Zenão, Formigas, E Como Eu Estou Paralisado Na Vida

Essa formiga ficou presa no âmbar. Eu sei como ela se sente.
(Fonte original: Anders L. Damgaard; CC BY-SA 3.0 / Dessaturado do original)

Parmênides foi um dos grandes primeiros filósofos que tivemos. Ironicamente, para alguém que pregava imobilidade em suas conclusões, ele levou a filosofia adiante com suas premissas. Mas penso é em suas conclusões agora, quando olho para minha vida. Eu me pergunto se o mundo – pelo menos o meu mundo – não está imóvel, afinal.

Parmênides tinha um grande defensor – Zenão, de Eleia – que criou uma série de paradoxos para “provar” que ele estava certo. Um dos mais famosos mostra que não podemos atravessar uma sala. Para alcançar qualquer distância, primeiro precisamos alcançar metade dessa distância. Mas, para isso, precisamos primeiro chegar a metade dessa “meia-distância”. E assim por diante, indefinidamente. Portanto, se tivermos que cruzar uma quantidade infinita de distâncias cada vez menores, a verdade é que não podemos nos mover. Que idiotice, não?

Embora contrário ao senso comum, foi necessário Aristóteles e uma teoria do infinito adequada para provar que Zenão estava errado. Mas eu não vou me debruçar sobre isso agora. Tudo o que quero é dizer que hoje eu vivo o paradoxo de Zenão – apenas diferente.

Eu invejo aquelas pessoas que escolhem um caminho e simplesmente andam nele. Elas traçam uma linha reta ligando onde estão para onde querem estar, e simplesmente vão embora. Obstáculos inevitavelmente aparecem, o que pode exigir alguns desvios, mas elas sempre retornam ao caminho certo – e elas continuam.

Eu fui um dia assim. Eu não sou mais.

O que acontece comigo é o seguinte. Eu decido um caminho. Eu dou os primeiros passos na sua direção. Então, as coisas ficam difíceis. “Coincidentemente”, novos caminhos surgem em minha mente. Um deles parece mais convidativo. Eu elaboro explicações perfeitamente racionais do porquê eu deveria segui-lo. Eu até convenço minha esposa. Então, eu mudo de direção. E repito isso indefinidamente.

Quando você imagina um espaço tridimensional como aquele em que vivemos, você pensa que eu estaria fazendo ao menos algum progresso em todas as direções. Quero dizer, a não ser que meu caminho seguisse exatamente um eixo, estaria me movendo pelo menos um pouquinho em X-Y-Z; assim, eu nunca estaria abandonando todo o meu desenvolvimento nas outras direções. Bem, isso é apenas um pouco verdade.

E se houvesse não apenas três dimensões, mas infinitas? E se pudéssemos encontrar direções infinitas que fossem completamente ortogonais às anteriores?

Esse é o paradoxo parecido com o de Zenão em que eu vivo. Vou para todo lado e não produzo nada.

 Eu sempre usei a metáfora de que todos nascemos como pequenas formigas. Vemos esse imenso espaço vazio à nossa frente e seguimos a direção óbvia. Mas não eu! Eu nascera mais afastado daquele espaço vazio e, com uma melhor visada, conseguia enxergar que na verdade estávamos diante de uma porta aberta gigante. Mais do que isso: havia infinitas portas lado a lado, estendendo-se indefinidamente para ambos os lados. E eu venho testando essas portas desde então.

Quando mais jovem, isso explicava meu ecletismo; hoje, isso explica a minha paralisia na vida, preso no mesmo ponto, mesmo sempre me movendo.

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