O Livro Esquecido da “Metafísica”

A “Metafísica” de Aristóteles começa dizendo que “Todos os homens desejam por natureza o saber”. Ele, claro, considerava como “homens” um grupo seleto de pessoas — os cidadãos gregos — não a maioria do povo grego formada por escravos — seres que se permitiram conquistar, seres inferiores — muitos menos os bárbaros não gregos. Talvez o problema seja justamente esse: a maioria de nós deve ser descendente dos escravos e, como disse Will Durant, deve ter sido a escravidão que nos preparou para o hábito da labuta. Se assim não fosse, talvez não vivêssemos trabalhando tanto e pensando tão pouco. Porque quando olho à minha volta, não vejo muitas pessoas interessados no saber. Na verdade, não vejo quase ninguém.

Meu (ótimo) professor de metafísica na faculdade iniciou a disciplina, obviamente, falando de Aristóteles e de seu trabalho seminal. Ele, então, prosseguiu elencando os livros mais importantes de sua Metafísica.

O Livro Alfa pode ser considerado a primeira história da filosofia, onde Aristóteles critica os que vieram antes dele e estabelece o hábito, até hoje predominante, de se fazer uma revisão bibliográfica logo no início de qualquer trabalho.

O Livro Delta apresenta o que pode ser considerado o primeiro dicionário da filosofia, com seus trinta verbetes.

Os Livros Zeta, Eta e Teta, são o cerne da Metafísica, com o Zeta podendo ser considerado o “cerne do cerne”, por tratar de um dos conceitos mais centrais a Aristóteles: a substância. O Livro Eta faz uma espécie de sumário do que foi até então exposto e inicia o tratamento sobre potência e ato, também conceitos centrais à filosofia aristotélica. O Livro Teta, por sua vez, apresenta o âmago dessa discussão.

O Livro Lambda foi o último que meu professor indicou como essencial. É esse livro onde Aristóteles descreve o seu “deus”, o “motor imóvel”, assim, sendo de grande importância para as religiões monoteístas e suas tentativas futuras de incorporação da filosofia aristotélica.

Mas essa foi uma aula introdutória. No dia seguinte, ele apresentou a ementa do curso e começou o primeiro item, destacando sua importância, “Os Primeiros Princípios do Ente”. Para tanto, ele procedeu nos contando, por sua vez, sobre o Livro Gama e a importante resposta dada nele a Protágoras.

“Há alguns, como dissemos, que afirmam que a mesma coisa pode ser e não ser, e que se pode pensar desse modo. Muitos filósofos naturalistas também raciocinam desse modo. Nós, ao contrário, estabelecemos que é impossível que uma coisa, ao mesmo tempo, seja e não seja; e, baseados nessa impossibilidade, mostramos que esse é o mais seguro de todos os princípios.”

Assim, Aristóteles começa suas demonstrações do Princípio da Não Contradição, o principal axioma de toda a filosofia. Mas por que, então, meu professor não mencionou o Livro Gama na sua aula anterior, quando elencou todos os livros mais importantes da Metafísica de Aristóteles?

Quando eu o indaguei sobre isso, ele se desculpou pelo “esquecimento”. Acontece, ele explicou, que esse livro é hoje muito criticado. Em resumo, as pessoas hoje concordam muito mais com os sofistas do que com Aristóteles. A Lei da Identidade, “A é A”, e o Princípio da Não Contradição, “A não pode ser A e não-A ao mesmo tempo e segundo o mesmo aspecto”, que antes me pareciam meras tautologias de tão evidentes, não são mais aceitos pela maioria.

“Protágoras venceu”, meu professor me explicou não sem pesar em seu semblante, “e o Livro Gama perdeu seu valor”.

O mundo pode estar de pernas para o ar, mas eu não vou esquecer esse livro — nunca.

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4 comentários sobre “O Livro Esquecido da “Metafísica”

  1. Excelente texto, do qual se extrai a proposição: o raciocínio lógico, por si, não é capaz de convencer alguém de seu valor intrínseco. Se não houver convencimento, ou abertura para seu próprio valor, até mesmo a lógica pode estar subjugada por suposições que a quebram. As pessoas negam a lógica para que não quebre os princípios infundados que as sustentam. Não há lógica para aquele que não a quer.

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    • “As pessoas negam a lógica para que não quebre os princípios infundados que as sustentam.”
      Essa frase eu pretendo memorizar. Perfeita! Muito obrigado por mais esse excelente comentário.
      A pergunta que faço, então, é: Como convencer a pessoa “ilógica”? Porque quanto mais me aprofundo na filosofia, mais dependo da lógica, e mais enxergo a ausência dela no discurso alheio. Cada vez mais fico com vontade de me esconder numa caverna, sozinho com meu computador, porque não consigo argumentar com as pessoas. Às vezes, eu agradeço por ter uma profissão onde eu posso atirar nas pessoas ao invés de falar com elas! (brincadeira de mau gosto, mas não resisti) É como se no mundo de hoje a lógica fosse desnecessária, ou, pior do que isso: como se ela fosse um empecilho à boa conversa! Obrigado por me apresentar, mesmo que virtualmente, um dos espécimes humanos mais raros hoje: alguém que pense logicamente.

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      • “Como convencer a pessoa ‘ilógica’?”, aí está o cerne da questão. Como é difícil achar alguém que entenda o poder do conhecimento, e que busque-o por vontade, e não por imposição! “É como se no mundo de hoje a lógica fosse desnecessária, ou, pior do que isso: como se ela fosse um empecilho à boa conversa!”; realmente, as pessoas acham a lógica meramente acessória em suas vidas; mal sabem elas que qualquer decisão pensada que porventura exerçam é uma tentativa de se utilizar a lógica e o conhecimento. Acho que o que falta é convencer – muitas vezes por recursos retóricos mesmo – os do entorno de que o conhecimento humano se construiu ao longo do tempo para poupá-los de erros imbecis e facilitar-lhes a vida; até mesmo para alcançar os tão sonhados – e não menos discutíveis – objetivos fundamentais da nossa república; em especial, “Garantir o desenvolvimento nacional.”. De meu parco poder, no entanto, só tento convencer os ao meu redor o quão divertido é buscar o conhecimento. Fico grato em tê-lo nesse caminho e espero ler muita coisa interessante por aqui.

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  2. Eu, particularmente, reduzi esses “do entorno” à minha filha. E como ela tem meses de idade, ainda posso me dar ao luxo de aprender muito do que tenho que ensiná-la. E esse é o objetivo desse site. A ideia de que talvez pudesse afetar outros com ele até passou pela minha cabeça, mas não me prendo a isso. Considero uma participação como a sua um grande bônus, mas não vou contar com isso. Isso aqui é um registro do que tento aprender a cada dia; não me sinto digno de convencer ninguém a nada, essa é que é a verdade. Mas fico feliz que possa atrair amantes do conhecimento para cá. Isso mostra que eu talvez esteja no caminho certo. Obrigado e volte sempre!

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