História da Filosofia – Aula 4: Parmênides e a Lógica da Imobilidade

“Então [de acordo com Parmênides] o mundo é simplesmente uma bola não diferenciada de matéria bem empacotada, imóvel e imutável. Agora, é desnecessário dizer, essa não é a maneira com a qual ele aparece aos nossos sentidos.”
— Leonard Peikoff, curso “História da Filosofia”, ARI, Aula 4.
(Há tanto movimento no mundo que é difícil entender como Parmênides chegou a pensar que não há. Contudo, havia lógica por trás do seu raciocínio, e isso gerou um sério problema para a filosofia. Foram necessários cerca de cem anos e Aristóteles para a humanidade encontrar uma solução.)

Heráclito disse: “A mudança é óbvia, portanto, ao inferno com a lógica.” Parmênides disse: “A lógica é óbvia, portanto, ao inferno com a mudança.” Ainda usando as próprias palavras de Peikoff, sua filosofia pode ser resumida pelo princípio “O que é, é, e o que não é, não é, e o que não é, não pode nem ser, nem ser pensado.” Difícil negar essa lógica.

Esta é a primeira formulação na “história das ideias” do primeiro axioma da metafísica de Ayn Rand – “Existência existe” – e seu significado é o mesmo. O fato de você não poder pensar no nada é também a visão dela de que a consciência é a faculdade de perceber aquilo que existe. Se o pensamento é sempre sobre a realidade, sempre sobre o que é, então é falso manter o conceito de uma pura inexistência. Até este ponto, Parmênides poderia muito bem ser um Objetivista. Mas ele perdeu o rumo.

Um dia, no futuro distante, quando terminarmos esta série de posts sobre a história da filosofia, acredito que você notará uma falha comum entre muitos filósofos: eles fazem grandes argumentos baseados em premissas erradas. Este não é o caso de Parmênides. Baseado nas premissas corretas, ele formula um argumento ruim e, no processo, “resolve” o velho problema da mudança e multiplicidade: ambas não existem.

Parmênides sustentou que a mudança requer algo fundamentalmente vindo ou saindo da existência, e como isso é impossível, a mudança implica uma contradição. A mudança é tão irracional quanto a ideia de o universo ser criado ou deixar de existir. Isso incluiria referência ao que não é. E o que não é, não é. Portanto, ele concluiu, não há mudança alguma. E, a propósito, o universo é eterno.

Mas ele não pára por aí. Se não pode haver referência ao que não é, não pode haver algo como um vácuo real. Portanto, não pode haver separação entre duas entidades: o universo está solidamente empacotado, é uma laje contínua de uma coisa – um plenum. Há apenas uma entidade, que ele chamou de “o Um”. Parmênides foi o monista por excelência. Não há multiplicidade.

Agora, assim como Heráclito, Parmênides é forçado a negar a validade dos sentidos. Afinal, há mudança e movimento e muitas coisas diferentes em toda parte. Mas, por alguma razão, isso é um problema sério agora. É como se as pessoas tivessem achado mais fácil negar os sentidos E a lógica; mas, agora que a própria lógica implicava tal negação, era demais para suportar. Esse é o problema que Parmênides criou.

Veremos que os pluralistas negarão o monismo para permitir mudança e multiplicidade neste mundo, e que Platão criará dois mundos – o “mundo real” e o “mundo das aparências” – para permitir tanto a mudança quanto a imobilidade, tanto a multiplicidade quanto “o Um”, abrindo assim a porta para o Paraíso.

Após um breve interlúdio com Aristóteles, quando os sentidos deixam de ser atacados, será uma guerra total contra eles durante toda a história – isto é, até chegarmos a Ayn Rand.

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