Truby e a Teia de Personagens

Uma teia de personagens.

Truby nos diz em “A Anatomia da Estória” que nenhum personagem pode ser criado no vácuo; ele é definido através de uma teia de personagens interrelacionados. Eu acho que é a mesma coisa conosco aqui fora na vida real.

Cada personagem dessa teia deve nos apresentar uma variação diferente do tema — a visão moral singular do autor — todos eles, de um jeito ou de outro, forçando o herói a encarar seu problema moral central. É através desta teia e da oposição de valores inerentes a ela que você detalhará seu herói.

O personagem principal é, claro, o herói, mas ele também precisa de um oponente. O relacionamento entre esses dois é o mais fundamental para a estória, através do qual seus maiores problemas surgirão. Deve haver também um aliado que ajude o herói, mas cuja verdadeira função é servir como um meio de transmissão dos valores e sentimentos do herói para o público.

Mas o aliado (como o oponente) nem sempre é óbvio. Um personagem importante é o “oponente falso-aliado”, alguém que parece ser o amigo do herói apenas para ser revelado como um antagonista, aumentando assim o poder da oposição e adicionando reviravoltas à trama. Outra possibilidade é usar um “aliado falso-oponente”, embora esse artifício não seja tão comumente usado (o exemplo prototípico é Hannibal Lecter, do “Silêncio dos Inocentes”). Um “personagem de subtrama”, que geralmente aborda o mesmo problema que o herói, mas de maneira diferente, geralmente é útil para destacar — por comparação — os traços e dilemas do herói. Modelar alguns de seus personagens por arquétipos[1] conhecidos também é uma ótima maneira de fazer com que o público se relacione com eles.

Agora, você deve estabelecer a mudança de caráter de seu herói — o arco do personagem. Primeiro, defina a auto-revelação pela qual ele passará e então volte à sua necessidade, certificando-se de que a auto-revelação realmente a solucione. A mudança de caráter é tornada possível no início da estória pela forma como você a configura — o herói deve começar com uma “gama de possíveis mudanças”. Enquanto o herói luta para alcançar seu objetivo, ele é forçado a desafiar suas crenças mais arraigadas. Você deve esclarecer sua linha de desejos, de modo que ele não faça nada estranho ao seu objetivo principal. No caldeirão da crise, o desejo do herói ganha importância, a história aumenta seu ritmo e, perto do final, uma meta muito específica é alcançada. Ele eventualmente enxerga suas crenças verdadeiras, decide o que vai fazer e, em seguida, toma uma ação moral para provar isso.

Desenvolver o seu herói é também desenvolver o seu oponente. Torne-o tão complexo e valioso quanto o herói. Ambos devem querer o mesmo objetivo, mas baseados em valores diferentes. Embora a avaliação moral da vida do oponente deva ser errada, ela deve, não obstante, ser um argumento forte. Faça-o o mais parecido possível com o herói, e faça-o permanecer aproximadamente no mesmo lugar; dessa forma, o contraste e o conflito são maximizados.

O conflito deve evoluir de forma constante até a batalha final. Estórias melhores, no entanto, vão além de uma simples oposição entre herói e oponente principal e usam uma técnica que Truby chama de oposição de quatro cantos. Basicamente, você deve criar pelo menos dois outros oponentes secundários, cada um abordando de forma única as fraquezas do herói e estabelecendo conflitos entre todos eles. Essa técnica aumenta exponencialmente a quantidade de possíveis conflitos. Permita que cada personagem expresse um sistema único de valores e faça-os entrar em choque!


Notas

1. Arquétipos são padrões psicológicos fundamentais inerentes a todos os seres humanos; são papéis que uma pessoa pode desempenhar em qualquer sociedade, proporcionando assim um apelo universal.

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