Tiro

O valão e os terraços.

Algum dia, em algum ano passado, um irmão-combatente foi morto em ação. O dia seguinte, nós fomos para a vingança. Eu fui contra. Eu sou sempre a favor. Muita hipocrisia no ar.

Eu levei um tiro no braço aquele dia. Artéria braquial esquerda completamente partida. O falcão mais próximo imediatamente aplicou um torniquete, depois gaze hemoestática e bandagem. Trabalho perfeito. Mesmo assim, quando perguntado como estava, a coisa mais valente que eu disse foi “Estou enjoado”. É, eu me sentia um pneu furado esvaziando. Eu estava protegido dentro de um veículo blindado; eu tinha tempo para sentir medo. Um luxo raro. É claro que eu não disse que sentia. Era óbvio.

Eu levei o tiro porque eu fui estúpido. Eu sempre serei estúpido assim. A porra do carro em que eu estava não tinha seteiras. Com esperavam que eu atirasse? Como esperavam que alguém atirasse? Meus amigos estavam sendo cercados no olho do furacão. Era uma noite escura. Nós éramos o socorro. Eu perguntei sobre a escotilha. Ela poderia ser aberta. Então, abram! Eles abriram. Ela estava montada ao contrário. Cômico. Ela protegia a frente (que é a função do seu fuzil) e atrapalhava a mira. As suas costas encaravam a morte. A morte veio. Quase.

Saindo da base, um convencional berrou um aviso. Muitos criminosos na favela. Eles iriam atirar em mim. Jura? Dentro, o chefe me avisou. A coisa estava quente lá fora, eu deveria me cuidar. Eu assenti. Estava escuro; eu veria as labaredas. Eles atirariam de longe, sempre com medo do blindado. Eles errariam os primeiros tiros. Eu responderia. Acertando ou errando, eles parariam. O mesmo padrão se repetiria até alcançarmos a equipe. Lá, talvez a coisa ficasse mais séria. Eu adoraria desembarcar. Eu esperava que eu fosse.

Nós entramos pelo valão. Era o caminho mais curto para o Inferno, mas nos deixava exposto para uma grande extensão. Eu sabia que não podia proteger a área toda. Nós continuamos. Só eu estava realmente exposto. Eles errariam. Eu não.

Nós chegamos a um beco sem saída onde entulho estava queimando à frente. Malandros. Mas o beco correto estava à nossa esquerda. Nós tínhamos que ir a pé. Demora. Outro blindado já estava na frente do beco. Eles estavam tentando alguma manobra pirotécnica. Vamos a pé! Não. Me mandaram esperar. Eu sempre vou andando. Eu odeio blindados. Ele fazem tudo parecer irreal. Você não sente a tensão. Muito protegido. É como ser o segundo em uma escalada. Sem comprometimento sério. Sem foco de verdade. Eu odeio isso.

A outra equipe finalmente saiu do querido ventre do seu veículo. Eu tinha o terraço de um pequeno prédio para cobrir e toda a extensão do valão, ambos os lados. Eles estavam avançando sob uma laje de concreto. Não poderiam ser atingidos por ali. E o terraço estava logo acima da minha cabeça. Ninguém chegaria tão perto. Eu virei para cobrir o canal. O desgraçado veio pelo terraço. Três metros de distância. Corajoso, eu tenho que admitir. Má pontaria, no entanto.

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