Um Comentário (meio) Objetivista sobre “Duna”

“Profecia e presciência – Como podem ser postas à prova diante das questões não respondidas? Considere: quanto é a previsão real da “forma de onda” (como Muad’Dib referiu-se à sua visão-imagem) e quanto o profeta está moldando o futuro para se adequar à profecia? E quanto aos harmônicos inerentes ao ato da profecia? O profeta vê o futuro ou ele vê uma linha de fraqueza, uma falha ou clivagem que ele pode quebrar com palavras ou decisões como um cortador de diamantes quebra sua gema com um golpe de uma faca?”
— Frank Herbert, “Duna”, página 312.
(The Kaaba. Profecias, profetas, uma misteriosa pedra negra consagrada em um enorme cubo granítico. O “poder da religião” é o tema de Duna. Mas não é esse o tema aqui na Terra também?)

Desconsiderando a injusta competição da Epopéia de Gilgamesh, Duna pode ser considerado o primeiro romance de ficção científica do tipo “o escolhido”. Luke, Neo, Aragorn, Potter, todos devem pelo menos alguns de seus poderes a Paul Atreides e, claro, a Frank Herbert. Mas o que realmente me chamou a atenção desde o começo do livro foram suas tendências (meio) objetivistas. Se eu tivesse que escolher uma única palavra para representar o Objetivismo, ela seria “razão”. Se eu tivesse que escolher para Duna, também seria… – OK, seria “vermes-de-areia” – mas a próxima escolha seria “razão” também.

A história se passa longe da Terra, em um planeta deserto chamado Arrakis. O tema superficial é luta pelo poder. Os principais adversários são a Casa dos Atreides (o bom) e a Casa dos Harkonnen (o mau), mas o conflito envolve uma conspiração em que todos têm algo em jogo, incluindo o próprio imperador (o feio).

Mas o tema mais profundo é religião, ou o poder que a religião tem sobre as pessoas. No centro de tudo isso estão os Fremen, o povo local endurecido pela guerra e profundamente religioso, que tem uma relação forte e mística com o melange (o “tempero”), o principal recurso natural de Arrakis. É isso que move o mundo de Duna e a guerra que assistimos.

 Mas não há nada – NADA – em Duna que implique um Deus. Uma dieta rica em melange aumenta o raciocínio e cria algo como poderes “prescientes”. As “bruxas” Bene Gesserit plantam lendas entre os povos como um seguro para suas maquinações. É isso.

Para “provar” meu ponto de vista, não acho que preciso insistir na viabilidade de conspirações religiosas. Você não pode honestamente pensar que toda a bagunça do Oriente Médio é apenas sobre Deus.

Mas você pode pensar que poderes prescientes implicam misticismo. Eu digo que não.

O que é pensar? Segundo o Objetivismo, é a integração de fatos concretos; é olhar para o mundo real e extrair leis explicativas. Pense em Newton assistindo uma maçã cair e abstraindo a lei da gravidade, mas pense também em você, diariamente prevendo o trânsito ou o clima.

Agora, pense em enxadristas experientes, que preveem de dez a quinze movimentos à frente em cada um de dúzias de jogos simultâneos — de olhos vendados!

Pense também no efeito do café em você. Bom, pelo menos eu penso muito melhor com uma boa dose de cafeína. Na verdade, eu provavelmente escreveria como uma criança de três anos se eu não tomasse duas xícaras grandes de café logo de manhã.

Agora, alimente gerações de enxadristas com o melange (imagine “Red Bull com esteróides”) durante milhares de anos, e doutrine-os em toda uma cultura da razão, uma cultura que a usa para separar humanos inferiores de humanos assim como Aristóteles e Ayn Rand a usavam para separar animais de homens. Como pareceriam as habilidades dessas pessoas para nós?

Presciência.

Em um mundo como Duna, nossos grão-mestres “temperados” se tornariam profetas! Em um mundo como o nosso, no entanto, eles queimariam na fogueira.

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