História da Filosofia – Aula 6: Atomismo e a Morte da Mente

“Se não existe uma mente capaz de observar evidências e raciocinar de acordo com as leis da lógica, então as conclusões de todo homem não expressam nada além de reações mecanicistas cegas. Cada homem é então uma máquina — ele é um fantoche físico guiado pelas leis do movimento. […] Ele é um pequeno sistema de bolas de bilhar, na verdade, chocalhando e tremendo por necessidade mecanicista.”
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 6.
(Materialismo implica determinismo, que, por sua vez, nega a mente. Eu me pergunto como uma mente pôde ter a ideia de negar a si mesma. Fonte original da imagem: Min Then.)

Os pitagóricos tentaram resolver o problema levantado por Heráclito e Parmênides postulando dois mundos: um em fluxo constante, este mundo; e um eterno e imutável, o mundo dos números. Os atomistas tentaram uma reconciliação muito diferente. No processo, tornaram possível o nascimento da ciência moderna. Eles também causaram a destruição da mente.

Os atomistas pertenciam a uma abordagem geral chamada pluralismo. Os pluralistas concordaram com Parmênides que havia apenas um algo eterno e imutável que compunha a realidade. Mas eles também concordaram com Heráclito que a mudança era simplesmente um fato óbvio demais para se negar. Então, eles postularam que não um, mas muitos algos povoavam o mundo — não monismo, mas pluralismo — cada um deles como um universo parmenidiano em miniatura. Eles então explicaram todo tipo de mudança como simplesmente o rearranjo espacial desses materiais imutáveis.

O primeiro pluralista foi Empédocles, que disse que havia quatro elementos, quatro “raízes”: terra, ar, água e fogo. Anaxágoras veio depois e não ficou satisfeito com essa explicação. Se “nada de novo sob o sol” pode surgir, então quatro elementos não serão suficientes. Sua solução foi que “pequenas sementes” — de todos os tipos possíveis de materiais diferentes — existem dentro de tudo. Dessa forma, o mero rearranjo poderia agora funcionar.

Tales queria encontrar a unidade na multiplicidade; os pluralistas estavam satisfeitos com a multiplicidade como absolutamente irredutível e inexplicável.

Os atomistas, Leucipo e Demócrito, encontraram uma solução intermediária entre o monismo parmenideano e o pluralismo de Anaxágoras. Toda a realidade é de fato formada pelos rearranjos de partículas minúsculas e irredutíveis que eles chamavam de “átomos” (do grego atomon, para “indivisível”). Mas não havia necessidade de “sementes” de todas as qualidades que observamos; estas seriam apenas efeitos subjetivos sobre os seres humanos, simplesmente como as coisas nos aparecem. Nenhuma qualidade como cores, sons, odores ou texturas são reais. Tudo o que realmente existe são as características quantitativas das coisas, seu tamanho, forma, número e estado de movimento. Como sempre, os sentidos nos enganam. Essa distinção entre “quantidades” e “qualidades” foi aceita por Galileu, Descartes, Spinoza, Leibnitz e, finalmente, Locke, que lhe deu seu nome moderno (qualidades “primárias” versus “secundárias”).

Mas, como todos os filósofos da história (Peikoff, sem dúvida, excluiria Ayn Rand dessa afirmação), os atomistas não eram totalmente consistentes. Para que a pluralidade de átomos existisse, deveria haver espaços sem nada entre eles — o vazio. Assim, havia de fato duas coisas na realidade: aquilo que é, e aquilo que não é, uma violação gritante do princípio de Parmênides. Os atomistas resolveram um problema e criaram outro.

Outra consequência altamente influente da filosofia dos atomistas foi a ascensão do determinismo. Tudo é determinado pelas configurações atômicas e pelas várias pressões e reações às quais os átomos são submetidos. O “materialismo” afirma que qualquer coisa não material é simplesmente um derivado ou subproduto a ser explicado inteiramente em termos físicos. “Mecanicismo” é a visão de que tudo acontece de acordo com as leis da mecânica. Nada acontece por acaso. Nada acontece com um propósito. Segue-se, portanto, que o homem é governado por um rígido determinismo. O determinismo está implícito no materialismo, porque, sendo tudo material, não há uma mente para fazer escolhas; e está implícito no mecanicismo, porque tudo acontece de acordo com leis, não com livre arbítrio de qualquer tipo. Os atomistas foram os primeiros deterministas na história filosófica.

Pode-se dizer que a ciência moderna começou quando alguém teve a idéia de combinar Demócrito com Pitágoras, de buscar leis mecanicistas que fossem matematicamente formuláveis. Mas, como metafísica, essa ideia é completamente inválida, pois nega a existência da mente.

 

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