O.P.A.R. – Comentário: Abstrações Flutuantes Eventualmente Caem

“Todo conhecimento está interconectado. Deixar um único campo de fora — qualquer campo — do resto da cognição é abandonar o vasto contexto que torna esse campo possível e que o ancora à realidade. O resultado final, como acontece com qualquer falha de integração, é abstrações flutuantes e autocontradição.”
Leonard Peikoff, “O.P.A.R.”, página 127.
(O desastre de Hindenburg. Esta é apenas uma metáfora visual para uma abstração flutuante: quando o contexto é descartado e a realidade se instala, os conceitos se tornam perigosos.)

Anteriormente, quando falei sobre evasão epistemológica, eu mencionei nossa preguiça mental, como evitamos o esforço de pensar corretamente porque dói. O problema é que se realmente analisarmos cada ideia a fundo, nos tornaremos responsáveis ​​por elas quando as usarmos, e isso é algo que odiamos. Isso pode soar ofensivo, mas não tenho dúvidas que esse é o caso com a grande maioria de nós durante a grande maioria do nosso tempo acordado. Claro, eu me incluo neste time de evasores.

Um dos grandes sintomas de tal evasão é o uso generalizado do que Ayn Rand chama de abstrações flutuantes, ou conceitos completamente desvinculados da realidade. É muito mais fácil aceitar o conhecimento processado por outrem e simplesmente reutilizá-lo, independentemente de sua veracidade. O exemplo prototípico é a forma como lemos as notícias. Somos levados de um lado para o outro de acordo com o humor geral produzido pela fusilada de notícias parciais (como em parcialidade) que recebemos todos os dias. Eu tento o meu melhor para manter a minha frieza e julgar com base no que sei serem fatos, mas isso nem sempre é possível. Eu estou em uma boa posição para julgar adequadamente assuntos sobre minha própria cidade e, principalmente, sobre sua segurança pública, mas e sobre a guerra comercial entre EUA e China? Eu estaria mentindo se dissesse que realmente analisei a fundo todos os conceitos envolvidos. Mas o problema não está em deixar de analisa-los; o problema real é falar sobre esses conceitos como se você realmente tivesse feito isso.

Essa foi a verdadeira sabedoria de Sócrates: não que ele soubesse de tudo, mas que ele não pensava saber quando, na verdade, não sabia. É difícil imaginar quão melhor o mundo estaria se todos fossem assim tão sábios.

Eu acabo de ter uma ideia maluca enquanto escrevia a frase acima. Imagine um mundo onde todos tivessem que provar que sabem do que estão falando. Assim como você tem que passar em exames na escola para mostrar um certo nível de proficiência em uma determinada matéria, você teria que passar por exames para cada palavra que você aprendeu. Digamos que tudo que alguém falasse fosse capturado por microfones escondidos em todos os lugares. Uma vez capturada a sua voz, ela passaria por um algoritmo de reconhecimento de fala para que as palavras fossem individualizadas. Em seguida, seria feita a referência cruzada das palavras faladas com um banco de dados contendo todas aquelas que você tivesse licença para pronunciar. Se você fosse encontrado falando de coisas que não provara saber, você seria automaticamente multado. Note que não seria sua ignorância que estaria sendo punida, mas sim sua negligência.

Então, você está falando sobre democracia e como a democracia brasileira vai sofrer com o atual governo populista. Você está na academia ou no bebedouro do trabalho ou tomando champanhe em uma festa, desfrutando de um daqueles agradáveis momentos em que homens inferiores param para escutar suas divagações intelectuais. Mas assim que você profere uma frase contendo democracia e populismo, seu smartphone emite dois bipes: duas multas altas foram instantaneamente cobradas no seu cartão de crédito. Você imediatamente muda de assunto ou faz uma saída tática para o banheiro. Quão melhor seria o mundo se a disseminação de tais absurdos pudesse ser interrompida na fonte![1]

Abstrações flutuantes são tudo o que ouço ao meu redor, mas pelo menos agora posso identificá-las pairando nos céus acima. Pelo menos agora, eu sei que devo sair de baixo para que não caiam sobre mim.

 


Notas

1. Eu não estou aqui julgando a afirmação no começo do parágrafo. O que estou dizendo é que não há democracia de verdade no Brasil, e que populismo é um conceito que NINGUÉM sabe definir.

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