Ordem, Dualidade e Escuridão

”Se eu sou o maior dos pecadores, eu sou o maior dos sofredores também.”
— Dr. Jeckyll, em “O Estranho Caso do Dr. Jeckyll e Mr. Hyde”, por Robert Louis Stevenson, página 23.
(Os dois amigos do Dr. Jeckyll conversam com ele da rua abaixo, apenas para vê-lo perder subitamente o controle e bater a janela em suas caras. Quem não tem um Mr. Hyde à espreita na escuridão interior?)

Quão incrível é o poder da ordem! A ordem certa, claro; aquilo que apenas um grande escritor alcança. Pois o que é escrever senão encontrar a sequência correta de palavras em meio ao caos das possibilidades? Se você der uma máquina de escrever a um macaco, dizem, e deixá-lo esmurrar as teclas por todo o infinito, ele quase certamente comporá a Ilíada. No entanto, o homem-o-macaco-pensante precisa de apenas um punhado de anos para criar suas obras-primas. Não se trata apenas de palavras ou frases ou personagens ou tramas. É quase como um crime premeditado, com todas suas maquinações malignas embutidas nas palavras, antecipando sua consumação em uma passagem inspiradora. Foi escrevendo sobre a escuridão – e pensando na escuridão interior – que me lembrei de “O Estranho Caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde” e uma das melhores cenas que já encontrei.

Há esse velho e amoroso homem – Dr. Jekyll – afetado por algum tipo de depressão sombria intermitente. E há esse seu “associado” – Mr. Hyde – um homem baixo, macabro e grotesco, que transpira asco e mata as pessoas, pisoteando-as e espancando-as. A dualidade é nitidamente visualizada pela casa dividida em que “eles” vivem: um lado limpo e acolhedor; o outro, desleixado e sinistro. Robert Louis Stevenson precisa de apenas duas frases consecutivas para descrever tais alterações espirituais: uma mostrando o ápice do bom humor; a outra destruindo-o de uma só vez.

E é assim que Jekyll havia desfrutado de dois meses de paz, apenas para se trancar subitamente na solidão. Eventualmente, até mesmo seu melhor amigo se abstém de tentar visitas, e nós sentimos que ele nunca mais sairá do isolamento.

É com grande alívio quando de repente encontramos Dr. Jekyll relaxado à sua janela, ainda parecendo desconsolado, mas sendo gentil e cortês com seus amigos na rua abaixo. Eles tentam convencê-lo a sair, mas Jekyll não ousa deixar a casa. Ele, no entanto, concorda feliz em conversar de lá, sorrindo com satisfação.

“Mas as palavras mal foram pronunciadas, antes que o sorriso fosse arrancado de seu rosto e sucedido por uma expressão tão abjeta de terror e desespero, que congelou o próprio sangue dos dois cavalheiros abaixo.”

Quão assustadoramente inesperado! Stevenson nos prepara magistralmente para esta frase, e quando ela chega, tão abrupta quanto o próprio capítulo, com suas duas únicas páginas, algo é arrancado do nosso rosto também.

Então, na frase seguinte, a janela é instantaneamente fechada e seus amigos vão embora, caminhando velozmente em silêncio, como se fugissem para onde ainda devem haver “alguns sinais de vida”. Um profere as palavras desesperadas “Deus nos perdoe, Deus nos perdoe”. O outro simplesmente se afasta, ainda em silêncio.

Que forte divisão somos forçados a sentir! Cruzamos um limiar entre felicidade e tristeza, bem e mal, luz e escuridão, uma fronteira que todos temos dentro de nós, mas que fazemos o nosso melhor para fingir não existir, para nos convencermos de que temos sob controle.

No entanto, é ordem – não dualidade ou escuridão – em que penso agora enquanto escrevo estas palavras.

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