Luto Desprezível

Eu não entendo mais o mundo em que eu vivo. Inocente ou criminoso, vocês são todos iguais.

Seis pessoas morreram por causa das fortes chuvas que assolaram o Rio há dois dias. Ontem, logo ao raiar do dia, dez jovens entre quatorze e dezesseis anos morreram queimados em um incêndio no centro de treinamento do Flamengo. Pouco depois, treze criminosos armados foram mortos pela polícia em uma violenta favela carioca. O que, além do Anjo da Morte pairando nos céus, existe de comum nos três casos? Segundo um dois maiores jornais da cidade e, é claro, um monte de idiotas pelas redes sociais, a resposta é óbvia: TODOS são pobres inocentes.

Você sai de sua casa para trabalhar e pega um ônibus. Você vai fazer o turno da noite hoje. Mas como durante o dia ficou trabalhando na obra com seu pai, já está muito cansado. Enquanto a música toca suave no seu headphone, você se permite levar pelo sono e pelo balanço acolhedor do carro. Você não consegue distinguir realidade de pesadelo, verdade de ironia, ar de terra, vida de morte quando toneladas de lama e entulho jorram pela sua janela, pressionam seus ombros para dentro e para baixo como se você fosse rezar, fazem seu corpo se contorcer como que em uma bola, afundam sua cabeça por entre seus joelhos, e, durante os poucos segundos que leva para você ser esmagado, o fazem morrer.

Você está zangada, pois teve que parar de fazer o jantar da sua família já que a água entrava pela janela quebrada da cozinha. Há tempos que você reclama com seu marido, mas não insiste muito porque sabe que ele está sem dinheiro. Ele te garante que vai consertar assim que puder, e você acredita. Ele está no sofá da sala, morto de cansaço pelo dia de ralação no trabalho, e você quer dar comida para ele. Você chama seu filho para te ajudar com a janela, porque quer tentar ao menos fritar uma linguicinha para seu marido. Se você tivesse tido mais tempo, teria agradecido por todos esses anos sofridos porém felizes que viveram juntos, e também por nenhuma das outras mortes possíveis terem te escolhido. Você poderia ter morrido lentamente, se asfixiando enquanto soterrada pelos escombros, ou afogada enquanto era arrastada pelas águas torrenciais, desesperada ao engolir água tentando, em vão, gritar por ajuda. Mas, graças a Deus, o pedaço de concreto da parede a atingiu como um míssel na cabeça e você apagou instantaneamente. Que bom que não viu seu filho morrer gemendo ao seu lado. Melhor ainda foi não ter visto seu marido, que, ajoelhado atônito ao lado dos bombeiros, chorava copiosamente enquanto eles resgatavam seus corpos contorcidos, rezando a deuses ausentes em meio à lama.

Você ainda é um garoto, mas quando era ainda menor já sonhava em jogar bola. Você admirava seus ídolos na TV, olhava o sofrimento da sua família ao redor lutando para ganhar um salário de fome, e se imaginava lá no meio daquele gramado, sentindo maravilhado o urro da torcida gritando seu nome de novo e de novo. Você treina sem parar, mesmo enquanto estuda e ajuda seus pais em casa, porque não se vê de outra maneira que não essa: Você vai ser jogador. Apesar de morar no nordeste, você quer mesmo é jogar no Rio. Você nem imagina a verdade, por isso fica preocupado quando o seu técnico lhe chama no canto com uma expressão grave. Você pensa que fez algo de errado, mas logo ele não se contém e lhe diz a novidade em meio a sorrisos: Você foi selecionado para treinar no Flamengo. Seu cérebro ainda não acredita quando o seu coração já o faz chorar. Seu técnico lhe abraça forte, mas você só pensa em ir para casa contar para seus pais. Você quer dizer “obrigado” um milhão de vezes, e chora ainda mais só de imaginar a feição de orgulho no rosto de sua mãe, que nunca duvidou de você. Mas você teria abdicado desse futuro imediatamente, e se contentaria feliz em bater laje a vida toda, carregando pedra para lá e para cá, se pudesse ver o rosto de sua mãe ontem quando ela soube do que aconteceu. Para o resto da vida dela, seu rosto se desfigurará em uma máscara de pavor e sofrimento quando ela imaginar como foi quando você acordou no Inferno, vendo seus amigos gritando desesperados enquanto percebia que você mesmo não podia respirar, e que nada podia fazer além de esperar aquelas paredes de fogo se fecharem em seu corpo e o consumirem em chamas e dor. Em um último brevíssimo momento de lucidez, quando seus nervos já estavam tão queimados que nem mesmo dor transmitiam, naquela fração momentânea de calmaria como que durante a passagem do olho de um furacão, você se perguntou o que fez para merecer isso. Teriam escorrido lágrimas de seus olhos se eles já não estivessem secos pelas chamas.

Mas o jornalista que está de luto por “TODAS as vidas perdidas no Rio”; seus outros colegas de trabalho que passaram a vida se referindo a criminosos assassinos armados como “suspeitos” ou “pessoas”; os populares que manifestam seu pesar pela morte desses “inocentes” e “trabalhadores” armados de fuzis que nada fizeram além de descansar após uma sessão produtiva de esquartejamento; os “especialistas” que adoram essas oportunidades para se colocar em cima do muro e, assim, agradar a gregos e troianos e continuar sua ascendência pelos escalões da sociedade; os ativistas e pseudo-políticos que prontamente clamam por justiça a todos; certos delegados que nem coragem de serem bandidos declarados e pegar em armas têm, mas só sabem circular frases idiotas na Web; ou simplesmente aqueles que estão em posições de serem ouvidos, mas que se calam para não se comprometerem; enfim, todos os que se evadem da realidade a mascarando com suas vendetas pessoais, confundindo vida e morte, inocência e culpa, com seus objetivos políticos mesquinhos e deturpados, todos esses acham que VOCÊ trabalhador esmagado no ônibus, VOCÊ dona-de-casa soterrada com seu filho na cozinha, VOCÊ jovem sonhador calcinado quando achava estar no paraíso com seus amigos, VOCÊ pessoa de bem que rala todo dia para sustentar a sua família e criar filhos decentes, VOCÊ é EXATAMENTE igual a qualquer traficante vagabundo que degrada essa cidade e contribui para o absurdo e a inversão cultural em que vivemos.

Sinceramente, não sei o que falar às famílias desses inocentes tragicamente mortos. Também não sei o que falar às famílias dos criminosos mortos. Todas são famílias que perderam seus entes queridos. Mas eu sei o que falar a esses que não conseguem mais distinguir pessoas de bem de criminosos:

Rezem para que os combatentes não se cansem de vez de fazer o trabalho deles, porque se isso acontecer essa cidade afundará em lama e sangue, e vocês, parasitas fracos, covardes e sujos, serão os primeiros a chorar gritando por ajuda.

Ouvindo seus lamentos, estarão apenas aqueles que vocês tanto protegem, rindo enquanto empilham pneus para se divertirem às suas custas.

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