curto, passo todo dia por eles com um sentimento de angústia: gostaria de ficar o dia todo lendo, em paz, bebericando um vinho na varanda de minha casa… mas não posso! O ser humano nunca está satisfeito… Forte abraço!

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